IANNI, A POESIA NA SOCIOLOGIA

por José de Souza Martins*Ianni

 

Octavio Ianni falece no mesmo ano em que completaria meio século de vida intelectual intensamente dedicada à Sociologia: formou-se em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1954. O meio século do que foi em sua vida, e na vida de todos nós que com ele convivemos, o meio século dos extremos: da euforia desenvolvimentista da era JK aos tempos tenebrosos da ditadura militar, de que ele foi uma das vítimas, aos tempos, enfim, de uma era de esperança e, ao que parece, por uma sua entrevista recente, de desilusões políticas.

Nesses extremos, um primeiro trabalho de Octavio sobre o samba de terreiro em Itu, sua amada terra caipira, foi o capítulo inicial de uma rica preocupação com o negro, a cultura popular, o mundo caipira, o homem simples, como ele o denominou num belo e definitivo ensaio. E também com a alegria que atravessa desde sempre nossos dilemas e nossas contradições para nos dizer que a vida é um pontilhado de opostos, único jeito de construir o novo e o mundo novo. Esse estudo é o prenúncio da obra de um homem permanentemente devotado à compreensão sociológica das diferenças sociais, das injustiças a elas associadas, das vacilações na busca de meios de superá-las. Mas nunca a obra do ingênuo do palavrório radical, tão em moda e tão inócuo, da crítica superficial e infundada.

Ao contrário, Ianni foi um pensador sereno e sensato. Ele foi um artesão do pensamento crítico no Brasil, autor de uma obra marcada de iluminuras que anunciam a estética de cada texto que escrevia para dizer-nos que o pensamento crítico não é uma farra do espírito e do denuncismo barato e incompetente. Para ele, o pensamento crítico é o pensamento responsável e fundamentado, acima das facções de toda ordem, expressão da neutralidade ética, mas não da indiferença social e política, produto da descoberta paciente, da indagação organizada, da investigação científica cuidadosa e não raro demorada. Lembro dele, meu professor no curso de graduação, explicando-me em sua apertada sala lá da rua Maria Antônia, que na sociologia a construção de uma interpretação dos dados de uma pesquisa é como a elaboração de uma sinfonia: a partir da descoberta do tema o sociólogo vai descobrindo desdobramentos, vai compondo sua obra, sua interpretação, as conexões de sentido, a explicação científica, o todo que se esconde atrás do factual, a universalidade contida no singular, no discreto e até no minúsculo.

036ianniIanni nunca se propôs a ser um pai da pátria, de dedo em riste discursando verdades incontestáveis, como se fosse dele o mandato de apontar rumos e denunciar descaminhos. Mas nem por isso deixou de expressar publicamente os resultados de suas observações, de expor-se à contestação se necessário, de animar a controvérsia e provocar a busca de clareza na construção de uma consciência social e política do contemporâneo. Ele nunca se afastou de uma referência clássica da sociologia, que foi uma das orientações centrais da chamada “escola sociológica de São Paulo”, uma expressão muito forte na obra de Florestan Fernandes: a sociologia é a autoconsciência científica da sociedade, a definição perfeita da missão social do sociólogo.

Não é estranho, pois, que no outro extremo de sua vida esteja uma entrevista de poucos dias antes de sua morte, publicada uma semana depois de seu falecimento, contendo dura e objetiva análise do momento político nacional e internacional, apontando não só incoerências do partido governante e do próprio governante, mas também desencontros entre a consciência política oficial e a realidade social e política deste momento histórico. Ironia oportuna da vida diante da óbvia tentativa de manipular a cena funerária por parte do partido dominante, em face do distanciamento que a própria vida acadêmica interpôs entre ele e seu colega e amigo de muitos anos, Fernando Henrique Cardoso. Manipulação injusta e descabida que já indica mais um empenho de envolvimento dos mortos nas conveniências dos vivos, como se fez com Florestan Fernandes e Milton Santos, fazendo-os autores do discurso que não fizeram e adeptos de opções que quem os conheceu sabe que provavelmente não fariam.

Entre esses pontos demarcatórios da cronologia de uma vida intelectual fecunda e exemplar, há os muitos episódios que para essa geração fizeram entrecruzar-se a biografia e a História. É nesse embate que o italianinho de Itu (designação depreciativa com que era tratado pelas famílias tradicionais, quando criança, que o magoava profundamente) supera a trama da subalternidade tecida para colher e enredar o imigrante nas funções inferiores da economia. Da adversidade dos que o destino previsível condenara a anularem-se no trabalho dependente, nasce o intelectual, o cientista competente, o autor de uma obra que é uma das mais lúcidas interpretações do Brasil, uma expressão poderosa de nossa consciência social e política.

036ianni2Mas não se politize tudo nem se transforme Ianni num reles ideólogo de partido, que ele não era e nunca se dispôs a ser. Em sua obra havia uma lindíssima tensão entre os temas duros e politizáveis da Sociologia – como a objetividade, as relações de classe, as relações raciais, o Estado, o planejamento, o globalismo – e os temas próprios do que se poderia definir como uma estética sociológica. Nos indevidamente chamados de pequenos trabalhos, há poderosas indicações de uma grande obra de autor sensível ao propriamente poético da realidade social, da fala do homem simples, das expressões estéticas da complicada e dramática sociedade contemporânea, como no seminal “O jovem radical”, em “A mentalidade do homem simples” ou em “A solidão do cidadão Kane”. Ianni permitiu e quis que o belo e o poético contidos na vida social emergissem em muitos momentos de sua obra, uma forma poderosa de crítica do homem comum ao que acabou sendo a indigência das teses sobre a chamada “exclusão social”, a louvação da pobreza como virtude, como se o homem pobre fosse ao mesmo tempo um idiota cultural, dependente dos mediadores que o calaram e capturaram sua palavra e seu direito de palavra.

Na obra de Ianni, o homem simples fala de vários modos. Não apenas a fala simples, mas também  o refinamento poético de que os simples sabem revestir as suas poucas palavras, forma de contestar na prática a retilínea opressão da racionalidade que nos domina. Não há como sonhar sem ser poeta. Mais do que ninguém na sociologia brasileira, Octavio compreendeu com sociologia e poesia o silêncio dos banidos da cena histórica, dos que foram roubados de muitos modos, não só pela burguesia e o grande capital.

Octavio encerrou o seu poema sinfônico poucos dias antes da morte com uma conferência magistral sobre a arte na ciência, na mesma Faculdade de Filosofia da USP em que estudou, em que ensinou e que o amou apesar das amarguras de um destino comum descabidamente dilacerado nos desencontros da História.

