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ÓLEO DE LORENZO E PATCH ADAMS: A ARROGÂNCIA TITULADA

por ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

Ver também Blog: http://espacoacademico.wordpress.com/2010/06/12/oleo-de-lorenzo-e-patch-adams-a-arrogancia-titulada/

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas. (Machado de Assis)

A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos. A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos. (Eclesiastes 9,16)

Todos os dias, milhares de pessoas se submetem ao deus criado pela humanidade: sua santidade o cientista. Seu santuário localiza-se nos edifícios dos modernos laboratórios, hospitais e universidades. Em todos os lugares, encontramos o especialista, guardião do conhecimento científico, o qual, pretensamente, tem resposta para todos os males que afligem a humanidade. São os pequenos profetas, representantes do saber canônico legitimado pela sociedade, autoridades instituídas que têm o poder da palavra. Como escreve Bourdieu:

“A especificidade do discurso de autoridade (curso, sermão etc.) reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (em alguns casos, ele pode inclusive não ser compreendido sem perder seu poder), é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio.” (1998: 91)

Os estudantes, por exemplo, ficam extasiados com a erudição do mestre. Em certas circunstâncias, quanto mais incompreensível for o discurso do professor mais ele parecerá inteligente. Em geral, passa despercebido o fato de que a instituição universitária legitima o discurso professoral: o docente não precisa saber, mas sim aparentar que sabe. Tempos atrás, havia uma novela onde o personagem, estilo professor-filósofo, discursava em solenidades e o público ficava boquiaberto com tanta sabedoria e erudição; na verdade, embromação.

Este tipo de autoridade se impõe devido à nossa cumplicidade. Quando procuramos o médico aceitamos de bom grado a sua autoridade: suas palavras expressam a verdade científica. Como nós, míseros ignorantes, podemos questioná-lo? Terá o aluno a ousadia de questionar o saber do professor? Ainda que este ou aquele professor seja inquirido neste ou naquele ponto, a sua autoridade estará resguarda pela posição que ocupa na instituição. Ou seja:

“A linguagem de autoridade governa sob a condição de contar com a colaboração daqueles a quem governa, ou seja, graças à assistência dos mecanismos sociais capazes de produzir tal cumplicidade, fundada por sua vez no desconhecimento, que constitui o princípio de toda e qualquer autoridade.” (Id.)

A imposição do saber canônico, da palavra autorizada, inclina-se à arrogância, manifesta ou camuflada (na forma da humildade demagógica). Isto ocorre na medida em que o portador do conhecimento científico não reconhece outro saber. Há quem considere que a posse da sabedoria livresca e do conhecimento titulado e legitimado pela instituição concede status superior. Não fosse o mal e o sofrimento que causa – para si e para os outros –, a arrogância bem que poderia ser desconsiderada ou simplesmente debitada às compreensíveis fraquezas humanas.

Imagine-se no lugar da criança submetida à arrogância professoral, do estudante sacrificado no templo dos pequenos profetas, ávidos e autoritários [1]; imagine-se nos corredores de um hospital, submetido à autoridade dos médicos e burocratas e sem outra opção a não ser esperar e esperar…

E quando, mesmo com toda a cumplicidade à autoridade instituída, nos vemos diante de uma situação desesperadora, para a qual a ciência não tem resposta? O filme O Óleo de Lorenzo ilustra bem esta situação. Trata-se da história de uma criança que tem uma doença rara e, pelos prognósticos dos doutos cientistas, não viverá muito. Logo nas primeiras cenas um fato se sobressai: o sofrimento ao qual o menino é submetido e as dificuldades da ciência em diagnosticar. A fala fria e científica do médico, ao informar o diagnóstico, contrasta com o desespero dos pais. A mãe pergunta se não há uma remota possibilidade de cura, se ele tem certeza. O doutor responde, secamente: “Absoluta”. Só resta a resignação.

