VOCAÇÃO DO PODER. Documentário

Título Original: Vocação do Poder

Direção: José Joffily e Eduardo Escorel

Gênero: Documentário

Produção: Brasil

Ano: 2005

 

Contundente e oportuno documentário investiga a vocação para a política e registra a primeira campanha de seis candidatos a vereador no Rio em 2004

O documentário Vocação do Poder, que estréia nesta sexta-feira, dos diretores José Joffily e Eduardo Escorel, é resultado de um acompanhamento feito por eles da campanha de 6 dos 1.101 candidatos às 50 vagas na Câmara dos Vereadores nas eleições municipais do Rio em 2004. Para investigar o nascimento de um político, eles realizaram um questionário sobre as orientações políticas e partidárias e as condições da campanha. 

“Foram mais de 70 respostas. Escolhemos os ´finalistas´ em função da diversidade de partidos, perfis e regiões da cidade”, conta Joffily. Talvez fosse menos trabalhoso e mais polêmico investigar a vocação de políticos tarimbados e famosos. 

“Política não é questão de eloqüência, mas de caráter.” “Não vou prometer nada porque não gosto de fazer promessa.” “As redes de poder na periferia passam muito pela política.” Estas declarações poderiam ser de políticos tarimbados, mas são palavras de ordem de candidatos estreantes. 

Mas Joffily e Escorel insistiram em só documentar a campanha de novatos candidatos a vereador, o estrato mais básico do poder. “O depoimento de quem estava no começo da carreira poderia ser mais sincero do que dos veteranos. Aconteceu com O Chamado de Deus (documentário sobre a vocação religiosa) e os bispos eram muito mais reservados que os jovens seminaristas”, explica Joffily. 

Escorel concorda: “Queríamos mostrar a origem. E projetar o que estava por vir, em vez de fazer uma retrospectiva.” 
Os que atenderam ao ´chamado do poder´ são André Luiz Filho (PMDB), de uma família de políticos assistencialistas da periferia; Carlo Caiado (PFL) discípulo do deputado estadual Elder Dantas e do prefeito César Maia; M.C. Geléia (PV), rapper e produtor musical que ´fala a língua da periferia´; a pastora evangélica Márcia Teixeira (PL) que, sob a égide do marido, entrega literalmente para a fé (de seus fiéis) sua carreira; Antonio Pedro (PSDB), cujo reduto, na zona sul, é um dos mais áridos terrenos para plantar sua candidatura e Felipe Santa Cruz (PT), filho de presos políticos que não tem interlocutores para os debates que cria. 

É Felipe quem faz análise mais contundente do terreno ocupado pelos vereadores. “Na zona norte, faz toda diferença ser amigo do vereador. Na zona sul, onde o poder econômico dos eleitores é maior, a dependência é menor.” 

Os diretores concordam. E revelam sua decepção em relação à participação do eleitor na vida política da cidade. “Os jornais nem sequer citavam as campanhas para vereador e os eleitores eram totalmente desinteressados, como se os vereadores não tivesse a mínima importância.” 

FONTE:  Jornal O Estado de São Paulo (Estadão)

http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2005/not20051209p3149.htm

AS ERAS DE ERIC HOBSBAWM…

Um dia de LUTO, de algo que de fato mexeu comigo quando de manhãzinha fiquei sabendo. Tomei conhecimento de Eric J. Hobsbawm in loco já na graduação em Ciências Sociais, na UNESP/Araraquara. Seu cartão de “visitas”, para além de excertos de textos em livros didáticos do colegial, foi A Era das Revoluções, quando na disciplina de História I estudávamos, no 1º ano, as Revoluções Industrial e – especialmente – Francesa. Depois, via Marcos Lázaro “Gump” Prado, Ricardo Trindade “Sansa”, Ricardo Vásques “Chileno” Guerrero e Nelson Ruggiero Jr., colegas de sala, veio A Era dos Extremos. Uma das sensações esquisitas que sinto quando entro num site de livros, sebo ou mesmo vou a uma livraria é saber que ainda não tenho todos os livros dele, embora tenha uma quantidade razoável de sua obra. Compartilho as palavras de minha ex-professora na graduação, Leila Stein: a morte física de Hobsbawm não deixa de ser um alívio, ao menos para ele. Afinal morreu num hospital com 92 anos. Nem se imagina talvez o que passou. Festejemos a memória dele, a sua luta férrea contra a ignorância que grudou na globalização e que leva a grande parte da banalização que estamos vivendo. Do narciso ao fascista. Do tolo ao tudo pode. Da crença religiosa equiparada a ciência. Que vivam o progressismo e todas as boas idéias do século XX e que renascem neste XXI tímido.

Um dos maiores historiadores do século XX e famoso marxista, Eric Hobsbawm morreu nesta segunda-feira – 1 de outubro – em Londres, aos 95 anos, segundo um comunicado da família divulgado pelo jornal britânico The Guardian. Hobsbawm morreu no começo da manhã no hospital Royal Free de Londres, onde estava internado.

Hobsbawm é autor de quatro volumes considerados definitivos sobre a história dos séculos XIX e XX, abordando a trajetória europeia da Revolução Francesa à queda da União Soviética, entre outras obras. 

Sua análise começa com a publicação de Era das Revoluções, que abrange o período de 1789 a 1848. Na sequência vêm A Era do Capital (1848-1875) e A Era dos Impérios (1875-1914). As três obras abrangem o que ele denominou “o longo século XIX”.

Em 1994 publicou A Era dos Extremos, obra que abrange o período subsequente à Revolução Russa de 1917 e que vai até queda do regime soviético, em 1991. O livro sobre o “breve século XX” foi classificado pelo historiador Niall Ferguson, colega de Hobsbawm, como “o melhor ponto para qualquer um que queira começar a estudar história moderna”.

Em suas obras, Hobsbawm defendeu o poder das ideias de Karl Marx para analisar o mundo contemporâneo. Seu compromisso com os princípios comunistas o converteram em uma figura controversa, especialmente por sua filiação ao Partido Comunista britânico – que continuou mesmo depois da invasão soviética na Hungria, em 1956. Organizou também a belíssima e monumental coleção da Paz e Terra A História do Marxismo.

“Quatro meses atrás, poucos dias antes de completar 95 anos, Eric Hobsbawm enviou-me, por um amigo comum, uma carinhosa mensagem. “Diga ao Lula para seguir lutando pelo Brasil”, disse ele, “mas não se esquecer jamais da sofrida África.” A partir de agora meu comprometimento com os irmãos africanos passará a ser, também, uma homenagem à memória de seu marido”. Parte da carta enviada por Lula a Marlene Schwartz, viúva de Eric Hobsbawm.