 


* JOSÉ DE SOUZA MARTINS é Professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e fellow de Trinity Hall e professor titular da Cátedra Simon Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994). Foi aluno de Octavio Ianni na USP (1961-1964) e seu colega na antiga Cadeira de Sociologia I, de Florestan Fernandes. Dentre outros livros, autor de Florestan – Sociologia e consciência social no Brasil, Edusp – Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, São Paulo, 1998. Fonte: Jornal da Unicamp, Edição 248, Campinas (SP), de 19 a 25 de abril de 2004. Publicado na REA, nº 36, maio de 2004, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/036/36cmartins.htm

 

PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REA – http://espacoacademico.wordpress.com/2013/02/23/ianni-a-poesia-na-sociologia/

MOVIMENTO ZEITGEIST EM PORTUGAL

MOVIMENTO ZEITGEIST EM PORTUGAL

“Toda a indústria da propaganda e a sociedade de consumo entrariam em colapso se as pessoas se tornassem iluminadas e deixassem de tentar encontrar as suas identidades através dos objectos.” 

– Eckhart Tolle

CAPITALISMO GLOBAL, PROLETARIEDADE E OS LIMITES DA INDIGNAÇÃO. Giovanni Alves

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[Publicado originalmente no Blog da Boitempo – http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/03/05/capitalismo-global-proletariedade-e-os-limites-da-indignacao/]

Nos primórdios do século XXI, torna-se cada vez mais visível, numa perspectiva histórico-mundial, o que Karl Marx e Friedrich Engels salientaram em A ideologia alemã, como sendo a grande massa da humanidade “destituída de propriedade” que está em contradição (e não apenas em contraste) com um mundo existente de riqueza e cultura, o que pressupõe, portanto, um grande aumento da força produtiva e um grau elevado do seu desenvolvimento. É por isso que, nas condições do capitalismo global e da crise estrutural do capital, coloca-se, objetivamente, de modo mais pleno, a necessidade histórica do comunismo como condição irremediável da emancipação de indivíduos histórico-mundiais de sua alienação radical das condições da vida social.

A grande massa da humanidade “destituída de propriedade” é constituída hoje pela multidão de proletários. Como diz o lema do movimento social Occupy nos EUA, “we are the 99%”. No plano categorial, a grande massa da humanidade alienada do controle social representa hoje a “classe” social do proletariado: “classe” com aspas tendo em vista que, apesar de estarem subsumidos à condição de proletariedade, só tornam-se efetivamente classe social – sem aspas – na medida em que aparecem, com maior ou menor efetividade, como sujeito histórico em si/para si.

Portanto, no sentido radical, “proletário” é o homem ou mulher destituído da propriedade dos meios de produção da vida social, isto é, alienados do controle social e imersos na condição existencial de proletariedade e não apenas o pauperou trabalhadores assalariados miseráveis com ampla prole. Por exemplo, o conceito de proletariado abrange hoje as camadas médias assalariadas que podem ser consideradas proletários de “classe média”. Deste modo, a dita crise da “classe média” que ocorre no capitalismo global expressa tão somente hoje, no plano contingente, a ampliação e explicitação, no plano da percepção social, da condição de proletariedade das camadas médias assalariadas (o que não significa que tenham se tornado membros da classe social do proletariado tendo em vista os obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe nos segmentos médios do proletariado).

O crescimento das novas camadas médias de jovens proletários assalariados mais qualificados, desempregados ou inseridos em contratos de trabalho atípicos ou precários e que compõem hoje, principalmente nos países capitalistas mais desenvolvidos, o mundo do trabalho do século XXI – o dito “precariado” – é expressão suprema, no plano histórico-mundial, da explicitação da condição de proletariedade. Ela representa hoje a contradição candente do capital em sua etapa de crise estrutural. De fato, os jovens proletários carregam, em si, inscritos no seu ser, como estigma geracional, as desmedidas negativas do sistema produtor de mercadorias, que, por um lado, destitui homens e mulheres de propriedade e controle da vida social, e, por outro lado, ao mesmo tempo, acumula e concentra imensa riqueza e cultura.

A ampliação da condição de proletariedade do “precariato” ocorre, pari passu, com o incremento da manipulação que nega, no plano da percepção e do entendimento dos indivíduos históricos mundiais, a auto-consciência de classe. A invisibilidade social da natureza de classe do “precariato” é o processo ideológico supremo do capitalismo manipulatório. Na medida em que se ampliam as contradições vivas do capital, impulsiona-se com intensidade, a desefetivação humano-genérica, isto é, a precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Um dos alvos privilegiados da manipulação social são hoje, os jovens proletários mais qualificados que carregam em si e para si, a contradição suprema do capital em sua fase de crise estrutural.

A problemática geracional dos jovens proletários diz respeito não apenas a delimitações etárias, mas ao modo de controle do metabolismo social do novo proletariado hipertardio nas condições do capitalismo manipulatório com seu complexo de obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe e, portanto, à constituição da classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.

Nos países do capitalismo central, a temporalidade histórica dos “trinta anos perversos” (1980-2010) provocou cortes geracionais significativos no plano sociometabolico da “classe” do proletariado. Aceleração da mudança tecnológica na produção e no consumo, reação política neoconservadora e precariedade laboral com implosão dos laços de solidariedade de classe, projetaram as novas gerações de homens e mulheres proletários noutra dimensão sócio-histórica. A nova dinâmica sociometabolica do capital provocou segmentações inter-geracionais caracterizadas por clivagens na experiência vivida e experiência percebida de formações etárias da classe trabalhadora.

Na verdade, o novo modo de controle sociometabolico do capital operou fraturas salientes na experiência do tempo social. Eric Hobsbawn, no livro A era dos extremos, observou o fenômeno da “presentificação crônica”. Diz ele: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.” Por exemplo, as mutações sociometabolicas no seio do jovem proletariado é perceptivel no movimento estudantil dos países capitalistas mais desenvolvidos cuja tradição da contestação social não é reconhecida hoje pelos próprios estudantes. Na verdade, a falta de informação e de diálogo com gerações anteriores é hoje caracteristica comum a movimentos estudantis de todo o mundo.

Os fenômenos sociais da destruição do passado, presentificação crônica e falta de informação e de diálogo com gerações anteriores, isto é, alienação do passado público da época em que vivem – que se torna mais perceptivel com vigor, por exemplo, nas experiências dos movimentos estudantis – constituem expressões candentes do novo modo de controle sociometabolico do capital baseado  na precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Trata-se de um modo de dessubjetivação de classe que opera a obstaculização à formação da consciência de classe e por conseguintes, da própria classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.  