Em Patch Adams, fica claro como se chega à objetividade científica traduzida em gestos e falas que mais se assemelham a autômatos. O filme relata a história de um homem com tendência suicida que, no hospício, descobre um sentido para a vida: ajudar o próximo. Nesta busca do outro, ele decide fazer o curso de medicina. Na faculdade, entra em choque com a burocracia e, principalmente, com a filosofia de ensino defendida pelo professor-reitor. O paciente se submete à autoridade do médico, o que atesta o seu poder. Como o poder causa dano, a solução apregoada pelo reitor para evitar ou minorar as conseqüências é a recusa dos sentimentos e a valorização absoluta da objetividade científica. Nesta perspectiva, a tarefa dos professores é desumanizar os futuros médicos, isto é, recusar-lhes o status de humanos (com suas paixões, sonhos, fraquezas e dilemas), e transformá-los em médicos. A relação deixa de ser uma relação entre humanos e passa a ser uma relação sujeito-objeto, do médico com a doença. Os doentes são desumanizados, anulados em sua identidade e transformados num número da ficha hospitalar, num caso a ser estudado, diagnosticado e tratado.

Eis como se forma um cientista desprovido de subjetividade – como se isto fosse possível! A propósito, seria a sisudez um aspecto inerente ao ato de fazer ciência? Observa-se nestes filmes como alguns indivíduos que representam o saber científico (médico, professor, pesquisador, etc.) distanciam-se dos demais seres humanos e adotam um ar de gravidade – confrontado, em Patch Adams, pelo bom humor e o jeito peculiar de encarar a profissão. É interessante como este estilo influencia os estudantes: o aprender transforma-se em sinônimo de desprazer, competição e inveja (como se a cretinice e a chatice fosse condições para o trabalho intelectual). A prática de Patch Adams coloca em xeque o método de ensinar-aprender tradicional. Não por acaso, o reitor defende-se dos questionamentos com um argumento tipicamente científico: “Nosso método é o resultado de séculos de experiência”.

O filme O Óleo de Lorenzo demonstra que, em sua arrogância, os guardiões do saber canônico não admitem concorrência: reflete a contradição entre o saber considerado científico e o saber não reconhecido no campus. Os pais de Lorenzo, na luta para salvar o filho, tornam-se autodidatas, rivalizando com os renomados doutos. As autoridades científicas relutam em aceitar os avanços obtidos nas pesquisas realizadas externamente ao seu controle.

Mas, a resistência não é apenas dos médicos: os demais pais, cujos filhos sofrem da mesma doença de Lorenzo, não aceitam que alguém fora da academia possa atingir o saber científico. Ou seja, negam legitimidade ao saber não-diplomado. “Querem ensinar os médicos”, acusa uma mãe. Em sua opinião, o desafio ao saber estabelecido é um ato arrogante. E ela tem certa razão. Com efeito, a palavra arrogante vem do latim arrogare, que significa apropriar-se de. E de fato, o que o pai de Lorenzo faz é, por meios próprios, apropriar-se do conhecimento científico.

Patch Adams também representa um desafio ao saber instituído, na medida em que questiona seus pressupostos e projeta uma experiência autogestionária, onde todos aprendem e ensinam mutuamente (a idéia de um hospital no qual os doentes e médicos aprendem uns com os outros e somam esforços no sentido de tornar a vida melhor).

Ambos os filmes não descartam o saber instituído. Não há contradição absoluta entre os tipos de saber: o autodidatismo do pai de Lorenzo se referencia no conhecimento científico acumulado e disperso; a crítica de Patch Adams se insere no contexto do campus. Num e noutro caso, não há a negação absoluta do saber científico, mas sim de uma determinada maneira de compreendê-lo e de agir. Tanto o pai de Lorenzo quanto Patch Adams são incorporados e assimilados pelo campo acadêmico.

Óleo de Lorenzo e Patch Adams, baseados em histórias reais, questionam a arrogância titulada e o intelectualismo desencantado do mundo: o saber cientificista, abstrato e sisudo, profundamente desvinculado do humano; um saber que não mergulha no mar da humanidade, um saber desumanizado.

O amor pelo filho e pelo próximo alimenta a paixão pelo conhecimento. “Com efeito, para o homem enquanto homem, nada tem valor a menos que ele possa fazê-lo com paixão”, afirma WEBER (1993: 25). O trabalho realizado com paixão inspira e realiza o homem; o contrário, exprime obrigação, opressão. O exemplo do pai de Lorenzo comprova que o diletantismo, como admite Weber, é positivo:

“No campo das ciências, a intuição do diletante pode ter significado tão grande quanto a do especialista e, por vezes maior. Devemos, aliás, muitas das hipóteses mais frutíferas e dos conhecimentos de maior alcance a diletantes. Estes não se distinguem dos especialistas (…) senão por ausência de segurança no método de trabalho e, amiudamente, em conseqüência, pela incapacidade de verificar, apreciar e explorar o significado da própria intuição”. (Id.: 26)

O saber confrontado pelas experiências relatadas nestes filmes vincula-se, via de regra, à vaidade – que, em defesa dos intelectuais, não é uma propriedade exclusiva do campus. Se todos somos vaidosos, em menor ou maior grau, o problema começa quando a vaidade se traduz em atos autoritários ou se erige em obstáculo às relações humanas (talvez, por isso, há quem prefira os animais).

