AS NEVES DO KILIMANJARO. Filme

por ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

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O filme As Neves do Kilimanjaro começa com um sorteio. O prêmio dos vinte sorteados é a demissão. Estamos em plena crise econômica e este foi o método que a direção sindical encontrou para negociar e tentar salvar outros postos de trabalho. À primeira vista, parece um critério justo. A deusa Fortuna decide quem permanece empregado e quem será demitido. Mas será justo deixar à sorte – boa ou má – uma decisão que afetará vidas? Michel (Jean-Pierre Darroussin), dirigente sindical cinqüentenário, será cobrado – e sua consciência o cobrará – por não ter pensado noutra alternativa que se revelasse mais justa e aliviasse os sofrimentos de todos. Neste momento, porém, ele não vê outra saída.

No início, o filme nos revela a primeira surpresa: o comportamento ético de Michel. Enquanto sindicalista, ele não precisava incluir seu nome entre os possíveis sorteados. Mas ele não considera justo. Amparado em valores éticos, Michel argumenta que a não inclusão seria um privilégio. Ele termina por ser sorteado, a partir de então é um dos 20 desempregados que engrossam as estatísticas. Em sua idade isto significava antecipar uma aposentadoria forçada. E é assim que seus filhos o veem, como um idoso sem futuro. Pelo menos agora terá mais tempo para se dedicar aos netos e a fazer o que os filhos precisam.

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Nesta altura, imaginamos que o filme se focará nas dificuldades, ansiedades e desesperos de um desempregado aposentado forçosamente e sem perspectivas, numa sociedade em crise. Então, ocorre um fato que modifica completamente o foco: Michel e sua esposa Marie-Claire (Ariane Ascaride) ganham um presente na festa de casamento, uma viagem para o monte de Kilimanjaro na Tanzânia e uma quantia em dinheiro. Entre os convidados, está Christophe (Grégoire Leprince-Ringuet), um dos 20 demitidos com o sorteio.

Parece que finalmente iremos acompanhar a viagem à África, mas então nos deparamos com outra direção pelos caminhos dos dilemas e da condição humana em Marselha, cidade litorânea no sul da França. A cena que marca esta mudança de foco é violenta. Dois homens armados e com rostos cobertos invadem a residência e obrigam Michel e sua esposa a entregar o dinheiro que Michel e sua esposa haviam recebido como presente para a viagem ao monte Kilimanjaro. A irmã da sua esposa e o cunhado também são agredidos e assaltados. A partir de então, ela ficará traumatizada e em constante crise. Além disso, eles também levam seus cartões e forçam-nos a informar a senha. Enquanto um dos assaltantes dirige-se ao banco para fazer o saque, o outro se mantém no local. Vai embora após receber a ligação do outro e ser informado que o dinheiro foi sacado. Ao ir-se, leva o gibi que Michel ganhou na festa de casamento – uma raridade. Foi o seu erro! Dias depois, Michel encontra duas crianças e vê o gibi com elas. Pede a elas para ver e confirma que é o seu. Segue as crianças e descobre o paradeiro do seu algoz. Surpreende-se ao perceber que este é o seu ex-colega de trabalho, Christophe. Denuncia-o à polícia, que o prende.

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Aos poucos, Michel e Marie-Claire tomam conhecimento sobre a vida real do jovem assaltante. Na verdade, Christophe é vítima das circunstâncias sociais. Desempregado, sem pai e mãe, responsável pelos dois irmãos menores, concebe o assalto para pagar as dívidas e oferecer-lhes melhores condições. Em sua lógica, roubar o sindicalista justifica-se porque a perda será paga pelo seguro. Para ele, o sindicalista e sua família são pequeno-burgueses. Aqui, temos também um conflito de gerações. Diante da crise econômica, os trabalhadores mais jovens não reconhecem os esforços da geração anterior, pois as conquistas econômicas, sociais e políticas das lutas sindicais durante décadas encontram-se sob ataque. Fragilizados diante da crise, veem o presente e o futuro não lhes parecem promissor. O passado não lhes interessa.

