VOCAÇÃO DO PODER. Documentário

Título Original: Vocação do Poder

Direção: José Joffily e Eduardo Escorel

Gênero: Documentário

Produção: Brasil

Ano: 2005

 

Contundente e oportuno documentário investiga a vocação para a política e registra a primeira campanha de seis candidatos a vereador no Rio em 2004

O documentário Vocação do Poder, que estréia nesta sexta-feira, dos diretores José Joffily e Eduardo Escorel, é resultado de um acompanhamento feito por eles da campanha de 6 dos 1.101 candidatos às 50 vagas na Câmara dos Vereadores nas eleições municipais do Rio em 2004. Para investigar o nascimento de um político, eles realizaram um questionário sobre as orientações políticas e partidárias e as condições da campanha. 

“Foram mais de 70 respostas. Escolhemos os ´finalistas´ em função da diversidade de partidos, perfis e regiões da cidade”, conta Joffily. Talvez fosse menos trabalhoso e mais polêmico investigar a vocação de políticos tarimbados e famosos. 

“Política não é questão de eloqüência, mas de caráter.” “Não vou prometer nada porque não gosto de fazer promessa.” “As redes de poder na periferia passam muito pela política.” Estas declarações poderiam ser de políticos tarimbados, mas são palavras de ordem de candidatos estreantes. 

Mas Joffily e Escorel insistiram em só documentar a campanha de novatos candidatos a vereador, o estrato mais básico do poder. “O depoimento de quem estava no começo da carreira poderia ser mais sincero do que dos veteranos. Aconteceu com O Chamado de Deus (documentário sobre a vocação religiosa) e os bispos eram muito mais reservados que os jovens seminaristas”, explica Joffily. 

Escorel concorda: “Queríamos mostrar a origem. E projetar o que estava por vir, em vez de fazer uma retrospectiva.” 
Os que atenderam ao ´chamado do poder´ são André Luiz Filho (PMDB), de uma família de políticos assistencialistas da periferia; Carlo Caiado (PFL) discípulo do deputado estadual Elder Dantas e do prefeito César Maia; M.C. Geléia (PV), rapper e produtor musical que ´fala a língua da periferia´; a pastora evangélica Márcia Teixeira (PL) que, sob a égide do marido, entrega literalmente para a fé (de seus fiéis) sua carreira; Antonio Pedro (PSDB), cujo reduto, na zona sul, é um dos mais áridos terrenos para plantar sua candidatura e Felipe Santa Cruz (PT), filho de presos políticos que não tem interlocutores para os debates que cria. 

É Felipe quem faz análise mais contundente do terreno ocupado pelos vereadores. “Na zona norte, faz toda diferença ser amigo do vereador. Na zona sul, onde o poder econômico dos eleitores é maior, a dependência é menor.” 

Os diretores concordam. E revelam sua decepção em relação à participação do eleitor na vida política da cidade. “Os jornais nem sequer citavam as campanhas para vereador e os eleitores eram totalmente desinteressados, como se os vereadores não tivesse a mínima importância.” 

FONTE:  Jornal O Estado de São Paulo (Estadão)

http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2005/not20051209p3149.htm

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LUTERO. Filme e Contexto da Reforma Protestante

Título Original: Luther

Direção: Eric Till

Gênero: Drama/Religião

Produção: Alemanha/EUA

Ano: 2003

O filme Lutero retrata a trajetória de Martim Lutero (1483-1546), o grande inspirador da reforma protestante que ocorreu no Século XVI. Lutero sempre alimentou o desejo de ser padre e se tornou doutor em teologia, mas a sua profunda religiosidade tomou caminhos revolucionários que confrontaram diretamente a Igreja Romana, então o poder absoluto daquela época.

Em geral um filme biografia é tomado por um excessivo romantismo e no caso de Lutero não foi diferente. Diversos momentos do filme exageram na elevação do homem Lutero, ao construir a imagem de um homem tomado de dúvidas arrasadoras e que dialoga com o diabo. Não podemos deixar de apreciar a grandeza de Lutero, mas precisamos de lucidez ao analisar os fatos. Em verdade Lutero foi um homem pragmático que sabia do tamanho de suas intenções e obra. Cruzar o caminho da Igreja não foi uma tarefa trivial e certamente Lutero tinha conhecimento dos obstáculos que estavam a sua frente. Ele tirou do seu caminho tudo o que poderia prejudicar a sua grande obra e não exitou em confrontar seus próprios amigos quando a reforma tomou caminhos violentos, como a agressão contra Igrejas.