Nos primórdios do século XXI, o novo (e precário) mundo do trabalho é constituído pelo amplo contingente de “jovens adulto-flexíveis”, conceito utilizado por Renan Araújo para denominar o contingente dos novos trabalhadores assalariados que ingressam nos novos locais de trabalho reestruturados na década de 2000. No plano da consciência contingente de classe, os jovens adulto-flexíveis (ou melhor, jovens-adultos toyotizados), empregados ou desempregados, estáveis ou precários, são portadores do que podemos denominar o “paradoxo de Ícaro”: 

Por um lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido na relação de contrato de emprego estável, sente-se insatisfeito com a pressão do ambiente do trabalho flexível e suas contrapartidas salariais; sente-se frustrado com a realização profissional e insegurança laboral marcada pela pressão do capital pelo cumprimento de metas e desempenho (o ideal de ganhar a vida para perde-la repõem-se no patamar do toyotismo). Como observa Renan Araújo, “após anos de dedicação aos estudos e de profissionalização permanente, para a maioria a profecia não se cumpriu. Assim, deparamos-nos com engenheiros apertando parafusos, operários formados em Administração de Empresas operando torno CNC e outros que, mesmo tendo cursado Ciências da Informática, passam o dia clicando em softwares que, previamente programados, esvaziam o conteúdo do trabalho, deixando-o sem sentido, repetitivo e enfadonho. Por todos os ângulos em que se observa, a fábrica aqui pesquisada representa o mundo contraditório da promessa e da negação”. 

Por outro lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido em contratos de trabalhos precários ou desempregados, sente-se insatisfeito pela exclusão do universo do emprego estável e flexível no sentido do que ele representa para as individualidades pessoais de classe: primeiro, capacidade aquisitiva para consumir e tornar-se “cidadão do mundo das mercadorias”. Segundo, carreira profissional com perspectiva de futuridade (ele sente profunda angústia pela desrealização do valor corporificado na força de trabalho como mercadoria e talento singular). Terceiro, capacidade de organização da vida pessoal, constituindo família e tendo seu próprio território de desenvolvimento humano.

Na medida em que a nova geração de empregados e operários mais qualificados, jovens proletários estáveis ou precários nasceram “órfãos” das utopias coletivas do sindicalismo de classe ou da adesão à militância política socialista, tornaram-se mais dispostos a concertação social, com atitudes pró-ativas de cariz liberal. Foram produzidos no horizonte do mercado, pré-dispostos em si e para si, a colaborarem com o capital. Por isso, trata-se de pessoas humanas com um acervo de sonhos, expectativas e utopias de mercado avantajadas, mas irremediavelmente frustradas pela dinâmica férrea da relação-capital que perpetua a precariedade laboral quase como “destino”. A ambiguidade e ambivalência diante dos valores burgueses são marcas pessoais indeléveis destes jovens proletários imersos no paradoxos de Ícaro (o sentimento de ansiedade e frustração traduz no plano pessoal, a imagem mitológica da derrelição de Ícaro).               

Nesse caso, temos a clara percepção da dialética do processo de subsunção do trabalho ao capital que “captura”, não apenas para controlar, mas para expropriar/espoliar o talento singular da nova geração de empregados e operários. Na medida em que o desenvolvimento do processo de acumulação do capital ocorre pari pasu ao processo de desenvolvimento civilizatório como pressuposto negado, ele explicita a operação de espoliação de riqueza intangível dos novos talentos humanos empregados na produção do capital.

Ora, temos, deste modo, ao mesmo tempo, espoliação e desperdício, tendo em vista que a relação-capital não desenvolve (e nem pode desenvolver) de forma integral, as possibilidades criativas da nova força de trabalho complexa. Trata-se de segmento da força de trabalho como trabalho vivo altamente qualificada no plano da competência técnico-científica, cuja frustração decorre da irrealização profissional e desperdício existencial de suas possibilidades humano-genéricas.

Estas novas gerações de proletários vivem à exaustão, a disjunção pessoa-classe que caracteriza o modo de controle sociometabolico do capital. Portanto, eis a problemática do estranhamento que assume hoje dimensões cruciais sob o capitalismo global. Para György Lukács, o fenômeno do estranhamento, ocorre na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho ou da capacidade humana em reduzir as barreiras naturais, não significa o desenvolvimento da personalidade humana, mas pelo contrário, seu aviltamento e dilaceração em virtude da manipulação de alta intensidade e amplitude que caracteriza o capitalismo tardio.

Sob o capitalismo global, os jovens proletários mais qualificados, empregados ou desempregados, estáveis ou precários, tornam-se hoje objetos privilegiados de “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital, sendo expostos de modo candente à manipulação pelo capital no plano das experiências expectantes, isto é, experiências que organizam (ou manipulam) anseios, expectativas e utopias pessoais.  

O traço estrutural do capitalismo global é a manipulação da subjetividade do homem-que-trabalha. Por isso, o capitalismo global, ou seja, o capitalismo histórico na fase de crise estrutural do capital, é essencialmente o capitalismo manipulatório. A exacerbação da dimensão manipulatória do capital decorre da própria natureza da dinâmica de acumulação capitalista.

No século XX, a produção de mais-valia relativa assumiu dimensões alucinadas. Por exemplo, com o fordismo-taylorismo, a produção em massa, que caracterizou o capitalismo monopolista do século passado, significou a necessidade candente do capital de realização da massa de mais-valia acumulada. Tornou-se crucial, mais do que nunca, vender as mercadorias produzidas pela grande indústria. Por isso, impõe-se a centralidade da manipulação, não apenas do trabalhador assalariado na produção, mas do consumidor na esfera do mercado. É necessário manipular à exaustão a subjetividade do trabalhador assalariado como produtor e consumidor.

É claro que, desde as suas origens históricas, o capitalismo industrial buscou realizar, por meio da venda das mercadorias, a mais-valia extraída nas fábricas. Para isso, constituiu-se, como necessidade íntima do capital em processo, o mercado mundial. Mas, na medida em que se desenvolveu a grande indústria, a necessidade de realização da massa de mais-valia relativa extraída na produção do capital, a venda dos produtos-mercadorias no mercado mundial, tornou-se uma estranha obsessão que delineou o sociometabolismo do capital do século XX e XXI.

O mandamento supremo do capital como “sujeito automático” de autovalorização do valor é acumular, acumular e acumular. Com a grande indústria e a produção da mais-valia relativa, para que o capital possa acumular, acumular e acumular cada vez mais, tornou-se, mais do que nunca, imperativo vender, vender e vender. A ânsia da vendabilidade universal elevou-se à enésima potência com a produção em massa e a constituição plena do mercado mundial no sentido da intromissão da forma-mercadoria na vida cotidiana da sociedade burguesa. A vigência da produção da mais-valia relativa colocou como pressuposto da própria realização do valor, o imperativo da venda no centro dinâmico da vida social.

A ampliação do círculo da vendabilidade universal significou no século XX, o domínio crucial do fetichismo da mercadoria no plano das relações humanas e sociais. David Harvey, em seu livro O enigma do capital, recém-publicado pela Boitempo Editorial no Brasil, observou que a obsessão do capital é saber onde aplicar o excedente de capital-dinheiro. É a volúpia do excedente disponível para valorização que caracterizará o metabolismo social do capital no século XX. A obsessão do possuídor da massa de capital-dinheiro imprimirá a sua marca na dinâmica social. Aliás, os fenômenos históricos cruciais do século passado – imperialismo e globalismo, ou ainda, a hipertrofia do sistema de crédito e financeirização – originam-se, em última instância, da volúpia de vendabilidade universal tendo em vista a realização da massa crescente de mais-valia relativa extraída na produção do capital.

O desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho no século XX, com a vigência da lógica produtivista do taylorismo, fordismo e toyotismo, significou a elevação à enésima potência, da ânsia de realização da massa de mais-valia contida na imensa quantidade de mercadorias que compõem a sociedade burguesa, principalmente com o surgimento da produção em massa. A obsessão pelo consumo oculta, não apenas a obsessão pela absorção do excedente, como salientou Harvey, mas a obsessão pela realização do valor nas condições do mercado mundial constrangido.

Portanto, a contradição suprema do capitalismo histórico não é apenas produzir mercadorias, mas sim, realizar o valor contido nelas. That´s the problem! Por isso, as estratégias orgânicas do sistema mundial do capital no século XX buscaram administrar a contradição crucial, inovando na capacidade de prolongar à exaustão, as alucinações da forma-mercadoria, seja em torno da mercadoria propriamente dita, com a aceleração do circuito de valorização (produção, circulação e consumo, afirmando-se o que István Mészáros denominou “lei tendencial de decrescimento da utilização do valor de uso”); seja em torno da “mercadoria das mercadorias” (o Dinheiro), com a hipertrofia do sistema de crédito e a constituição do circuito da valorização fictícia (a financeirização da riqueza capitalista).

Uma das estratégias de administração da crise orgânica da forma-mercadoria, com impacto direto na morfologia social da sociedade burguesa e na subjetividade do homem-que-trabalha, é a manipulação do consumo. A manipulação da produção que caracteriza a grande indústria desdobra-se em produção da manipulação no plano da totalidade social. Eis um traço de alteração da alienação capitalista que caracterizará a “captura” da subjetividade do homem que trabalha pelo capital. Trabalhador assalariado é consumidor, onde o “é” acusa um juízo de devir (Trabalhador assalariado “torna-se”/interverte-se em consumidor). Na verdade, a vigência da manipulação sistêmica põe efetivamente o problema do estranhamento.

Sob o capitalismo, o problema da alienação é reposto, de forma ampla e candente, noutro patamar existencial, através do problema do estranhamento. Um mundo pleno de mercadorias é, segundo György Lukács, um mundo pleno de manipulação, que penetra não apenas os poros da produção, mas também do consumo e da reprodução social.

Se, por um lado, com a elevação do padrão de vida e consumo da classe trabalhadora no século XX, a percepção da exploração capitalista e o problema da alienação no sentido originário tendem a se esmaecer, por outro lado, põem-se, de modo incisivo, segundo Lukács, o problema do estranhamento propriamente dito, que, para ele, é o problema da vida plena de sentido (o psicanalista austriaco Viktor Frankl salienta que o problema crucial do nosso tempo é o problema da busca de sentido da vida).

Lukács observou, em 1968, que a mudança estrutural no caráter da alienação coloca, de forma candente, no auge do capitalismo afluente (o capitalismo fordista-keynesiano),  novas exigências no plano da luta de classes. Ou ainda, novas exigências no plano da consciência contingente de classe, expressa pela nova geração de empregados e operários mais qualificados (por exemplo, os “jovens adulto-flexíveis” ou toyotizados) que cresceram no interior do mundo de mercadorias e que possuem outras exigências, no plano do carecimento, comparados, por exemplo, com a geração anterior de operários e empregados. Diz Lukács:

“A luta de clas­ses no tempo da mais-valia absoluta estava voltada para a criação das condições objetivas indispensáveis a uma vida deste gênero. Hoje, com uma semana de cinco dias e um salário adequado, podem já existir as condições indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Mas surge um novo problema:aquela manipulação que vai da compra do cigarro às eleições presidenciais ergue uma barreira no interior dos indivíduos entre a sua existência e uma vida rica de sentido. Com efeito, a manipulação do consumo não consiste, como se pretende oficialmente, no fato de querer informar exaustivamente os consumidores sobre qual é o melhor frigorífico ou a melhor lâmina de barbear; o que está em jogo é a questão do controle da consciência. Dou apenas um exemplo, o ‘tipo’ Gauloises: apresenta-se um homem de aspecto ativo e másculo, que se distingue porque fuma os cigarros Gauloises. Ou ainda, vejo numa foto de publicidade, não sei se de um sabonete ou de um creme de barbear, um jovem assediado por duas belas garotas, por causa da atração erótica que determinado perfume exerce sobre elas”.

Vimos que Lukács, adotando uma perspectiva histórico-ontológica, faz a conexão íntima entre mais-valia relativa e manipulação, no sentido de que a exploração pela mais-valia relativa propiciou, a um contingente organizado da classe trabalhadora, semana de cinco dias e salário adequado, isto é, condições objetivas indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Segundo Lukács, objetivamente o proletariado possui hoje, pelo menos o proletariado estável, condições materiais para uma vida plena de sentido que entretanto, não se realiza, por conta da manipulação social que impregna a vida burguesa. O capitalismo da grande indústria de produção em massa tende, nas palavras dele, a erguer no interior desses individuos, “uma barreira entre a sua existência e uma vida rica de sentido”. Diz ele que a fruição da vida é reduzida ao gozo do consumo alienado. A ânsia fugaz pelo consumo de mercadoria é incapaz de dar um sentido à vida. Eis o sentido do estranhamento na ótica lukacsiana: o descompasso entre a existência dos indivíduos e uma vida plena de sentido

Portanto, para Lukács, o problema do estranhamento diz respeito em grande medida, à questão do controle da consciência, alvo-chave da manipulação do consumo visando a venda das mercadorias e a realização da mais-valia. A manipulação se ergue no interior dos indivíduos, cuja ânsia pelo consumo é instilada pelos aparatos de marketing e propaganda, como uma finalidade em si mesma. Diz ele:

“Por causa desta manipulação, o operário, o homem-que-trabalha, é afastado do problema de como poderia transformar seu tempo livre em otium, porque o consumo lhe é instilado sob a forma de uma superabundância de vida comfinalidade em si mesma, assim como na jornada de trabalho de doze horas a vida era ditatorialmente dominada pelo trabalho”.

A perspectiva de Lukács prende-se à produção capitalista fordista-taylorista quando o controle da consciência de classe, inclusive na construção do consentimento à produção rígida da linha de montagem acoplada a esteira mecânica, tinha no consumo, pelo menos para a classe operária organizada, seu lastro de legitimidade. O compromisso fordista-keynesiano, que caracterizou, nos países capitalistas centrais, os “trinta anos dourados” do capitalismo histórico do século XX (1945-1975), eram baseado na capacidade do capital em promover a “cidadania do consumo” em torno do ideal do emprego. A própria formação das individualidades pessoais de classe ocorriam com a elaboração de expectativas, anseios e utopias da carreira profissional e inserção laboral capazes de permitir a obtenção de capacidade aquisitiva, não apenas para satisfazer as necessidades básicas, mas os carecimentos sociais do admirável mundo novo das mercadorias.

