CAPITALISMO GLOBAL, PROLETARIEDADE E OS LIMITES DA INDIGNAÇÃO. Giovanni Alves

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[Publicado originalmente no Blog da Boitempo – http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/03/05/capitalismo-global-proletariedade-e-os-limites-da-indignacao/]

Nos primórdios do século XXI, torna-se cada vez mais visível, numa perspectiva histórico-mundial, o que Karl Marx e Friedrich Engels salientaram em A ideologia alemã, como sendo a grande massa da humanidade “destituída de propriedade” que está em contradição (e não apenas em contraste) com um mundo existente de riqueza e cultura, o que pressupõe, portanto, um grande aumento da força produtiva e um grau elevado do seu desenvolvimento. É por isso que, nas condições do capitalismo global e da crise estrutural do capital, coloca-se, objetivamente, de modo mais pleno, a necessidade histórica do comunismo como condição irremediável da emancipação de indivíduos histórico-mundiais de sua alienação radical das condições da vida social.

A grande massa da humanidade “destituída de propriedade” é constituída hoje pela multidão de proletários. Como diz o lema do movimento social Occupy nos EUA, “we are the 99%”. No plano categorial, a grande massa da humanidade alienada do controle social representa hoje a “classe” social do proletariado: “classe” com aspas tendo em vista que, apesar de estarem subsumidos à condição de proletariedade, só tornam-se efetivamente classe social – sem aspas – na medida em que aparecem, com maior ou menor efetividade, como sujeito histórico em si/para si.

Portanto, no sentido radical, “proletário” é o homem ou mulher destituído da propriedade dos meios de produção da vida social, isto é, alienados do controle social e imersos na condição existencial de proletariedade e não apenas o pauperou trabalhadores assalariados miseráveis com ampla prole. Por exemplo, o conceito de proletariado abrange hoje as camadas médias assalariadas que podem ser consideradas proletários de “classe média”. Deste modo, a dita crise da “classe média” que ocorre no capitalismo global expressa tão somente hoje, no plano contingente, a ampliação e explicitação, no plano da percepção social, da condição de proletariedade das camadas médias assalariadas (o que não significa que tenham se tornado membros da classe social do proletariado tendo em vista os obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe nos segmentos médios do proletariado).

O crescimento das novas camadas médias de jovens proletários assalariados mais qualificados, desempregados ou inseridos em contratos de trabalho atípicos ou precários e que compõem hoje, principalmente nos países capitalistas mais desenvolvidos, o mundo do trabalho do século XXI – o dito “precariado” – é expressão suprema, no plano histórico-mundial, da explicitação da condição de proletariedade. Ela representa hoje a contradição candente do capital em sua etapa de crise estrutural. De fato, os jovens proletários carregam, em si, inscritos no seu ser, como estigma geracional, as desmedidas negativas do sistema produtor de mercadorias, que, por um lado, destitui homens e mulheres de propriedade e controle da vida social, e, por outro lado, ao mesmo tempo, acumula e concentra imensa riqueza e cultura.

A ampliação da condição de proletariedade do “precariato” ocorre, pari passu, com o incremento da manipulação que nega, no plano da percepção e do entendimento dos indivíduos históricos mundiais, a auto-consciência de classe. A invisibilidade social da natureza de classe do “precariato” é o processo ideológico supremo do capitalismo manipulatório. Na medida em que se ampliam as contradições vivas do capital, impulsiona-se com intensidade, a desefetivação humano-genérica, isto é, a precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Um dos alvos privilegiados da manipulação social são hoje, os jovens proletários mais qualificados que carregam em si e para si, a contradição suprema do capital em sua fase de crise estrutural.

A problemática geracional dos jovens proletários diz respeito não apenas a delimitações etárias, mas ao modo de controle do metabolismo social do novo proletariado hipertardio nas condições do capitalismo manipulatório com seu complexo de obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe e, portanto, à constituição da classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.

Nos países do capitalismo central, a temporalidade histórica dos “trinta anos perversos” (1980-2010) provocou cortes geracionais significativos no plano sociometabolico da “classe” do proletariado. Aceleração da mudança tecnológica na produção e no consumo, reação política neoconservadora e precariedade laboral com implosão dos laços de solidariedade de classe, projetaram as novas gerações de homens e mulheres proletários noutra dimensão sócio-histórica. A nova dinâmica sociometabolica do capital provocou segmentações inter-geracionais caracterizadas por clivagens na experiência vivida e experiência percebida de formações etárias da classe trabalhadora.

Na verdade, o novo modo de controle sociometabolico do capital operou fraturas salientes na experiência do tempo social. Eric Hobsbawn, no livro A era dos extremos, observou o fenômeno da “presentificação crônica”. Diz ele: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.” Por exemplo, as mutações sociometabolicas no seio do jovem proletariado é perceptivel no movimento estudantil dos países capitalistas mais desenvolvidos cuja tradição da contestação social não é reconhecida hoje pelos próprios estudantes. Na verdade, a falta de informação e de diálogo com gerações anteriores é hoje caracteristica comum a movimentos estudantis de todo o mundo.

Os fenômenos sociais da destruição do passado, presentificação crônica e falta de informação e de diálogo com gerações anteriores, isto é, alienação do passado público da época em que vivem – que se torna mais perceptivel com vigor, por exemplo, nas experiências dos movimentos estudantis – constituem expressões candentes do novo modo de controle sociometabolico do capital baseado  na precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Trata-se de um modo de dessubjetivação de classe que opera a obstaculização à formação da consciência de classe e por conseguintes, da própria classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.  