Lutero foi um predestinado. Ele sabia que mudaria o mundo e avisou o seu tutor. Deixou claro que não deveria existir espanto se ele de fato conseguisse mudar o mundo. Começou a sua busca e embora fosse um religioso convicto, caiu em profunda decepção ao visitar Roma. Ao visitar o centro do catolicismo se revoltou com a forma como os fieis eram tratados e na grande indústria da indulgência então criada. Viu homens e mulheres em precárias condições darem tudo o que tinham em troca do caminho ao Paraíso. Já naquele momento Lutero tinha em mente que o Paraíso deveria ser acessível a todos os homens, independente de suas condições e posses.

Os sentimentos de Lutero foram resumidos em suas 95 Testes. Esse grande documento foi pregado pessoalmente por ele nas portas da Catedral de Wittemberg. A partir daquele momento suas convicções passaram a ser públicas e confrontaram diretamente a Igreja. Roma imediatamente o chamou para um interrogatório, mas com a oportuna intervenção do Príncipe Frederico o julgamento não ocorreu em Roma. Naquele momento era consenso entre todos a volta de Lutero que uma confrontação não seria oportuna. Inclusive seus amigos mais próximos o aconselharam a evitar a confrontação. Lutero relutou em dar uma resposta e pediu mais tempo. No dia seguinte a pergunta foi repetita insistentemente e Lutero finalmente respondeu que a Igreja deveria provar que as suas ideias estavam erradas. A partir daquele momento Lutero seguiu um caminho difererente e bem distante da Igreja.

O Príncipe Frederico articulou uma estratégia para Lutero ser capturado antes que a Igreja o capturasse. Isolado, Lutero traduziu a bíblia para o Alemão e enquanto isso, seus seguidores, inclusive amigos mais íntimos deram andamento a revolução, porém de um modo mais agressivo, o qual contrariou Lutero. Ao tomar conhecimento, Lutero foi imediatamente contra os seus amigos e tenta reestabelecer a ordem.

Embora Lutero tivesse boas intenções, ele não impediu o banho de sangue que a reforma provocou. As confrontações foram inevitáveis e muitas pessoas morreram em defesa de uma ou outra parte.

Vale ressaltar que o filme foi financiado pela Thrivent Financial for Lutherans. Uma organização sem fins lucrativos que busca apoiar iniciativas que promovam o Luteranismo.

Eduardo Stefani – 15/10/2011

AS NEVES DO KILIMANJARO. Filme

por ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

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O filme As Neves do Kilimanjaro começa com um sorteio. O prêmio dos vinte sorteados é a demissão. Estamos em plena crise econômica e este foi o método que a direção sindical encontrou para negociar e tentar salvar outros postos de trabalho. À primeira vista, parece um critério justo. A deusa Fortuna decide quem permanece empregado e quem será demitido. Mas será justo deixar à sorte – boa ou má – uma decisão que afetará vidas? Michel (Jean-Pierre Darroussin), dirigente sindical cinqüentenário, será cobrado – e sua consciência o cobrará – por não ter pensado noutra alternativa que se revelasse mais justa e aliviasse os sofrimentos de todos. Neste momento, porém, ele não vê outra saída.

No início, o filme nos revela a primeira surpresa: o comportamento ético de Michel. Enquanto sindicalista, ele não precisava incluir seu nome entre os possíveis sorteados. Mas ele não considera justo. Amparado em valores éticos, Michel argumenta que a não inclusão seria um privilégio. Ele termina por ser sorteado, a partir de então é um dos 20 desempregados que engrossam as estatísticas. Em sua idade isto significava antecipar uma aposentadoria forçada. E é assim que seus filhos o veem, como um idoso sem futuro. Pelo menos agora terá mais tempo para se dedicar aos netos e a fazer o que os filhos precisam.