O mais preocupante nisto tudo é a perda do sentido da vida e da percepção da sua finitude. Se levarmos em conta as sábias palavras em epígrafe, quem sabe nos tornemos mais humildes em relação às nossas pretensões intelectuais e tenhamos uma atitude mais crítica (quanto ao pretenso conhecimento científico) e mais flexível (em relação à sabedoria popular). Quem sabe, aprendamos a controlar a arrogância e nos convençamos de que os títulos acadêmicos não nos tornam essencialmente melhores do que os nossos semelhantes não-titulados.

Referências

BOURDIEU, Pierre. (1988) A Economia das Trocas Lingüísticas: O que Falar Quer Dizer. São Paulo: Edusp.

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. (1988) Memórias póstumas de Brás Cubas. Santiago (Chile): Editora América do Sul LDA. (Biblioteca de Ouro da Literatura Universal)

WEBER, Max. (1993) Ciência e Política: Duas Vocações.  São Paulo: Cultrix.


* ANTONIO OZAI DA SILVA é docente no Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá. Blog: http://antoniozai.wordpress.com. Publicado na REA, nº 28, setembro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/028/28pol.htm

[1] Ver: “As dimensões da relação aprender-ensinar” e “Estudo Errado”: Qual é a capital de Kubanacan? (Revista Espaço Acadêmico, nº 25, Junho de 2003).

SUGESTÕES À CRISE DE IDEIAS

 Escrito por Wladimir Pomar 26-Mai-2010   
 
Com a aplicação das políticas de desenvolvimento nacional em países da periferia, a globalização deixou de ter o neoliberalismo como única vertente. Embora os resultados da vertente desenvolvimentista tenham sido diferentes de país para país da periferia, os resultados gerais foram superiores aos dos países e regiões que aplicaram a vertente neoliberal. Basta comparar boa parte dos países da Ásia e alguns países da África, com a América Latina, onde o neoliberalismo fez estragos consideráveis. E comparar o Brasil da atualidade com o Brasil do tempo em que o neoliberalismo, com Collor e FHC, foi soberano.

Em muitos países em desenvolvimento, a questão social deixou de ficar circunscrita às políticas assistenciais para se transformar em políticas efetivas de redistribuição de renda e ampliação dos direitos de participação na riqueza da nação.Várias nações da periferia deixaram de confiar na livre movimentação financeira e na total passividade em relação aos procedimentos das frações financeiras do capital no exterior, e aumentaram os controles sobre essa movimentação. Deixou de ser uma norma o congelamento dos padrões de vida. Embora a população mundial vivendo abaixo da linha da pobreza ainda seja imensa, a transformação dos países agrários em países em desenvolvimento industrial permitiu retirar da linha da pobreza mais de um bilhão de pessoas nos últimos 20 anos. E embora a distribuição da riqueza ainda seja desigual, o número dos que ascenderam da pobreza para as classes médias se elevou consideravelmente. Vários desses países em desenvolvimento reduziram sua distância em relação aos países centrais. China, Índia e também o Brasil disputam melhores posições no ranking de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, em conjunto com os demais países em desenvolvimento, passaram a ter voz ativa nos assuntos internacionais. Assim, por mais que se esforce, a superpotência não mais consegue tomar decisões sozinha, vendo-se obrigada a realizar sondagens e consultas em relação a uma série enorme de questões. 

É verdade que a dependência da disponibilidade de recursos energéticos não renováveis, para manter o elevado padrão de vida do Primeiro Mundo, que consome quatro vezes mais petróleo por habitante do que a periferia mundial, é algo como um calcanhar de Aquiles para a redução da distância centro-periferia. Mesmo assim, faz algum tempo que as quatro ou seis irmãs petroleiras deixaram de dominar todas as fontes de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que o uso de energias renováveis avança mais rapidamente do que se supunha há alguns anos. A situação hoje é mais favorável aos países periféricos do que há 20 anos atrás.