Nos primórdios do século XXI, o novo (e precário) mundo do trabalho é constituído pelo amplo contingente de “jovens adulto-flexíveis”, conceito utilizado por Renan Araújo para denominar o contingente dos novos trabalhadores assalariados que ingressam nos novos locais de trabalho reestruturados na década de 2000. No plano da consciência contingente de classe, os jovens adulto-flexíveis (ou melhor, jovens-adultos toyotizados), empregados ou desempregados, estáveis ou precários, são portadores do que podemos denominar o “paradoxo de Ícaro”: 

Por um lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido na relação de contrato de emprego estável, sente-se insatisfeito com a pressão do ambiente do trabalho flexível e suas contrapartidas salariais; sente-se frustrado com a realização profissional e insegurança laboral marcada pela pressão do capital pelo cumprimento de metas e desempenho (o ideal de ganhar a vida para perde-la repõem-se no patamar do toyotismo). Como observa Renan Araújo, “após anos de dedicação aos estudos e de profissionalização permanente, para a maioria a profecia não se cumpriu. Assim, deparamos-nos com engenheiros apertando parafusos, operários formados em Administração de Empresas operando torno CNC e outros que, mesmo tendo cursado Ciências da Informática, passam o dia clicando em softwares que, previamente programados, esvaziam o conteúdo do trabalho, deixando-o sem sentido, repetitivo e enfadonho. Por todos os ângulos em que se observa, a fábrica aqui pesquisada representa o mundo contraditório da promessa e da negação”. 

Por outro lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido em contratos de trabalhos precários ou desempregados, sente-se insatisfeito pela exclusão do universo do emprego estável e flexível no sentido do que ele representa para as individualidades pessoais de classe: primeiro, capacidade aquisitiva para consumir e tornar-se “cidadão do mundo das mercadorias”. Segundo, carreira profissional com perspectiva de futuridade (ele sente profunda angústia pela desrealização do valor corporificado na força de trabalho como mercadoria e talento singular). Terceiro, capacidade de organização da vida pessoal, constituindo família e tendo seu próprio território de desenvolvimento humano.

Na medida em que a nova geração de empregados e operários mais qualificados, jovens proletários estáveis ou precários nasceram “órfãos” das utopias coletivas do sindicalismo de classe ou da adesão à militância política socialista, tornaram-se mais dispostos a concertação social, com atitudes pró-ativas de cariz liberal. Foram produzidos no horizonte do mercado, pré-dispostos em si e para si, a colaborarem com o capital. Por isso, trata-se de pessoas humanas com um acervo de sonhos, expectativas e utopias de mercado avantajadas, mas irremediavelmente frustradas pela dinâmica férrea da relação-capital que perpetua a precariedade laboral quase como “destino”. A ambiguidade e ambivalência diante dos valores burgueses são marcas pessoais indeléveis destes jovens proletários imersos no paradoxos de Ícaro (o sentimento de ansiedade e frustração traduz no plano pessoal, a imagem mitológica da derrelição de Ícaro).               

Nesse caso, temos a clara percepção da dialética do processo de subsunção do trabalho ao capital que “captura”, não apenas para controlar, mas para expropriar/espoliar o talento singular da nova geração de empregados e operários. Na medida em que o desenvolvimento do processo de acumulação do capital ocorre pari pasu ao processo de desenvolvimento civilizatório como pressuposto negado, ele explicita a operação de espoliação de riqueza intangível dos novos talentos humanos empregados na produção do capital.

Ora, temos, deste modo, ao mesmo tempo, espoliação e desperdício, tendo em vista que a relação-capital não desenvolve (e nem pode desenvolver) de forma integral, as possibilidades criativas da nova força de trabalho complexa. Trata-se de segmento da força de trabalho como trabalho vivo altamente qualificada no plano da competência técnico-científica, cuja frustração decorre da irrealização profissional e desperdício existencial de suas possibilidades humano-genéricas.

Estas novas gerações de proletários vivem à exaustão, a disjunção pessoa-classe que caracteriza o modo de controle sociometabolico do capital. Portanto, eis a problemática do estranhamento que assume hoje dimensões cruciais sob o capitalismo global. Para György Lukács, o fenômeno do estranhamento, ocorre na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho ou da capacidade humana em reduzir as barreiras naturais, não significa o desenvolvimento da personalidade humana, mas pelo contrário, seu aviltamento e dilaceração em virtude da manipulação de alta intensidade e amplitude que caracteriza o capitalismo tardio.

Sob o capitalismo global, os jovens proletários mais qualificados, empregados ou desempregados, estáveis ou precários, tornam-se hoje objetos privilegiados de “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital, sendo expostos de modo candente à manipulação pelo capital no plano das experiências expectantes, isto é, experiências que organizam (ou manipulam) anseios, expectativas e utopias pessoais.  

O traço estrutural do capitalismo global é a manipulação da subjetividade do homem-que-trabalha. Por isso, o capitalismo global, ou seja, o capitalismo histórico na fase de crise estrutural do capital, é essencialmente o capitalismo manipulatório. A exacerbação da dimensão manipulatória do capital decorre da própria natureza da dinâmica de acumulação capitalista.

No século XX, a produção de mais-valia relativa assumiu dimensões alucinadas. Por exemplo, com o fordismo-taylorismo, a produção em massa, que caracterizou o capitalismo monopolista do século passado, significou a necessidade candente do capital de realização da massa de mais-valia acumulada. Tornou-se crucial, mais do que nunca, vender as mercadorias produzidas pela grande indústria. Por isso, impõe-se a centralidade da manipulação, não apenas do trabalhador assalariado na produção, mas do consumidor na esfera do mercado. É necessário manipular à exaustão a subjetividade do trabalhador assalariado como produtor e consumidor.

É claro que, desde as suas origens históricas, o capitalismo industrial buscou realizar, por meio da venda das mercadorias, a mais-valia extraída nas fábricas. Para isso, constituiu-se, como necessidade íntima do capital em processo, o mercado mundial. Mas, na medida em que se desenvolveu a grande indústria, a necessidade de realização da massa de mais-valia relativa extraída na produção do capital, a venda dos produtos-mercadorias no mercado mundial, tornou-se uma estranha obsessão que delineou o sociometabolismo do capital do século XX e XXI.