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Nesta altura, imaginamos que o filme se focará nas dificuldades, ansiedades e desesperos de um desempregado aposentado forçosamente e sem perspectivas, numa sociedade em crise. Então, ocorre um fato que modifica completamente o foco: Michel e sua esposa Marie-Claire (Ariane Ascaride) ganham um presente na festa de casamento, uma viagem para o monte de Kilimanjaro na Tanzânia e uma quantia em dinheiro. Entre os convidados, está Christophe (Grégoire Leprince-Ringuet), um dos 20 demitidos com o sorteio.

Parece que finalmente iremos acompanhar a viagem à África, mas então nos deparamos com outra direção pelos caminhos dos dilemas e da condição humana em Marselha, cidade litorânea no sul da França. A cena que marca esta mudança de foco é violenta. Dois homens armados e com rostos cobertos invadem a residência e obrigam Michel e sua esposa a entregar o dinheiro que Michel e sua esposa haviam recebido como presente para a viagem ao monte Kilimanjaro. A irmã da sua esposa e o cunhado também são agredidos e assaltados. A partir de então, ela ficará traumatizada e em constante crise. Além disso, eles também levam seus cartões e forçam-nos a informar a senha. Enquanto um dos assaltantes dirige-se ao banco para fazer o saque, o outro se mantém no local. Vai embora após receber a ligação do outro e ser informado que o dinheiro foi sacado. Ao ir-se, leva o gibi que Michel ganhou na festa de casamento – uma raridade. Foi o seu erro! Dias depois, Michel encontra duas crianças e vê o gibi com elas. Pede a elas para ver e confirma que é o seu. Segue as crianças e descobre o paradeiro do seu algoz. Surpreende-se ao perceber que este é o seu ex-colega de trabalho, Christophe. Denuncia-o à polícia, que o prende.

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Aos poucos, Michel e Marie-Claire tomam conhecimento sobre a vida real do jovem assaltante. Na verdade, Christophe é vítima das circunstâncias sociais. Desempregado, sem pai e mãe, responsável pelos dois irmãos menores, concebe o assalto para pagar as dívidas e oferecer-lhes melhores condições. Em sua lógica, roubar o sindicalista justifica-se porque a perda será paga pelo seguro. Para ele, o sindicalista e sua família são pequeno-burgueses. Aqui, temos também um conflito de gerações. Diante da crise econômica, os trabalhadores mais jovens não reconhecem os esforços da geração anterior, pois as conquistas econômicas, sociais e políticas das lutas sindicais durante décadas encontram-se sob ataque. Fragilizados diante da crise, veem o presente e o futuro não lhes parecem promissor. O passado não lhes interessa.

Estamos diante de um jovem ressentido, para quem o fato do companheiro ter uma condição de vida mais estável, uma casa, um carro, etc., coloca-o num patamar privilegiado. O olhar acusatório é ainda mais vigoroso pelo fato da sua vítima ser sindicalista. Christophe chega a acusá-lo de ter recebido propina pelo acordo que propiciou a sua demissão e dos demais. Em seu ódio ressentido, não reconhece o gesto ético de Michel no sorteio. Parece que os papéis se invertem: a vítima torna-se o algoz e vice-versa. O assaltante lança-lhe a pecha de hipócrita e rir da sua disposição em ajudar.

Michel passa a ter crise de consciência desde o primeiro momento em que percebe a conseqüência da sua denúncia. Trata-se de um jovem que cometera o primeiro assalto e fora enganado até mesmo pelo parceiro – que ficou com a maior parte do dinheiro roubado. Ele retira a queixa, mas o processo continua. Por outro lado, sua esposa encontra os irmãos do prisioneiro e passa a ajudá-los. Ambos são generosos e solidários. Mais do que punição, querem compreender. Decidem, apesar da oposição dos filhos, levar as crianças para sua residência.

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Este é um filme sobre o perdão e a solidariedade humana. Michel e sua esposa não esquecem a violência a que foram submetidos, mas não nutrem sentimentos de ressentimento. Também são conscientes de que a punição é parte do problema. Não são punitivos! É difícil compreendê-los. Para muitos, talvez seja mais fácil assimilar a lógica acusatória de Christophe. Mas será que a condição social justifica a violência contra o próximo? Justifica o roubo? No limite chegamos à glorificação do algoz e à máxima de que os fins justificam os meios.