Sob o capitalismo fordista-keynesiano nas condições da sociedade industrial afluente do pós-guerra, a fruição da vida era reduzida ao gozo do consumo de mercadorias. Nesse caso, a auto-consciência da alienação não se manifestava efetivamente, tendo em vista a vigência da “consciência tranquila” do operário ou empregado, que fruia a sua vida pessoal como individualidade de classe por meio do consumo estranhado. Na verdade, o trabalhador assalariado não se sentia insatisfeito no consumo, mas sim, na produção, tendo em vista a vigência do fordismo-taylorismo com a linha de montagem acoplada a esteira mecânica (a crise da organização do trabalho taylorista-fordista).

Com o capitalismo global de cariz neoliberal e a crise estrutural do capital, ocorreu a implosão do compromisso fordista-keynesiano baseado no crescimento com indexação de salários a produtividade. Nos “trinta anos perversos” (1980-2010), a crise do Estado de Bem-estar social, a crise do emprego e a ampliação da precariedade salarial ameaçou e frustrou as expectativas de consumo dos trabalhadores assalariados, principalmente das camadas médias asssalariadas que construíram suas expêriencias expectantes na perspectiva da fruição do consumo estranhado (eis uma dimensão da crise da “classe média”). Deste modo, percebe-se de modo claro, a corrosão do lastro de compatibilidade entre capitalismo e bem-estar social no núcleo orgânico do sistema mundial do capital. Ao mesmo tempo, intensificou-se e ampliou-se, de modo exacerbado, a manipulação da vida social, tanto no consumo, quanto na produção de mercadorias com a vigência do espírito do toyotismo.

Portanto, a crise do capital, que se instaurou em meados da década de 1970, opera descontinuidades/continuidades na dinâmica da manipulação sistêmica, repondo o círculo da alienação/estranhamento do homem-que-trabalha. A “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital assume novas dimensões no sentido da constituição/explicitação de novos fenômenos da alienação/estranhamento. O “paradoxo de Ícaro” que atormenta os “jovens adultos-flexiveis” do mundo social do capital pode ser expresso do seguinte modo:

Por um lado, para os jovens trabalhadores assalariados do novo mundo do trabalho inseridos em contratos de emprego estável, a auto-consciência da alienação e insatisfação que caracterizava a organização fordista-taylorista do processo de trabalho, interverteu-se, com a organização toyotista, em estranhamento no sentido da fruição perversa e opaca que a condição de empregado estável na empresa flexível imputa aos homens e mulheres que trabalham submetidos ao cumprimento de metas desumanas e pressões contínuas por mais produtividade. Nesse caso, a carga de ansiedade e depressão deriva da realização profissional estranhada que dilacera seu ser humano-genérico.

Por outro lado, para jovens trabalhadores assalariados precários e desempregados, o dito “precariato”, “órfãos” da cidadania salarial, o sentimento de insatisfação e a auto-consciência da alienação se tornou crucial (alienação como perda/frustração). Nesse caso, existe uma sutil distinção categorial entre alienação e estranhamento. No plano da consciência contingente, o dito “precariato” sente-se alienado da “cidadania do consumo” e portanto, alienados de si mesmos como consumidores ou individualidades de classe constituídos no interior do mundo das mercadorias (nesse sentido, a alienação no sentido categorial tem uma intensa carga de insatisfação e deriva pessoal). Nesse caso, a carga de ansiedade, depressão e frustração compõem um quadro de desrealização íntima em si e para si que deriva da sua precariedade salarial no mundo das mercadorias.

Portanto, jovens-adultos assalariados, empregados e desempregados, estáveis e precários, representam dimensões paradoxais da classe-que-vive-do-trabalho com seus respectivos pressupostos sociometabólicos: por um lado, uma parte da classe que tem condições objetivas para uma vida plena de sentido, não consegue tê-la, tendo em vista o trabalho estranhado (a fruição perversa não está apenas no consumo, mas também no trabalho flexível). Mas na medida em que se constitui o círculo do estranhamento (consumo e trabalho estranhado), implode-se a “consciência tranquila” observada por Herbert Marcuse na época do capitalismo afluente. Na verdade, a exacerbação do estranhamento que assistimos no capitalismo toyotista constitui uma “consciência intranquila”, opaca e intransparente da sua condição de proletariedade. 

Por outro lado, outra parte da classe, constituída pelos trabalhadores assalariados precários (precários no sentido de alienada da “cidadania salarial”), sentem-se afligidos por não terem condições objetivas para uma vida plena de sentido. Eles representam a nova pobreza do capitalismo global de cariz neoliberal. No plano contingente, anseiam (e lutam) pela “cidadania salarial” nos marcos da ordem da mercadoria. Entretanto, as condições de luta e organização sindical, no plano do em-si da classe, são adversas para eles.

A “consciência intranquila” dos precários “indignados” do século XXI se distingue radicalmente da “consciência intranquila” dos proletários da Primeira Revolução Industrial que enfrentaram a experiência do factory systeminseridos ainda em modos de sociabilidades tradicionais e valores de cunho comunitário (como observou E.P. Thompson). Ora, os proletários precários pós-modernos nasceram e cresceram no interior da ordem social da mercadoria. Eles próprios sentem-se, no plano da consciência contingente, como mercadorias vivas. É o que explica, por exemplo, a incapacidade dos precários indignados traduzirem o sentimento de indignação numa perspectiva crítica para além da ordem burguesa. Na verdade, a indignação do “precariato” é a indignação reativa que decorre da frustração das expectativas, anseios e utopias de mercado (diferentemente, por exemplo, dos sonhos, expectativas e utopias das primeiras gerações de operários que possuíam sentido comunitário exterior à ordem industrial originária. De certo modo, eles ansiavam tornarem-se “produtores autonomos”, voltar a terra etc).

Na medida em que o capitalismo global não consegue repor a perspectiva de emprego digno para todos, os jovens “precários” alienados do sonho do emprego estável tendem a serem manipulados com o ideal da empregabilidade no sentido de construírem a identidade do “trabalho autônomo” ou “trabalho por conta própria de segunda geração” (como diria Sergio Bologna). Deste modo, a intranquilidade da descartabilidade se interverte na intranquilidade da fluidez, eufemismo para inseguraça, expondo, com vigor, a sua condição de proletariedade.  