O mandamento supremo do capital como “sujeito automático” de autovalorização do valor é acumular, acumular e acumular. Com a grande indústria e a produção da mais-valia relativa, para que o capital possa acumular, acumular e acumular cada vez mais, tornou-se, mais do que nunca, imperativo vender, vender e vender. A ânsia da vendabilidade universal elevou-se à enésima potência com a produção em massa e a constituição plena do mercado mundial no sentido da intromissão da forma-mercadoria na vida cotidiana da sociedade burguesa. A vigência da produção da mais-valia relativa colocou como pressuposto da própria realização do valor, o imperativo da venda no centro dinâmico da vida social.

A ampliação do círculo da vendabilidade universal significou no século XX, o domínio crucial do fetichismo da mercadoria no plano das relações humanas e sociais. David Harvey, em seu livro O enigma do capital, recém-publicado pela Boitempo Editorial no Brasil, observou que a obsessão do capital é saber onde aplicar o excedente de capital-dinheiro. É a volúpia do excedente disponível para valorização que caracterizará o metabolismo social do capital no século XX. A obsessão do possuídor da massa de capital-dinheiro imprimirá a sua marca na dinâmica social. Aliás, os fenômenos históricos cruciais do século passado – imperialismo e globalismo, ou ainda, a hipertrofia do sistema de crédito e financeirização – originam-se, em última instância, da volúpia de vendabilidade universal tendo em vista a realização da massa crescente de mais-valia relativa extraída na produção do capital.

O desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho no século XX, com a vigência da lógica produtivista do taylorismo, fordismo e toyotismo, significou a elevação à enésima potência, da ânsia de realização da massa de mais-valia contida na imensa quantidade de mercadorias que compõem a sociedade burguesa, principalmente com o surgimento da produção em massa. A obsessão pelo consumo oculta, não apenas a obsessão pela absorção do excedente, como salientou Harvey, mas a obsessão pela realização do valor nas condições do mercado mundial constrangido.

Portanto, a contradição suprema do capitalismo histórico não é apenas produzir mercadorias, mas sim, realizar o valor contido nelas. That´s the problem! Por isso, as estratégias orgânicas do sistema mundial do capital no século XX buscaram administrar a contradição crucial, inovando na capacidade de prolongar à exaustão, as alucinações da forma-mercadoria, seja em torno da mercadoria propriamente dita, com a aceleração do circuito de valorização (produção, circulação e consumo, afirmando-se o que István Mészáros denominou “lei tendencial de decrescimento da utilização do valor de uso”); seja em torno da “mercadoria das mercadorias” (o Dinheiro), com a hipertrofia do sistema de crédito e a constituição do circuito da valorização fictícia (a financeirização da riqueza capitalista).

Uma das estratégias de administração da crise orgânica da forma-mercadoria, com impacto direto na morfologia social da sociedade burguesa e na subjetividade do homem-que-trabalha, é a manipulação do consumo. A manipulação da produção que caracteriza a grande indústria desdobra-se em produção da manipulação no plano da totalidade social. Eis um traço de alteração da alienação capitalista que caracterizará a “captura” da subjetividade do homem que trabalha pelo capital. Trabalhador assalariado é consumidor, onde o “é” acusa um juízo de devir (Trabalhador assalariado “torna-se”/interverte-se em consumidor). Na verdade, a vigência da manipulação sistêmica põe efetivamente o problema do estranhamento.

Sob o capitalismo, o problema da alienação é reposto, de forma ampla e candente, noutro patamar existencial, através do problema do estranhamento. Um mundo pleno de mercadorias é, segundo György Lukács, um mundo pleno de manipulação, que penetra não apenas os poros da produção, mas também do consumo e da reprodução social.

Se, por um lado, com a elevação do padrão de vida e consumo da classe trabalhadora no século XX, a percepção da exploração capitalista e o problema da alienação no sentido originário tendem a se esmaecer, por outro lado, põem-se, de modo incisivo, segundo Lukács, o problema do estranhamento propriamente dito, que, para ele, é o problema da vida plena de sentido (o psicanalista austriaco Viktor Frankl salienta que o problema crucial do nosso tempo é o problema da busca de sentido da vida).

Lukács observou, em 1968, que a mudança estrutural no caráter da alienação coloca, de forma candente, no auge do capitalismo afluente (o capitalismo fordista-keynesiano),  novas exigências no plano da luta de classes. Ou ainda, novas exigências no plano da consciência contingente de classe, expressa pela nova geração de empregados e operários mais qualificados (por exemplo, os “jovens adulto-flexíveis” ou toyotizados) que cresceram no interior do mundo de mercadorias e que possuem outras exigências, no plano do carecimento, comparados, por exemplo, com a geração anterior de operários e empregados. Diz Lukács:

“A luta de clas­ses no tempo da mais-valia absoluta estava voltada para a criação das condições objetivas indispensáveis a uma vida deste gênero. Hoje, com uma semana de cinco dias e um salário adequado, podem já existir as condições indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Mas surge um novo problema:aquela manipulação que vai da compra do cigarro às eleições presidenciais ergue uma barreira no interior dos indivíduos entre a sua existência e uma vida rica de sentido. Com efeito, a manipulação do consumo não consiste, como se pretende oficialmente, no fato de querer informar exaustivamente os consumidores sobre qual é o melhor frigorífico ou a melhor lâmina de barbear; o que está em jogo é a questão do controle da consciência. Dou apenas um exemplo, o ‘tipo’ Gauloises: apresenta-se um homem de aspecto ativo e másculo, que se distingue porque fuma os cigarros Gauloises. Ou ainda, vejo numa foto de publicidade, não sei se de um sabonete ou de um creme de barbear, um jovem assediado por duas belas garotas, por causa da atração erótica que determinado perfume exerce sobre elas”.