A história de Michel instiga a reflexão. Em que medida realmente assumimos a responsabilidade por nossas decisões e atos? A pergunta pode parecer desproposital, mas não são raras as situações em que indivíduos não assumem as responsabilidades inerentes às suas atitudes, e, claro, as consequências. “A culpa é do capitalismo”, dizem uns; “A culpa é da globalização”, dizem outros. Por um lado, a ideologia neoliberal enfatiza o indivíduo enquanto único responsável pelo sucesso ou fracasso. Na medida em que desconsidera o peso e a influência das estruturas e instituições, econômicas, políticas e sociais, termina por culpabilizar a vítima, o fracassado. Por outro lado, uma certa leitura esquerdista de cunho estruturalista e economicista, com maior ou menor ênfase, ao enfatizar os aspectos estruturais, as condições sociais econômicas, etc., termina por desresponsabilizar o indivíduo e, mais ainda, a justificar seus atos. Ambas as posições são extremos que negam um dos polos da relação ao enfatizar o outro. Pois, se é certo que o indivíduo é um ser social e, portanto, é determinado pela sociedade, pelo contexto sócio-histórico, político, econômico e cultural, também não devemos esquecer que há uma margem de liberdade para decidir. E as nossas decisões não se pautam apenas pelos interesses materiais, mas também são influenciadas por nossos valores éticos. As reações e atitudes dos personagens de As Neves de Kilimanjaro mostram a complexidade e os paradoxos humanos e nos fazem pensar sobre as respostas fáceis fundadas em pensamentos dicotômicos e maniqueístas. Eles nos falam diretamente sobre os dilemas e a condição humana.

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Ficha técnica
Título: As Neves do Kilimanjaro
Título Original: Les Neiges du Kilimandjaro
Gênero: Drama
Diretor: Robert Guédiguian
Duração: 107 minutos
Ano de lançamento: 2011
País de origem: França

ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM).

** Publicado originalmente no Blog da Revista Espaço Acadêmico – http://espacoacademico.wordpress.com/2012/12/19/as-neves-do-kilimanjaro/

ÓLEO DE LORENZO E PATCH ADAMS: A ARROGÂNCIA TITULADA

por ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

Ver também Blog: http://espacoacademico.wordpress.com/2010/06/12/oleo-de-lorenzo-e-patch-adams-a-arrogancia-titulada/

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas. (Machado de Assis)

A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos. A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos. (Eclesiastes 9,16)

Todos os dias, milhares de pessoas se submetem ao deus criado pela humanidade: sua santidade o cientista. Seu santuário localiza-se nos edifícios dos modernos laboratórios, hospitais e universidades. Em todos os lugares, encontramos o especialista, guardião do conhecimento científico, o qual, pretensamente, tem resposta para todos os males que afligem a humanidade. São os pequenos profetas, representantes do saber canônico legitimado pela sociedade, autoridades instituídas que têm o poder da palavra. Como escreve Bourdieu:

“A especificidade do discurso de autoridade (curso, sermão etc.) reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (em alguns casos, ele pode inclusive não ser compreendido sem perder seu poder), é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio.” (1998: 91)

Os estudantes, por exemplo, ficam extasiados com a erudição do mestre. Em certas circunstâncias, quanto mais incompreensível for o discurso do professor mais ele parecerá inteligente. Em geral, passa despercebido o fato de que a instituição universitária legitima o discurso professoral: o docente não precisa saber, mas sim aparentar que sabe. Tempos atrás, havia uma novela onde o personagem, estilo professor-filósofo, discursava em solenidades e o público ficava boquiaberto com tanta sabedoria e erudição; na verdade, embromação.

Este tipo de autoridade se impõe devido à nossa cumplicidade. Quando procuramos o médico aceitamos de bom grado a sua autoridade: suas palavras expressam a verdade científica. Como nós, míseros ignorantes, podemos questioná-lo? Terá o aluno a ousadia de questionar o saber do professor? Ainda que este ou aquele professor seja inquirido neste ou naquele ponto, a sua autoridade estará resguarda pela posição que ocupa na instituição. Ou seja:

“A linguagem de autoridade governa sob a condição de contar com a colaboração daqueles a quem governa, ou seja, graças à assistência dos mecanismos sociais capazes de produzir tal cumplicidade, fundada por sua vez no desconhecimento, que constitui o princípio de toda e qualquer autoridade.” (Id.)