Estamos diante de um jovem ressentido, para quem o fato do companheiro ter uma condição de vida mais estável, uma casa, um carro, etc., coloca-o num patamar privilegiado. O olhar acusatório é ainda mais vigoroso pelo fato da sua vítima ser sindicalista. Christophe chega a acusá-lo de ter recebido propina pelo acordo que propiciou a sua demissão e dos demais. Em seu ódio ressentido, não reconhece o gesto ético de Michel no sorteio. Parece que os papéis se invertem: a vítima torna-se o algoz e vice-versa. O assaltante lança-lhe a pecha de hipócrita e rir da sua disposição em ajudar.

Michel passa a ter crise de consciência desde o primeiro momento em que percebe a conseqüência da sua denúncia. Trata-se de um jovem que cometera o primeiro assalto e fora enganado até mesmo pelo parceiro – que ficou com a maior parte do dinheiro roubado. Ele retira a queixa, mas o processo continua. Por outro lado, sua esposa encontra os irmãos do prisioneiro e passa a ajudá-los. Ambos são generosos e solidários. Mais do que punição, querem compreender. Decidem, apesar da oposição dos filhos, levar as crianças para sua residência.

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Este é um filme sobre o perdão e a solidariedade humana. Michel e sua esposa não esquecem a violência a que foram submetidos, mas não nutrem sentimentos de ressentimento. Também são conscientes de que a punição é parte do problema. Não são punitivos! É difícil compreendê-los. Para muitos, talvez seja mais fácil assimilar a lógica acusatória de Christophe. Mas será que a condição social justifica a violência contra o próximo? Justifica o roubo? No limite chegamos à glorificação do algoz e à máxima de que os fins justificam os meios.

A história de Michel instiga a reflexão. Em que medida realmente assumimos a responsabilidade por nossas decisões e atos? A pergunta pode parecer desproposital, mas não são raras as situações em que indivíduos não assumem as responsabilidades inerentes às suas atitudes, e, claro, as consequências. “A culpa é do capitalismo”, dizem uns; “A culpa é da globalização”, dizem outros. Por um lado, a ideologia neoliberal enfatiza o indivíduo enquanto único responsável pelo sucesso ou fracasso. Na medida em que desconsidera o peso e a influência das estruturas e instituições, econômicas, políticas e sociais, termina por culpabilizar a vítima, o fracassado. Por outro lado, uma certa leitura esquerdista de cunho estruturalista e economicista, com maior ou menor ênfase, ao enfatizar os aspectos estruturais, as condições sociais econômicas, etc., termina por desresponsabilizar o indivíduo e, mais ainda, a justificar seus atos. Ambas as posições são extremos que negam um dos polos da relação ao enfatizar o outro. Pois, se é certo que o indivíduo é um ser social e, portanto, é determinado pela sociedade, pelo contexto sócio-histórico, político, econômico e cultural, também não devemos esquecer que há uma margem de liberdade para decidir. E as nossas decisões não se pautam apenas pelos interesses materiais, mas também são influenciadas por nossos valores éticos. As reações e atitudes dos personagens de As Neves de Kilimanjaro mostram a complexidade e os paradoxos humanos e nos fazem pensar sobre as respostas fáceis fundadas em pensamentos dicotômicos e maniqueístas. Eles nos falam diretamente sobre os dilemas e a condição humana.

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Ficha técnica
Título: As Neves do Kilimanjaro
Título Original: Les Neiges du Kilimandjaro
Gênero: Drama
Diretor: Robert Guédiguian
Duração: 107 minutos
Ano de lançamento: 2011
País de origem: França

ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM).

** Publicado originalmente no Blog da Revista Espaço Acadêmico – http://espacoacademico.wordpress.com/2012/12/19/as-neves-do-kilimanjaro/

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Documentário: ALÉM DO ATEU E DO ATEÍSMO (Beyond the Atheist and Atheism)

“Tenho nojo de quem não acredita em Deus, não sei pra que vive uma pessoa dessa!” / “O Homem mais triste do mundo é aquele que não acredita em Deus!” / “Perdão mas você que não acredita em Deus é um ser humano vazio, totalmente oco por dentro” / “As igrejas, fanáticas ou não, sempre ‘regularam’ os comportamentos. Onde falta Deus, a desgraça se espalha”

PRODUTIVISMO ACADÊMICO – Sobre as dificuldades de escrever!