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

A DOUTRINA DO CHOQUE | THE SHOCK DOCTRINE. Naomi Klein

Sinopse:
Toda a verdade por detrás da implantação do neoliberalismo mundo afora. Da mesma diretora do excelente documentário “The Take”, faz parte também da roda do pessoal que fez “The Corporation”. O documentário Shock Doctrine, baseado no livro como a mesmo nome, mostra as conexões entre os experiências desenvolvidas por cientistas, nos anos 40, e as ações da CIA pelo mundo afora nos anos seguintes. Assim como o eletrochoque ou a tortura são ferramentas para fazer que o paciente ou torturado seja obediente, O CHOQUE aplicado a países é a maneira para que práticas neoliberais sejam implantadas. O documentário mostra as práticas violentas das Ditaduras implantadas no Chile e na Argentina através dos ensinamentos dos EUA, através da Escola das Américas. Milton Friedman, o maior economista dos EUA de todos os tempos, foi o mentor dessa doutrina, que aplicou contra o interesses dos trabalhadores pelo mundo, as vontades da Escola de Chicago.

You Tube: Tragédia em Nova Orleans, 2005. Enquanto o mundo assiste ao flagelo dos moradores com as inundações causadas por tempestades que estouraram os diques da cidade, o economista Milton Friedman apresenta no The Wall Street Journal uma idéia radical. Aos 93 anos de idade e com a saúde debilitada, o papa da economia liberal das últimas cinco décadas vislumbrava, naquele desastre, uma oportunidade de ouro para o capitalismo: “A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas”, observou. “É uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional”. Para Friedman, melhor do que gastar uma parte dos bilhões de dólares do dinheiro da reconstrução refazendo e melhorando o sistema escolar público, o governo deveria fornecer vouchers para as famílias, que poderia gastá-los nas instituições privadas. Estas teriam subsídio estatal. A privatização proposta seria não uma solução emergencial, mas uma reforma permanente. A idéia deu certo. Enquanto o conserto dos diques e a reparação da rede elétrica seguiam a passos lentos, o leilão do sistema educacional se tornava realidade em tempo recorde.

REBELIÃO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA. Raúl Zibechi

por Raúl Zibechi [*]

No mês de Março desencadeou-se o maior protesto social de trabalhadores que se recorda no Brasil desde há muitos anos. Mais de 80 mil operários de todo o país paralisaram as obras do “progresso”: hidroeléctricas, refinarias e centrais termoeléctricas. O estopim do protesto foi aceso na selva amazónia, em Jirau, e foi aceso pela arbitrariedade, violência e autoritarismo. 

Tudo começou com algo muito pequeno, tal como em Tunes, à semelhança do modo como começam os grandes factos sociais. A briga entre um operário e um condutor de autocarros, na tarde de 15 de Março, no acampamento onde milhares de peões chegados dos rincões mais pobres do Brasil constroem uma das maiores barragens hidroeléctricas do país, uma obra gigantesca sobre o Rio Madeira que custará 10 mil milhões de dólares. 

Pouco após a briga, na qual um peão foi golpeado, centenas de operários começaram a incendiar os autocarros que os levam dos barracões até as obras. Algumas fontes falam de 45 autocarros e 15 veículos queimados, ainda que outras elevem o número a 80 autocarros incendiados em poucos minutos. Arderam também os escritórios da empresa construtora, Camargo Correa [1] , a metade dos dormitórios e pelo menos três caixas multibanco. Cerca de 8 mil trabalhadores internaram-se na selva para fugir à violência. A polícia foi impotente e apenas pôde proteger os depósitos de explosivos utilizados para desviar o leito do rio. A calma chegou quando o governo de Dilma Rousseff enviou 600 efectivos da polícia militar para controlar a situação. Mas os trabalhadores, cerca de 20 mil na central de Jirau, não voltaram ao trabalho e retornaram aos seus lugares de origem. 

Na central próxima de Santo António começou uma paralisação dos 17 mil operários que constroem outra central no mesmo Rio Madeira, perto de Porto Velho, a capital de Rondônia. Em apenas uma semana a onda de greves nas grandes obras estendeu-se: 20 mil trabalhadores deixaram o trabalho na refinaria Abreu e Lima em Pernambuco, outros 14 mil na petroquímica Suape na mesma cidade, cinco mil em Pecém, no Ceará. O factor comum entre todas estas greves é que se realizam nas obras gigantescas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e que enfrentam as grandes empresas construtoras do país, as multinacionais brasileiras que trabalham para o governo. 

As barragens do Rio Madeira 

O Rio Madeira é o principal afluente do Amazonas. Nasce na confluência dos rios Beni e Mamoré, perto da cidade de Vila Bela na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, tem um comprimento de 4207 quilómetros, está entre os 20 rios mais longos e é um dos 10 mais caudalosos do mundo. Recolhe as águas da cordilheira andina no Sul do Peru e da Bolívia e conta portanto com grandes desníveis que o convertem numa fonte adequada para a produção de hidro-electricidade. 

O projecto de expansão do Brasil exige muita energia e seus planeadores afirmam que os rios amazónicos estão pouco aproveitados. O “complexo do Rio Madeira” contempla a construção de quatro barragens hidroeléctricas, duas delas já começadas, as de Jirau e Santo António no trecho brasileiro entre a fronteira e Porto Velho. A central de Jirau, a 150 quilómetros da capital, terá 3.350 MW instalados e a de Santo António 3.150 MW. Trata-se de dois projectos prioritários dentro do PAC que procura a interconexão dos sistemas isolados dos estados do Acre (vizinho de Rondônia) e Maranhão (no Atlântico Norte) à rede nacional de distribuição eléctrica [2] . 

Na opinião de vários analistas, a aposta é utilizar o potencial hidroeléctrico amazónico em benefício das regiões Centro e Sul, as que possuem os maiores parques industriais, e favorecer o consumo eléctrico de sectores que utilizam energia de forma intensiva como a mineração, a metalurgia e as cimenteiras. Desse modo apoia-se também o sector agro-industrial, “principal impulsionador da saída brasileira rumo ao Pacífico” [3] . 

Está-se a viver a expansão do núcleo histórico do país, situado na região de São Paulo e nos estados do Sul, rumo ao Norte, onde se desenvolvem os grandes projectos hidroeléctricos, estradas, expansão da pecuária e da mineração. Em princípios de 2007 Lula lançou o PAC com enormes investimentos ao longo de quatro anos num total de 503 mil milhões de dólares, nesse momento cerca de 23% do PIB. Se se excluir a área do petróleo, o maior investimento correspondeu à produção e transporte de energia eléctrica num montante de 78 mil milhões de dólares. 

Em 2010 foi lançado o PAC 2, com três vezes mais recursos, chegando a mil milhões de dólares. A produção de energia eléctrica é um dos investimentos mais fortes. Em 2009 o Brasil tinha uma potência instalada para a produção eléctrica de 106.000 MW, o que inclui produção hidráulica, térmica, eólica e nuclear. A potência eléctrica era nesse ano de 75.500 MW mas o potencial dos seus rios é de 260.000 MW, o maior do mundo, ou seja, “apenas” 30% do seu potencial está aproveitado [4] . 