A imposição do saber canônico, da palavra autorizada, inclina-se à arrogância, manifesta ou camuflada (na forma da humildade demagógica). Isto ocorre na medida em que o portador do conhecimento científico não reconhece outro saber. Há quem considere que a posse da sabedoria livresca e do conhecimento titulado e legitimado pela instituição concede status superior. Não fosse o mal e o sofrimento que causa – para si e para os outros –, a arrogância bem que poderia ser desconsiderada ou simplesmente debitada às compreensíveis fraquezas humanas.

Imagine-se no lugar da criança submetida à arrogância professoral, do estudante sacrificado no templo dos pequenos profetas, ávidos e autoritários [1]; imagine-se nos corredores de um hospital, submetido à autoridade dos médicos e burocratas e sem outra opção a não ser esperar e esperar…

E quando, mesmo com toda a cumplicidade à autoridade instituída, nos vemos diante de uma situação desesperadora, para a qual a ciência não tem resposta? O filme O Óleo de Lorenzo ilustra bem esta situação. Trata-se da história de uma criança que tem uma doença rara e, pelos prognósticos dos doutos cientistas, não viverá muito. Logo nas primeiras cenas um fato se sobressai: o sofrimento ao qual o menino é submetido e as dificuldades da ciência em diagnosticar. A fala fria e científica do médico, ao informar o diagnóstico, contrasta com o desespero dos pais. A mãe pergunta se não há uma remota possibilidade de cura, se ele tem certeza. O doutor responde, secamente: “Absoluta”. Só resta a resignação.

Em Patch Adams, fica claro como se chega à objetividade científica traduzida em gestos e falas que mais se assemelham a autômatos. O filme relata a história de um homem com tendência suicida que, no hospício, descobre um sentido para a vida: ajudar o próximo. Nesta busca do outro, ele decide fazer o curso de medicina. Na faculdade, entra em choque com a burocracia e, principalmente, com a filosofia de ensino defendida pelo professor-reitor. O paciente se submete à autoridade do médico, o que atesta o seu poder. Como o poder causa dano, a solução apregoada pelo reitor para evitar ou minorar as conseqüências é a recusa dos sentimentos e a valorização absoluta da objetividade científica. Nesta perspectiva, a tarefa dos professores é desumanizar os futuros médicos, isto é, recusar-lhes o status de humanos (com suas paixões, sonhos, fraquezas e dilemas), e transformá-los em médicos. A relação deixa de ser uma relação entre humanos e passa a ser uma relação sujeito-objeto, do médico com a doença. Os doentes são desumanizados, anulados em sua identidade e transformados num número da ficha hospitalar, num caso a ser estudado, diagnosticado e tratado.

Eis como se forma um cientista desprovido de subjetividade – como se isto fosse possível! A propósito, seria a sisudez um aspecto inerente ao ato de fazer ciência? Observa-se nestes filmes como alguns indivíduos que representam o saber científico (médico, professor, pesquisador, etc.) distanciam-se dos demais seres humanos e adotam um ar de gravidade – confrontado, em Patch Adams, pelo bom humor e o jeito peculiar de encarar a profissão. É interessante como este estilo influencia os estudantes: o aprender transforma-se em sinônimo de desprazer, competição e inveja (como se a cretinice e a chatice fosse condições para o trabalho intelectual). A prática de Patch Adams coloca em xeque o método de ensinar-aprender tradicional. Não por acaso, o reitor defende-se dos questionamentos com um argumento tipicamente científico: “Nosso método é o resultado de séculos de experiência”.

O filme O Óleo de Lorenzo demonstra que, em sua arrogância, os guardiões do saber canônico não admitem concorrência: reflete a contradição entre o saber considerado científico e o saber não reconhecido no campus. Os pais de Lorenzo, na luta para salvar o filho, tornam-se autodidatas, rivalizando com os renomados doutos. As autoridades científicas relutam em aceitar os avanços obtidos nas pesquisas realizadas externamente ao seu controle.