Vimos que Lukács, adotando uma perspectiva histórico-ontológica, faz a conexão íntima entre mais-valia relativa e manipulação, no sentido de que a exploração pela mais-valia relativa propiciou, a um contingente organizado da classe trabalhadora, semana de cinco dias e salário adequado, isto é, condições objetivas indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Segundo Lukács, objetivamente o proletariado possui hoje, pelo menos o proletariado estável, condições materiais para uma vida plena de sentido que entretanto, não se realiza, por conta da manipulação social que impregna a vida burguesa. O capitalismo da grande indústria de produção em massa tende, nas palavras dele, a erguer no interior desses individuos, “uma barreira entre a sua existência e uma vida rica de sentido”. Diz ele que a fruição da vida é reduzida ao gozo do consumo alienado. A ânsia fugaz pelo consumo de mercadoria é incapaz de dar um sentido à vida. Eis o sentido do estranhamento na ótica lukacsiana: o descompasso entre a existência dos indivíduos e uma vida plena de sentido

Portanto, para Lukács, o problema do estranhamento diz respeito em grande medida, à questão do controle da consciência, alvo-chave da manipulação do consumo visando a venda das mercadorias e a realização da mais-valia. A manipulação se ergue no interior dos indivíduos, cuja ânsia pelo consumo é instilada pelos aparatos de marketing e propaganda, como uma finalidade em si mesma. Diz ele:

“Por causa desta manipulação, o operário, o homem-que-trabalha, é afastado do problema de como poderia transformar seu tempo livre em otium, porque o consumo lhe é instilado sob a forma de uma superabundância de vida comfinalidade em si mesma, assim como na jornada de trabalho de doze horas a vida era ditatorialmente dominada pelo trabalho”.

A perspectiva de Lukács prende-se à produção capitalista fordista-taylorista quando o controle da consciência de classe, inclusive na construção do consentimento à produção rígida da linha de montagem acoplada a esteira mecânica, tinha no consumo, pelo menos para a classe operária organizada, seu lastro de legitimidade. O compromisso fordista-keynesiano, que caracterizou, nos países capitalistas centrais, os “trinta anos dourados” do capitalismo histórico do século XX (1945-1975), eram baseado na capacidade do capital em promover a “cidadania do consumo” em torno do ideal do emprego. A própria formação das individualidades pessoais de classe ocorriam com a elaboração de expectativas, anseios e utopias da carreira profissional e inserção laboral capazes de permitir a obtenção de capacidade aquisitiva, não apenas para satisfazer as necessidades básicas, mas os carecimentos sociais do admirável mundo novo das mercadorias.

Sob o capitalismo fordista-keynesiano nas condições da sociedade industrial afluente do pós-guerra, a fruição da vida era reduzida ao gozo do consumo de mercadorias. Nesse caso, a auto-consciência da alienação não se manifestava efetivamente, tendo em vista a vigência da “consciência tranquila” do operário ou empregado, que fruia a sua vida pessoal como individualidade de classe por meio do consumo estranhado. Na verdade, o trabalhador assalariado não se sentia insatisfeito no consumo, mas sim, na produção, tendo em vista a vigência do fordismo-taylorismo com a linha de montagem acoplada a esteira mecânica (a crise da organização do trabalho taylorista-fordista).

Com o capitalismo global de cariz neoliberal e a crise estrutural do capital, ocorreu a implosão do compromisso fordista-keynesiano baseado no crescimento com indexação de salários a produtividade. Nos “trinta anos perversos” (1980-2010), a crise do Estado de Bem-estar social, a crise do emprego e a ampliação da precariedade salarial ameaçou e frustrou as expectativas de consumo dos trabalhadores assalariados, principalmente das camadas médias asssalariadas que construíram suas expêriencias expectantes na perspectiva da fruição do consumo estranhado (eis uma dimensão da crise da “classe média”). Deste modo, percebe-se de modo claro, a corrosão do lastro de compatibilidade entre capitalismo e bem-estar social no núcleo orgânico do sistema mundial do capital. Ao mesmo tempo, intensificou-se e ampliou-se, de modo exacerbado, a manipulação da vida social, tanto no consumo, quanto na produção de mercadorias com a vigência do espírito do toyotismo.

Portanto, a crise do capital, que se instaurou em meados da década de 1970, opera descontinuidades/continuidades na dinâmica da manipulação sistêmica, repondo o círculo da alienação/estranhamento do homem-que-trabalha. A “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital assume novas dimensões no sentido da constituição/explicitação de novos fenômenos da alienação/estranhamento. O “paradoxo de Ícaro” que atormenta os “jovens adultos-flexiveis” do mundo social do capital pode ser expresso do seguinte modo:

Por um lado, para os jovens trabalhadores assalariados do novo mundo do trabalho inseridos em contratos de emprego estável, a auto-consciência da alienação e insatisfação que caracterizava a organização fordista-taylorista do processo de trabalho, interverteu-se, com a organização toyotista, em estranhamento no sentido da fruição perversa e opaca que a condição de empregado estável na empresa flexível imputa aos homens e mulheres que trabalham submetidos ao cumprimento de metas desumanas e pressões contínuas por mais produtividade. Nesse caso, a carga de ansiedade e depressão deriva da realização profissional estranhada que dilacera seu ser humano-genérico.

Por outro lado, para jovens trabalhadores assalariados precários e desempregados, o dito “precariato”, “órfãos” da cidadania salarial, o sentimento de insatisfação e a auto-consciência da alienação se tornou crucial (alienação como perda/frustração). Nesse caso, existe uma sutil distinção categorial entre alienação e estranhamento. No plano da consciência contingente, o dito “precariato” sente-se alienado da “cidadania do consumo” e portanto, alienados de si mesmos como consumidores ou individualidades de classe constituídos no interior do mundo das mercadorias (nesse sentido, a alienação no sentido categorial tem uma intensa carga de insatisfação e deriva pessoal). Nesse caso, a carga de ansiedade, depressão e frustração compõem um quadro de desrealização íntima em si e para si que deriva da sua precariedade salarial no mundo das mercadorias.