1171A Profa. Ana Maria Netto Machado, no texto publicado na obra A bússola do escrever: desafios na orientação de teses e dissertações, organizada por ela e o Prof. Lucídio Bianchetti, afirma:

“A observação prática nos mestrados demonstra, de uma maneira inquestionável, que 15 ou mais anos de língua português não desenvolveram, na grande maioria dos adultos, qualquer intimidade com a sua própria escrita, de modo que eles não conseguem escrever com facilidade, nem razoavelmente, nem corretamente, nem sem sofrimento. Isto é válido para autores ávidos, oradores eloqüentes e bem-sucedidos, cuja cultura não lhes garante a habilidade para escrever. É fácil constatar essas teses no meio acadêmico entre bons professores”.[1]

Ela conclui que, “salvo raras exceções, podemos insistir, sem equivoco, que 15 anos de língua portuguesa não habilitam para escrever”.[2]

Embora a obra referida tenha sido publicada há 10 anos, o diagnóstico é, no mínimo, preocupante. Será que o quadro geral mudou? Não tenho condições de aferição plena, pois não participo da pós-graduação, mas me parece que a percepção da professora permanece válida. A minha experiência em participação em bancas, enquanto leitor dos trabalhos acadêmicos na graduação e como editor e consultor dos artigos ditos científicos confirma-o. Não é meu intuito desvalorizar nenhum autor, graduando ou pós-graduando, mas apenas constatar um fato que corrobora as palavras da professora.

Espera-se dos pós-graduandos que concluam seus trabalhos e defendam suas teses e dissertações, especialmente se recebem bolsas. São recursos da sociedade e, portanto, há imperativo ético. A responsabilidade social do pós-graduando é imensa e não diz respeito apenas ao orientador, programa e instituição.

Nem sempre a defesa e o título conquistado têm relação estreita com o domínio da escrita e o escrever bem. Aliás, a experiência editorial, especialmente na Revista Urutágua, demonstra que não existe relação de causalidade entre titulação e capacidade de escrever. Já li textos de graduandos melhores escritos do que outros cujos autores são pós-graduandos, mestres e até mesmos doutores.

Se o pós-graduando enfrenta dificuldades para escrever sua dissertação ou tese, por que exigir que escreva artigos para periódicos? Ora, sejamos sensatos, nem todos temos inspiração ou competência inerentes ao bom escritor. Escrever é algo mais do que juntar palavras, organizar citações, apresentar tabelas e quadros que possam impressionar. A escrita por obrigatoriedade produz resultados desanimadores e, muito vezes, o auto-engano. A vaidade é também uma forma de ilusão! No mercado dos bens simbólicos, a publicação de um artigo não oferece certificado de boa escrita, mas apenas a constatação de que se cumpriu a demanda produtivista. Se o pós-graduando se vê pressionado a publicar, por que não antecipar a publicação da dissertação em forma de artigos? Como pode o mestrando/doutorando se dedicar ao seu trabalho final se tem que publicar agora? É preciso muita capacidade para se desdobrar…

Para muitos escrever é quase como uma tortura – não é por acaso que pós-graduandos entram em crise psíquica e, muitas vezes, comprometem a saúde física e as relações pessoais. Deveria ser suficiente esperar que concluam o trabalho de pós-graduação. Há as exceções, os que não têm problemas em produzir, ou seja, lidam com a escrita de forma tranqüila – e há também os competidores compulsivos, os quais se alimentam psiquicamente da pressão produtivista. Não obstante, para além das exigências formais e éticas, é mais sensato aceitar o fato de que nem todos gostamos de escrever, que não temos o mesmo domínio da escrita e aptidão. Não é melhor resguardar o direito de quem não quer publicar ou escrever de acordo com a capacidade e condições?

Por que e prá quê publicar? Por que obrigar o pós-graduando a isto? Não é suficiente que conclua a pós-graduação da melhor forma possível? Que ele publique, mas se for capaz e desejar. Da mesma forma, por que exigir do seu orientador a publicação de artigos? Também ele não tem o direito de ser “improdutivo”? As exigências produtivistas nos cegam diante de um simples fato: escrever não é fácil e nem está automaticamente vinculado à titulação. Publicar e escrever bem não são sinônimos. Escrever deveria ser um exercício prazeroso e não um tormento!


[1] MACHADO, Ana Maria Netto. A relação entre autoria e a orientação no processo de elaboração de teses e dissertações. In: BIANCHETTI, Lucídio e MACHADO, Ana Maria Netto (orgs.) (2002) A bússola do escrever: desafios na orientação de teses e dissertações. Florianópolis: Editora da UFSC; São Paulo: Cortez Editora, p.52