Mas, a resistência não é apenas dos médicos: os demais pais, cujos filhos sofrem da mesma doença de Lorenzo, não aceitam que alguém fora da academia possa atingir o saber científico. Ou seja, negam legitimidade ao saber não-diplomado. “Querem ensinar os médicos”, acusa uma mãe. Em sua opinião, o desafio ao saber estabelecido é um ato arrogante. E ela tem certa razão. Com efeito, a palavra arrogante vem do latim arrogare, que significa apropriar-se de. E de fato, o que o pai de Lorenzo faz é, por meios próprios, apropriar-se do conhecimento científico.

Patch Adams também representa um desafio ao saber instituído, na medida em que questiona seus pressupostos e projeta uma experiência autogestionária, onde todos aprendem e ensinam mutuamente (a idéia de um hospital no qual os doentes e médicos aprendem uns com os outros e somam esforços no sentido de tornar a vida melhor).

Ambos os filmes não descartam o saber instituído. Não há contradição absoluta entre os tipos de saber: o autodidatismo do pai de Lorenzo se referencia no conhecimento científico acumulado e disperso; a crítica de Patch Adams se insere no contexto do campus. Num e noutro caso, não há a negação absoluta do saber científico, mas sim de uma determinada maneira de compreendê-lo e de agir. Tanto o pai de Lorenzo quanto Patch Adams são incorporados e assimilados pelo campo acadêmico.

Óleo de Lorenzo e Patch Adams, baseados em histórias reais, questionam a arrogância titulada e o intelectualismo desencantado do mundo: o saber cientificista, abstrato e sisudo, profundamente desvinculado do humano; um saber que não mergulha no mar da humanidade, um saber desumanizado.

O amor pelo filho e pelo próximo alimenta a paixão pelo conhecimento. “Com efeito, para o homem enquanto homem, nada tem valor a menos que ele possa fazê-lo com paixão”, afirma WEBER (1993: 25). O trabalho realizado com paixão inspira e realiza o homem; o contrário, exprime obrigação, opressão. O exemplo do pai de Lorenzo comprova que o diletantismo, como admite Weber, é positivo:

“No campo das ciências, a intuição do diletante pode ter significado tão grande quanto a do especialista e, por vezes maior. Devemos, aliás, muitas das hipóteses mais frutíferas e dos conhecimentos de maior alcance a diletantes. Estes não se distinguem dos especialistas (…) senão por ausência de segurança no método de trabalho e, amiudamente, em conseqüência, pela incapacidade de verificar, apreciar e explorar o significado da própria intuição”. (Id.: 26)

O saber confrontado pelas experiências relatadas nestes filmes vincula-se, via de regra, à vaidade – que, em defesa dos intelectuais, não é uma propriedade exclusiva do campus. Se todos somos vaidosos, em menor ou maior grau, o problema começa quando a vaidade se traduz em atos autoritários ou se erige em obstáculo às relações humanas (talvez, por isso, há quem prefira os animais).

O mais preocupante nisto tudo é a perda do sentido da vida e da percepção da sua finitude. Se levarmos em conta as sábias palavras em epígrafe, quem sabe nos tornemos mais humildes em relação às nossas pretensões intelectuais e tenhamos uma atitude mais crítica (quanto ao pretenso conhecimento científico) e mais flexível (em relação à sabedoria popular). Quem sabe, aprendamos a controlar a arrogância e nos convençamos de que os títulos acadêmicos não nos tornam essencialmente melhores do que os nossos semelhantes não-titulados.

Referências

BOURDIEU, Pierre. (1988) A Economia das Trocas Lingüísticas: O que Falar Quer Dizer. São Paulo: Edusp.

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. (1988) Memórias póstumas de Brás Cubas. Santiago (Chile): Editora América do Sul LDA. (Biblioteca de Ouro da Literatura Universal)

WEBER, Max. (1993) Ciência e Política: Duas Vocações.  São Paulo: Cultrix.


* ANTONIO OZAI DA SILVA é docente no Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá. Blog: http://antoniozai.wordpress.com. Publicado na REA, nº 28, setembro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/028/28pol.htm

[1] Ver: “As dimensões da relação aprender-ensinar” e “Estudo Errado”: Qual é a capital de Kubanacan? (Revista Espaço Acadêmico, nº 25, Junho de 2003).