Portanto, jovens-adultos assalariados, empregados e desempregados, estáveis e precários, representam dimensões paradoxais da classe-que-vive-do-trabalho com seus respectivos pressupostos sociometabólicos: por um lado, uma parte da classe que tem condições objetivas para uma vida plena de sentido, não consegue tê-la, tendo em vista o trabalho estranhado (a fruição perversa não está apenas no consumo, mas também no trabalho flexível). Mas na medida em que se constitui o círculo do estranhamento (consumo e trabalho estranhado), implode-se a “consciência tranquila” observada por Herbert Marcuse na época do capitalismo afluente. Na verdade, a exacerbação do estranhamento que assistimos no capitalismo toyotista constitui uma “consciência intranquila”, opaca e intransparente da sua condição de proletariedade. 

Por outro lado, outra parte da classe, constituída pelos trabalhadores assalariados precários (precários no sentido de alienada da “cidadania salarial”), sentem-se afligidos por não terem condições objetivas para uma vida plena de sentido. Eles representam a nova pobreza do capitalismo global de cariz neoliberal. No plano contingente, anseiam (e lutam) pela “cidadania salarial” nos marcos da ordem da mercadoria. Entretanto, as condições de luta e organização sindical, no plano do em-si da classe, são adversas para eles.

A “consciência intranquila” dos precários “indignados” do século XXI se distingue radicalmente da “consciência intranquila” dos proletários da Primeira Revolução Industrial que enfrentaram a experiência do factory systeminseridos ainda em modos de sociabilidades tradicionais e valores de cunho comunitário (como observou E.P. Thompson). Ora, os proletários precários pós-modernos nasceram e cresceram no interior da ordem social da mercadoria. Eles próprios sentem-se, no plano da consciência contingente, como mercadorias vivas. É o que explica, por exemplo, a incapacidade dos precários indignados traduzirem o sentimento de indignação numa perspectiva crítica para além da ordem burguesa. Na verdade, a indignação do “precariato” é a indignação reativa que decorre da frustração das expectativas, anseios e utopias de mercado (diferentemente, por exemplo, dos sonhos, expectativas e utopias das primeiras gerações de operários que possuíam sentido comunitário exterior à ordem industrial originária. De certo modo, eles ansiavam tornarem-se “produtores autonomos”, voltar a terra etc).

Na medida em que o capitalismo global não consegue repor a perspectiva de emprego digno para todos, os jovens “precários” alienados do sonho do emprego estável tendem a serem manipulados com o ideal da empregabilidade no sentido de construírem a identidade do “trabalho autônomo” ou “trabalho por conta própria de segunda geração” (como diria Sergio Bologna). Deste modo, a intranquilidade da descartabilidade se interverte na intranquilidade da fluidez, eufemismo para inseguraça, expondo, com vigor, a sua condição de proletariedade.  

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

CAPITALISMO E LUTA DE CLASSES. James Petras

 

A luta de classe continua a desempenhar um papel central no processo da acumulação capitalista, embora assuma formas diferentes consoante o contexto sócio-económico. Para analisar a situação da luta de classes é necessário especificar conceitos chave relacionados com (a) as diversas condições e os sectores dominantes do capital na economia global, (b) a natureza da luta de classe, (c) os principais protagonistas das lutas de classe, (d) o carácter das exigências e (e) as lutas de massas. 

A acumulação capitalista desenrola-se num padrão muito desigual com consequências importantes para a natureza e a intensidade da luta de classe. Além disso, as reacções particulares dos trabalhadores, e principalmente do estado capitalista, à situação geral da economia moldam o grau em que a luta de classe se intensifica e definem qual dos dois principais ‘pólos’ (capital ou trabalho) assume a ofensiva. 

Clarificação de conceitos 

Ao analisar o capitalismo contemporâneo, a distinção mais flagrante é entre três condições radicalmente diferentes que o capitalismo enfrenta. Dizem respeito à experiência dos países quanto a (a) alto desenvolvimento, (b) estagnação, (c) crises profundas. 

Os países capitalistas de alto crescimento dividem-se acentuadamente entre (a) os que têm um alto crescimento do consumo, são grandes exportadores de produtos agro-minerais-energia, na sua maioria situados em África e na América Latina, (b) e os que são exportadores de produtos fabricados – situados principalmente na Ásia (China, Índia, Coreia do Sul). 

As economias em crise podem subdividir-se em três grupos.

(a) Economias em recuperação rápida, que incluem a Alemanha e os países nórdicos, e que, depois de se afundarem num crescimento negativo, alargaram as suas exportações industriais e estão a crescer rapidamente desde 2010. 
(b) Economias em recuperação lenta ou em estagnação, que incluem os EUA, a Grã-Bretanha, a França e a Itália, e que bateram no fundo, recuperaram lucros, em especial no sector financeiro, mas têm feito pouco ou nenhum progresso na redução do desemprego, na expansão das manufacturas e no crescimento em geral. 
(c) Economias em crise prolongada e profunda, que incluem Portugal, Espanha, Grécia, os países bálticos e balcânicos, que estão na bancarrota, com um desemprego crescente entre 15% a 20% e um crescimento negativo. Têm um pesado fardo de endividamento e estão a implementar fortes programas de austeridade destinados a prolongar a sua depressão económica durante os próximos anos.

Assim como há padrões desiguais no desenvolvimento capitalista, o mesmo acontece no que se refere à luta de classes. Há vários conceitos chave que é preciso ter em consideração na análise da luta de classes.

Em primeiro lugar, há a distinção entre luta de ‘classes’ e luta de ‘massas’. Na América Latina há muitas situações de lutas de trabalhadores polivalentes, de camponeses ou do sector público, lideradas por organizações ligadas a classes. Por vezes estes movimentos baseados em classes tornam-se em ‘lutas de massas’ e incorporam grupos heterogéneos (vendedores ambulantes, trabalhadores independentes, etc). As revoltas árabes contemporâneas são sobretudo lutas de massas, geralmente sem liderança ou organizações de classe, ou nalguns casos lideradas pela ‘juventude’ ou por ‘organizações religiosas’.