O Plano Nacional de Energia 2030 prevê chegar a 126.000 MW de potência hidroeléctrica instalada, um crescimento de 65% que na sua maior parte estará concentrado nas bacias do Amazonas e do Tocantins [5] . Para duplicar o potencial dos rios da selva, como propõe o plano “Brasil 2022”, são precisas imensas obras em muito pouco tempo. A central de Jirau foi licitada em Maio de 2008 sendo ganha pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil integrado por Suez Energy, com 50,1%, Camargo Correa com 9,9%; Eletrosul com 20% e Companhía Hidroeléctrica do São Francisco (Chesf) com 20%. Seu custo inicial era de 5,5 mil milhões de dólares, financiados pelo BNDES. 

Desde o princípio a central esteve envolvida em denúncias. Põe em risco povos indígenas em isolamento voluntário e o Instituto do Meio Ambiente (Ibama) concedeu a autorização em Julho de 2007 por pressões políticas e contrariando a opinião dos seus técnicos. A empresa modificou o lugar onde constrói a obra para fazê-la 9 quilómetros a jusante a fim de reduzir custos, sem estudo de impacto ambiental. Em Fevereiro de 2009 o Ibama decidiu paralisar a obra por usar uma área sem autorização e aplicou uma forte multa [6]. Só em Junho de 2009 foi entregue a licença ambiental definitiva em meio a protestos e manifestações dos ambientalistas. 

A Bolívia também exprimiu críticas às obras devido à proximidade com a fronteira, pois considera que a formação de duas grandes albufeiras pode alentar enfermidades como a malária e o dengue [7]. Segundo fontes brasileiras a malária na zona teria aumentado cerca de 63% nos primeiros sete meses de 2009 em relação ao mesmo período do ano anterior. 

Greve dos peões do Jirau.Rebelião na selva 

As duas centrais em construção empregam em conjunto cerca de 40 mil trabalhadores, 70% provenientes de outros estados. Só em Jirau trabalham uns 20 mil operários, na sua grande maioria peões mal remunerados (o salário é de mil reais, uns 600 dólares). Chegam às obras, isoladas em plena selva, de lugares remotos do Nordeste, Norte e inclusive do Sul do Brasil, muitas vezes enganados por intermediários (chamados “gatos”) que lhes prometem salários e condições de trabalho superiores às reais. Todos devem pagar aos “gatos” pelos seus “serviços”. 

Quando chegam à obra já estão endividados, os alimentos e os remédios são mais caros porque devem comprá-los nas lojas da empresa, muitos alojam-se em barracões de madeira, dormem em colchões no solo, as casas de banho ficam longe e são escassas, não têm energia eléctrica e estão abarrotados. Maria Ozánia da Silva, da Pastoral do Migrante de Rondônia, diz que os operários “sentem-se frustrados pelos salários e pelos descontos que lhes fazem sem explicação” [8] . 

O primeiro problema que denunciam é que a Camargo Correa, a empresa encarregada do Jirau, não paga horas extra. Mas a “revolta dos peões” não é por salário e sim por dignidade, como assinala o jornalista Leonardo Sakamoto. Entre as dez principais exigências figuram: por fim à agressividade dos vigilantes e encarregados, que usam cárceres privados; tratamento respeitoso aos chegam aos alojamentos alcoolizados; fim do assédio moral dos trabalhadores de escritório aos peões; pagar por hora de transporte quando a viagem à obra for longa; eficiência dos restaurantes a fim de evitar que a fila para comer consuma o tempo de descanso; cabaz básico que leve em conta os preços locais [9] . 

Segundo Sakamoto, os peões de hoje têm um perfil bem diferente daqueles que trabalhavam na construção nos anos 90. Agora utilizam telemóvel e Internet, sabem o que se passa no mundo, têm o orgulho de vestir bem, reclamam um tratamento respeitoso e utilizam frequentemente a palavra “dignidade”. Incomoda-os a precariedade das instalações e dos dormitórios, sofrem o isolamento longe das suas famílias e o menor maltrato crispa os ânimos. Sílvio Areco, engenheiro com experiência em grandes obras, assinalou as mudanças: “Antes o que mandava numa obra era quase um coronel, tinha autoridade. Agora isso não funciona, um peão de obra tem mais autonomia” [10] . 

As empresas estão muito aflitas porque as obras têm algum atraso e pressionam os trabalhadores. Em Setembro de 2009 o Ministério do Trabalhou libertou 38 pessoas que trabalhavam em situação de escravidão e em Junho de 2010 constatou 330 infracções na obra do Jirau [11] . O principal problema é a insegurança. Na opinião de Da Silva, os migrantes convertem-se num alvo fácil dos intermediários e das empresas que abusam porque estão desprotegidos. 

Mas os problemas não se limitam às obras. O pastor de Jaci-Paraná, cidade vizinha de Jirau, Aluizio Vidal, presidente do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) de Rondônia, denuncia um aumento da criminalidade e da prostituição. Entre 2008 e 2010 a população de Porto Velho cresceu 12% (tem meio milhão de habitantes) mas ao mesmo tempo os homicídios cresceram 44% e segundo o tribunal de menores os abusos a menores de idade aumentaram 76% nesses anos [12] . 

Segundo os movimentos sociais da região, agrupados na Aliança dos Rios da Amazónia, “Jirau concentra todos os problemas possíveis: com um ritmo descontrolado, trouxe à região o “desenvolvimento” da prostituição, a utilização de drogas entre jovens pescadores, a especulação imobiliária, o aumento do preço dos alimentos, doenças não cuidadas e violências de todos os tipos” [13] . 

Cartaz do MAB.Elias Dobrovolski, membro da coordenação do Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB) que acompanha os trabalhadores desde que começaram as obras, assegura que os distritos em torno de Jirau estão a atravessar problemas muito sérios. “Eram povoados com dois mil habitantes que agora albergam 20 mil pessoas. Não há estrutura para tanta gente. Não há escolas, postos de saúde e polícias suficientes para dar apoio a toda esta gente que veio com as centrais”[14] . 

A tudo isso seria preciso acrescentar que nas grandes obras do PAC as mortes no trabalho superam a média. A construção civil brasileira tem uma taxa de 23,8 mortos por cada cem mil empregados e nas obras do PAC de 19,7. Nos Estados Unidos é de 10 por cem mil, na Espanha de 10,6 e no Canadá de 8,7. O número é demasiado alto porque as grandes construtoras “têm tecnologia suficiente para proteger os trabalhadores” [15] . Por sua vez, o MAB denuncia jornadas de trabalho de até 12 horas com situações de epidemias nas obras. 

Pior ainda: as empresas contrataram ex-coronéis que estariam a fazer sabotagens para criminalizar os sindicatos [16] . A revolta atacou os símbolos do poder. “Testemunhas dos ataques disseram que os homens que chegaram para destruir os alojamentos incendiaram primeiro os dos encarregados e engenheiros” [17] . 