 Nada disso significa que esteja resolvida a contradição entre o discurso neoliberal sobre a globalização e a tendência de desenvolvimento adotada por vários países emergentes. Embora o fracasso econômico e político do neoliberalismo seja reconhecido, até em alguns círculos de Washington, suas idéias continuam fortes em relação a uma série de questões. Ainda hoje, por exemplo, há muita gente que acredita que crescimento econômico causa inevitavelmente inflação, devendo ser freado. Ou que políticas públicas de distribuição de renda para a redução da pobreza são despesas inúteis que deveriam ser evitadas.

 Paralelamente a isso, a diversidade e a multipolaridade do novo mundo que está surgindo talvez imponham um processo político e militar ainda mais complexo do que aquele que levou à transição da hegemonia imperial inglesa para a norte-americana, durante o século 20. Não se pode esquecer que a superpotência continua com um poder destrutivo inigualável e mantém inabalável sua pretensão hegemônica e dominadora. Porém, ela está cada vez mais se parecendo com o Império Romano, que dependia dos tributos das regiões dominadas para se manter em pé, o que pode levá-la a medidas desesperadas.

 Além disso, os gastos em armamentos traziam embutidas as contradições de causar destruições e perdas imensas de riquezas e, ao mesmo tempo, gerar empregos e desenvolver as tecnologias e as ciências, assim como promover a riqueza tanto dos fabricantes de armas quanto das nações bélicas. Até a Guerra do Golfo, pelo menos, os investimentos em armas mantiveram, para a superpotência, as vantagens de gerar empregos, desenvolver tecnologias e ciências e canalizar riquezas para seus fabricantes de armas e para o Tesouro dos Estados Unidos.

 No entanto, depois disso, parece estar cada vez mais evidente que o desenvolvimento das ciências e das tecnologias na produção de armas elevou-se a tal sofisticação e custo que talvez tenha invertido aquelas vantagens. As guerras do Iraque e do Afeganistão estão mostrando que os Estados Unidos tornaram suas armas cada vez mais destrutivas, trazendo lucros enormes para seus fabricantes e desenvolvendo ainda mais a capacidade científica e tecnológica. Porém, como nação, os EUA já não conseguem recuperar seus gastos. Além de gerar poucos empregos, as guerras estão perdendo sua capacidade de produzir crescimento econômico e riquezas para a sociedade que tem o poder de provocá-las.

 Este parece ser um problema que pesará cada vez mais sobre a superpotência. O fato de o governo Obama ter proposto uma verba de quase um trilhão de dólares para despesas com armamentos é uma indicação da força ainda preponderante do complexo industrial-militar na política da superpotência. Mas só vai agravar aquela contradição, ao invés de resolvê-la.

 Se olharmos o sumário acima com certa atenção, poderemos chegar à conclusão de que a contraposição dominante no mundo de hoje não reside na dicotomia entre o discurso da globalização e o da sustentabilidade da economia mundial. A globalização pode ser favorável ao desenvolvimento das nações periféricas se elas tiverem soberania e aplicarem políticas consistentes de desenvolvimento. E pode ser favorável à sustentabilidade da economia mundial se a multipolaridade se impuser à unipolaridade, sem conflitos armados.

 Além disso, se quisermos olhar mais longe no futuro, será necessário também aprofundar nossa compreensão e nossas idéias sobre a contraposição entre o modo de produção capitalista e a sustentabilidade econômica, tanto em nível nacional quanto mundial. O modo capitalista vive a contradição de ser o mais efetivo no desenvolvimento das forças produtivas sociais e, ao mesmo tempo, o mais destrutivo no uso dos recursos naturais e humanos, por subordinar tudo às margens de rentabilidade ou lucratividade.

 Nesse sentido, a globalização talvez seja uma oportunidade imperdível se a contradição entre o capitalismo e a sustentabilidade e a racionalidade econômica se tornar consciente para os povos de todo o mundo e for encaminhada para uma transição criativa. Temos aí um campo vasto de estudos, debates e realizações práticas para dar fim à crise de idéias.

 Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Texto publicado no Correio da Cidadania http://www.correiocidadania.com.br/content/view/4680/46/