Em segundo lugar, há a distinção entre lutas de classe ‘ofensivas’ e ‘defensivas’, em que as organizações de classe lutam para aumentar os seus direitos sociais e aumentar salários ou lutam para preservar ou limitar a perda de salários e dos níveis de vida.

A luta de classe é uma proposta com dois sentidos: enquanto os trabalhadores e outras classes exploradas lutam a partir de baixo, as classes dirigentes e os seus estados empenham-se na luta de classes a partir de cima para aumentar os seus lucros, produtividade e poder.

A luta de classe assume formas diversas. A maior parte das lutas de classe de hoje é sobre ‘questões económicas’, incluindo uma fatia maior do rendimento nacional. Há meia dúzia de anos, em toda a América Latina, tal como hoje nos países árabes, a luta de classes ou de massas era/é principalmente política, uma luta para derrubar regimes neoliberais opressivos e regimes repressivos.

Com estes conceitos clarificados, podemos agora analisar a relação entre países e regiões com diversos graus de crises ou de crescimento e a sua relação com os diversos graus e tipos de luta de classes.

Desenvolvimento desigual e luta de classe 

Os países que experimentam um alto crescimento, quer na Ásia com base na produção, quer na América Latina com base na explosão das exportações agro-minerais, enfrentam uma crescente luta de classes económica ofensiva por uma fatia maior do bolo económico em crescimento. Na década passada, na China, sob a pressão das bases, os salários ultrapassaram um aumento de 10%, e nalgumas regiões de 20% [1] , enquanto que na América Latina os trabalhadores da Bolívia e doutros países exigem mais de 10% [2] . Em grande parte, o alto crescimento é acompanhado pela inflação [3] que corrói os aumentos nominais oferecidos pelo estado e pelos empregadores. Especialmente provocadores são as fortes subidas nos preços dos alimentos básicos, da energia e dos transportes que afectam a vida quotidiana dos trabalhadores.

Entre os sinais mais promissores do avanço da luta de classes estão as conquistas sócio-económicas reais e substanciais conseguidas pelos trabalhadores na década passada na América Latina. Na Argentina o desemprego diminuiu de mais de 20% para menos de 7%, os salários reais aumentaram mais de 15%, o salário mínimo, as pensões e a cobertura médica aumentaram substancialmente e a filiação sindical aumentou. No Brasil ocorreram processos semelhantes, embora numa escala menor: o desemprego passou de 10% para 6,5% (Março de 2011), o salário mínimo aumentou mais de 50% nos últimos 8 anos e várias centenas de terrenos foram ocupados e expropriados sob a acção directa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Na América Latina, embora a política social revolucionária tenha diminuído desde a primeira década de 2000, a luta de classes económica tem tido êxitos na obtenção de reformas substanciais que melhoram a vida da classe trabalhadora e impõem algumas restrições à exploração desenfreada da força de trabalho pelo neoliberalismo, em profundo contraste com o que está a passar-se na Inglaterra-América e na Europa do Sul.

Nos países imperialistas ‘desenvolvidos’ em estagnação, o estado tem vindo a atirar o custo total da ‘recuperação’ sobre os ombros dos trabalhadores e dos funcionários públicos, reduzindo o emprego, os salários e os serviços sociais, enquanto enriquece os banqueiros e a elite empresarial. Os EUA, a Inglaterra e a França têm assistido a uma aguda ofensiva de classe a partir de cima que, perante a fraca oposição de um aparelho sindical anquilosadamente burocratizado, tem derrubado muitas das conquistas sociais anteriores dos trabalhadores [4] . Na essência, as lutas dos trabalhadores são defensivas, na tentativa de limitar o recuo mas falta-lhes a organização política de classe para contra-atacar as medidas orçamentais reaccionárias que cortam os programas sociais e reduzem os impostos aos ricos, aprofundando as desigualdades de classe.

As lutas de classe mais intensas ocorreram nos países em que se verificam as crises económicas mais profundas, nomeadamente, na Grécia, em Espanha, na Irlanda e em Portugal. Nestes países, a classe dirigente recuou meio século de conquistas sociais e de salários no decurso de três anos a fim de satisfazer os critérios dos banqueiros ocidentais e do FMI. A ofensiva de classe a partir de cima, liderada pelo Estado, tem enfrentado uma série de greves gerais, numerosas manifestações e montes de protestos mas tudo em vão [5] . A elite industrial-estatal, liderada na maior parte dos casos pelos políticos sociais-democratas, privatizaram empresas públicas, cortaram milhões de empregos públicos, elevaram os níveis de desemprego a níveis históricos (Espanha 20%, Grécia 14%, Portugal e Irlanda 13%) e canalizaram dezenas de milhares de milhões para pagamentos da dívida [6] .

As crises têm sido aproveitadas pela classe dominante como arma para reduzir os custos da mão-de-obra, para transferir receitas para os 5% do topo da hierarquia de classes e para aumentar a produtividade, sem reactivar a economia no seu todo. O PIB continua ‘negativo’ para o futuro previsível, enquanto que a austeridade corrói a procura interna, e os pagamentos da dívida impedem o investimento local de reactivar a economia.

As crises políticas dos regimes clientes árabes, rentistas, autocráticos e corruptos, manifestam-se nos movimentos democráticos populares de massas – na ofensiva – que derrubaram os regimes no Egipto e na Tunísia, para começar, e desafiam o aparelho de estado pró-imperialista [7] . No Egipto e na Tunísia, foram derrubadas as autocracias pró-imperialistas mas ainda não estão no poder regimes democráticos populares que correspondam aos novos protagonistas de massas da alteração política. No resto do mundo árabe, surgiram revoltas de massas no Iémen, no Bahrein, na Argélia, na Jordânia, na Síria e noutros locais, contra autocracias imperialistas armadas, levantando o espectro de alterações democráticas e sócio-económicas.