Sindicatos, empresas e governo 

Os operários da construção civil passaram de 1,8 milhão em 2006 para 2,8 milhões em 2010. O desemprego no sector é de apenas 2,3%. Os sindicatos consideram que quando as obras de infraestrutura estiverem no seu momento de esplendor, incluindo as da Copa do Mundo de 2014 e as das Olimpíadas de 2016, só no sector do PAC haverá um milhão de operários. Algo que ultrapassa tanto os empresários como os sindicalistas. 

A revolta dos peões do Jirau tomou todos de surpresa: tanto o governo como os empresários e os sindicatos. Victor Paranhos, presidente do consórcio empresarial, declarou: “É preocupante porque não sabemos qual é o motivo. Nem sequer há líderes” [18] . Curiosamente, é muito semelhante ao que dizem os sindicalistas. “Nessas revoltas no Jirau percebemos que não existe um líder para negociar uma trégua”, disse Paulo Pereira da Silva da Força Sindical [19] . A CTU não ficou atrás e defendeu o governo perante os trabalhadores: “Têm que voltar a trabalhar. Sou brasileiro e quero ver essa central funcionando” [20] . 

Essa cultura compartilhada por empresário e sindicatos, que aposta em reconduzir o protesto social a caminhos institucionais ou em afogá-la com a presença maciça da polícia militar (o governo enviou 600 polícias militares), não está a compreender que a revolta não é só nem principalmente por salário. Os grupos como o MAB, os indígenas e as pastorais fizeram uma leitura diferente. “A revolta é reflexo do autoritarismo e da ganância pela acumulação de riqueza através da exploração da natureza e dos trabalhadores”, afirma um comunicado do MAB [21] . 

Na opinião do Instituto Humanitas Unisinos, a revolta do Jirau não sensibilizou nem a esquerda nem os ambientalistas. Os sítios web dos movimentos apenas noticiaram o conflito. “A violência da revolta no Jirau e a dos árabes é semelhante, mas a recepção aqui, em ambos os casos, foi oposta”, disse o jornalista Jânio de Freitas [22] . 

Em 5 de Abril os operários de Santo António voltaram ao trabalho após 10 dias de greve ao votarem em assembleias um acordo entre a CUT e a empresa Odebrecht que prevê uma antecipação de 5% do aumento de salários na expectativa de uma negociação final, aumento do cabaz básico de alimentos de 110 para 132 reais e cinco dias livres a cada três meses para visitarem as famílias com direito a passagem aérea [23] . As obras no Jirau continuam paralisadas após 20 dias à espera de negociações com a Camargo Correa. 

“O PAC é a síntese do modelo desenvolvimentista que reedita o projecto de um Brasil grandioso como na época de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e no período militar. Um modelo baseado em grandes obras, sobretudo de exploração energética tendo em vista o consumo de energia de uma nação emergente exportadora de commodities”, destaca o relatório “A rebelião do [24] Jirau” . Esse crescimento exponencial do Brasil passa por converter a Amazónia e todos os seus recursos em mercadorias, um projecto que mal tem oponentes organizados uma vez que é compartilhado por sindicatos e empresários, esquerdas e direitas, governo e oposição. 

O movimento que defende os atingidos pelas barragens (MAB) está há 20 anos a resistir ao que considera uma espoliação. Seu lema é “Água e energia não são mercadorias”. A revolta do Jirau é uma resposta dos mais pobres, os peões do Brasil, ao ambicioso projecto de modernização e de aprofundamento do capitalismo. Gilberto Cervinski, do MAB, sintetiza o problema: “Construir as centrais do Rio Madeira é abrir a Amazónia a dezenas de outras hidroeléctricas, sem sequer discutir o que acreditamos ser a questão fundamental: Energia para que? E para quem?” [25] . 

12/Abril/2011

Recursos 

  • Coordenação das Organizações Indígenas da Amazónia Brasileira (COIAB), 24 de Março de 2011.
  • Efraín León Hernández, “Energía amazónica. La frontera energética amazónica en el tablero geopolítico latinoamericano”, Posgrado de Estudios Latinoamericano, UNAM, México, 2007.
  • Instituto Humanitas Unisinos, “A rebelião do Jirau”, em Conjuntura da Semana, 28 de Março de 2011.
  • Maria Ozánia da Silva (Pastoral do Migrante de Rondônia), entrevista em IHU Online, 14 de Março de 2011.
  • “Manifesto de apoio aos trabalhadores e atingidos do rio Madeira”, MST, CPT, CUT e MAB, 31 de Março de 2011.
  • Movimento de Atingidos por Barragens (MAB-Mov. dos Atingidos por Barragens), www.mabnacional.org.br
  • “Trabalhadores de Jirau dizem ser tratados como bandidos”, Folha de São Paulo, 21 de Março de 2011.Notas 
    [1] É uma das grandes construtoras do Brasil, emprega 60 mil pessoas e constrói parte da infraestrutura na América do Sul.
    [2] Efraín León Hernández, ob cit p. 137.
    [3] Idem p. 138.,
    [4] Agencia Nacional de Energia Eléctrica (ANEEL), Atlas de energia eléctrica do Brasil, Brasília, 2008, p. 57.
    [5] Idem.
    [6] Folha de São Paulo, 19 de Fevereiro de 2009.
    [7] O Globo, 13 de Março de 2009.
    [8] Entrevista a Maria Ozánia da Silva, IHU Online, 14 de Março de 2011.
    [9] “A luta por respeito e dignidade”, Leonardo Sakamoto em blogdosakamoto.uol.com.br
    [10] Folha de São Paulo, 20 de Março de 2011.
    [11] Leonardo Sakamoto, idem.
    [12] “A rebelião de Jirau”, IHU Online, ob cit.
    [13] A Aliança é integrada por Movimento Xingú Vivo para Sempre, Aliança Tapajós Vivo, Movimento Rio Madeira Vivo e Movimento Teles Pires Vivo.
    [14] “O conflito em Jirau é apenas o início do filme”, IHU Online, 24 de Março de 2011.
    [15] O Globo, “Mortes em obras do PAC estão acima dos padrões”, 26 de Março de 2011.
    [16] Nota do MAB, 18 de Março de 2011 em www.mabnacional.org.br
    [17] O Estado de São Paulo, 19 de Março de 2011.
    [18] O Estado de São Paulo, 18 de Março de 2011.
    [19] “Dilma quer saída para greves em obras do PAC”, Jornal Valor, 24 de Março de 2011.
    [20] “A rebelião de Jirau”, ob cit.
    [21] MAB, 17 de Março de 2011.
    [22] “Depois da hora certa”, Folha de São Paulo, 20 de Março de 2011.
    [23] CUT, 4 de Abril de 2011 em www.cut.org.br/…
    [24] IHU Online, 28 de Março de 2011.
    [25] Idem.