As potências imperiais, EUA e UE, inicialmente apanhadas desprevenidas, acabaram por desencadear um contra-ataque, intervindo na Líbia, apoiando a junta militar no Egipto e tentando impor ‘novos’ regimes colaboracionistas para bloquear uma transição democrática [8] . A luta de massas, influenciada pelas forças islâmicas e seculares, tem um claro programa de rejeição da actual situação política, mas, na falta de uma liderança de classe, não tem sido capaz de apresentar uma estrutura política e económica alternativa para além de vagas noções de ‘democracia’[9] .

Em resumo, o crescimento, acompanhado de um rápido aumento no rendimento nacional e de uma inflação crescente, tem sido muito mais mobilizador para a luta de classes ofensiva a partir de baixo do que as ‘crises’ ou a ‘estagnação’ que, quando muito, são acompanhadas por lutas ‘defensivas’ ou de retaguarda. Em parte, a teoria da ‘privação relativa’ parece adequada à ideia duma crescente luta de classes, mas esse tipo de luta é principalmente ‘economicista’ e visa menos o estado propriamente dito. Além disso, os métodos de luta são normalmente greves por salários mais altos. Isto é sobretudo evidente na Argentina, no Brasil, no Chile e no Peru, onde ocorreram intensas lutas por exigências economicistas diminutas. A excepção são as lutas da comunidade índia no Peru e no Equador contra as companhias mineiras estatais e estrangeiras que exploram e poluem as suas terras, o ar e a água.

No entanto, há várias advertências a fazer. A classe trabalhadora na Bolívia, que goza de um dinâmico e forte crescimento nas exportações agro-minerais, lançou uma greve geral de dez dias (6 a 16 de Abril de 2011) pelos salários [10] . A prolongada greve no tempo acabou por levantar dúvidas ‘políticas’ sobre a legitimidade do regime de Morales nalguns sectores. Isto deve-se, em parte, ao facto de que os aumentos de salários são fixados pelo governo. Segundo a principal organização de trabalhadores (COB), os aumentos ditados pelo regime ficaram abaixo do aumento dos preços do cesto alimentar básico das famílias. Daí que, o que começou como uma luta económica, acabou por se politizar. Da mesma forma, no caso do Peru, com uma dinâmica economia de exportação de minério, o regime neoliberal de Garcia enfrentou agudos confrontos económicos e ecológicos com os mineiros e as comunidades índias. Na campanha eleitoral presidencial de 2011, a luta tornou-se fortemente política, com uma pluralidade de eleitores trabalhadores e camponeses a apoiar Humala, o candidato centro-esquerda [11] . Em países de alto crescimento, que dependem de grandes companhias mineiras de propriedade estrangeira e possuem substanciais comunidades índias, o conflito de classe alia-se a exigências ecológicas, de classe, nacionais e etnocomunitárias.

Por outras palavras, a distinção traçada acima entre lutas de classe ofensivas/defensivas e económicas/políticas é fluida, está sujeita a alterações, consoante muda a luta e o seu contexto.

A terrível agudização da luta de classe numa China em forte crescimento reflecte a crescente falta de trabalho nas regiões costeiras, os enormes lucros duma nova classe de multimilionários, a intensa exploração da mão-de-obra e a entrada de uma ‘nova geração’ de jovens trabalhadores com opções alternativas de trabalhar numa ‘fábrica única’ [12] . A ‘socialização’ de grandes concentrações de trabalhadores em grandes fábricas, em proximidade estreita, facilita a acção colectiva. Profundas desigualdades, especialmente à luz do rápido crescimento dos capitalistas super ricos, ligados a funcionários políticos corruptos e a sindicatos irresponsáveis controlados pelo estado, levaram a uma ‘espontânea’ acção directa de classe [13] . O impacto radicalizador da inflação é evidenciado pelo surto duma greve de grande nível de camionistas em Baoshan, o maior porto da China, em Xangai: os trabalhadores protestaram contra o aumento dos custos do combustível e das taxas portuárias. Segundo uma notícia, “Funcionários chineses alertaram para que a brusca alta de preços e a crescente inflação da corrupção oficial constitui a maior ameaça ao governo do Partido Comunista”. (Financial Times 4/23-24/11 p1)

As lutas sindicais orientadas politicamente apareceram recentemente na Venezuela, onde o governo de Chavez tem sublinhado o ‘conteúdo operário’ da ‘revolução socialista bolivariana’. Isto encorajou os trabalhadores a entrar em greve nas empresas privadas para exigir a expropriação de capitalistas intransigentes assim como a alteração na gestão de empresas públicas substituindo tecnocratas burocráticos por trabalhadores [14].

A luta de classe menos desenvolvida passa-se nos Estados Unidos ‘em estagnação’. Uma combinação da baixa densidade sindical (93% dos trabalhadores do sector privado não estão sindicalizados) com uma legislação laboral altamente repressiva e uma liderança sindical milionária auto-perpetuadora, totalmente dependente do Partido Democrático capitalista, inibem o desenvolvimento da consciência de classe, com excepção de algumas ‘bolsas locais’ de resistência [15] . A rápida erosão dos salários tem sido acompanhada por uma exploração acrescida (menos trabalhadores e uma produção reforçada) e pela redução dos últimos vestígios da rede social (segurança social e planos médicos para a população acima dos 65 anos) [16] .

Podíamos argumentar que o alto rendimento per capita, só por si, não é uma razão bastante para pressupor um enfraquecimento da luta de classe, já que a França e a Itália normalmente têm mais greves gerais do que a Inglaterra apesar de o rendimento per capita ser mais alto. O que é fundamental são os laços institucionais entre os sindicatos e os partidos democráticos laborais/sociais, por um lado, e a livre associação de assembleias de trabalhadores nas fábricas, por outro. Nos EUA e no Reino Unido a estagnação e a reacção estão ligadas à subordinação da força de trabalho aos partidos neoliberais sociais-democratas/democratas, enquanto que em França e na Itália os sindicatos têm laços mais estreitos com as assembleias de fábrica e mantêm um grau mais alto de autonomia de classe [17] .

Por outras palavras, não há uma regra de ferro que ligue formas particulares da luta de classe ao dinamismo ou à estagnação da economia – o que tem que ser incluído é o grau de organização independente de classe capaz de elevar o nível da luta no meio das voláteis alterações económicas e políticas.

Imperialismo, luta inter-capitalista e luta de classe 

Apesar das crises económicas de 2007-2009, que abalaram a maioria – mas não todos – dos principais centros capitalistas neo-liberais – a classe capitalista na Europa e na América do Norte ficou mais forte do que nunca. Seguindo as prescrições estabelecidas pelo Fundo Monetário Internacional, os principais bancos privados de crédito e os Bancos Centrais, toda a carga de pagamentos da dívida, de défices fiscais e de desequilíbrios comerciais, da responsabilidade dos regimes neoliberais, foi atirada para cima das classes trabalhadoras e assalariadas. Em toda a ‘periferia’ da Europa de Leste e do Sul foram aplicadas selectivas medidas de austeridade semelhantes. O resultado foi uma reestruturação radical de pensões, de salários, de relações sociais de produção – todo o conjunto de relações de classe estatais. Em consequência, ocorreu uma verdadeira contra-revolução ‘pacífica’ sócio-económica ‘eleitoral’ a partir de cima, que aprofunda a exploração da força do trabalho pelo capital enquanto concentra a receita nos 10% do topo da pirâmide social.

Os países imperialistas dos EUA e da Europa que enfrentam uma competição cada vez mais intensa dos BRICs (em especial da China) e dos países em vias de industrialização da Ásia e os crescentes preços dos bens, viraram-se para a procura de ‘competitividade’ através duma exploração interna intensificada, duma maior pilhagem do erário público e de guerras imperialistas.

Apesar disso, esta competição inter-capitalista está a ter um efeito inverso, aumentando os rendimentos dos trabalhadores dos BRICs e baixando os padrões de vida nos centros imperialistas instituídos. Isto porque os BRICs investem na economia de produção enquanto que os centros imperialistas esbanjam milhões de milhões nas forças armadas e na actividade especulativa [18] .

É preciso fazer um reparo no que se refere à competição entre os países imperialistas e os BRICs, na medida em que há milhares de fios financeiros, comerciais, tecnológicos e de produção que os ligam uns aos outros. Apesar disso, os conflitos entre formações sociais são reais, tal como o é a natureza das clivagens internas de classes e das suas configurações. O imperialismo, tal como existe hoje, é um fardo para o avanço da classe trabalhadora [19] . Por agora a dinâmica interna das potências económicas emergentes parece dotá-las com a capacidade de financiar o crescimento interno expandindo o comércio ultramarino e as concessões de salários à classe trabalhadora emergente que exige um quinhão do bolo de receitas em crescimento.

Conclusão 

Embora à superfície haja um declínio da luta de classe revolucionariamente política, a partir de baixo, há potencial para que as lutas económicas se tornem políticas no caso de a inflação corroer os ganhos e de os líderes políticos poderem fixar ‘linhas de orientação’ rígidas sobre os aumentos salariais. Em segundo lugar, tal como ilustra a Venezuela, os líderes políticos podem proporcionar as condições que favorecem o avanço da luta de classe do económico para o político.

Actualmente, a luta de classe política mais dinâmica vem de cima – o assalto sistemático a salários, à legislação social, às condições de emprego e de trabalho lançado nos EUA, na Espanha, na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Inglaterra e nos estados bálticos/balcânicos. Nestes países as crises económicas ainda não provocaram a revolta das massas; em vez disso assistimos a acções defensivas, a greves de grande escala até, tentando defender conquistas históricas. Tem sido uma luta desigual em que a classe capitalista manobra as alavancas institucionais, políticas e económicas, apoiada pelo poder internacional dos bancos e estados imperialistas. A classe trabalhadora não tem o que se lhe compare em termos de solidariedade internacional [20] . Os sinais mais promissores na luta de classe global encontram-se na acção directa dinâmica da classe trabalhadora latino-americana e asiática. Aí, conquistas económicas sólidas levaram ao reforço do poder e organização de classe. Além disso, os trabalhadores podem basear-se em tradições revolucionárias para criar as bases para o relançamento de um novo projecto socialista [21] . Poderá isso detonar um novo ciclo de guerra de classe, política e económica, a partir de baixo? O reaparecimento da inflação, da recessão, da repressão e de cortes ainda mais profundos poderá obrigar a força de trabalho a agir independentemente e contra o estado como personificação deste período regressivo.

25/Abril/2011

Notas 
[1] Sobre a luta dos trabalhadores na China ver “Os trabalhadores é que mandam” Financial Times (FT) 22/2/11, p. 3 e também FT 16/2/11 “Salários chineses aumentaram 12,6% entre 2000-2009 segundo o ILO”
[2] La Jornada 9/4/11 – A Confederação dos Trabalhadores Bolivianos exigiu um aumento de 15% nos salários. Em 2010, a Bolívia teve o maior número de conflitos em 41 anos El Pais 16/4/11.
[3] “Explosão da Inflação nos mercados emergentes” (Financial Times) 14/4/2011, p. 1 “Beijing obrigada a deixar subir o renminbi para combater a inflação” ( FT 17/4/2001) p. 3.
[4] Sobre o orçamento para o ano fiscal de 2012, de Obama, comparar New York Times 13/4/11 e 14/2/11. O último discurso sobre o orçamento sublinha mais de 4 milhões de milhões de dólares em cortes durante 10 anos, que afectam em grande medida a rede social, uma importante concessão aos extremistas republicanos da ala direita.
[5] Os trabalhadores gregos organizaram mais de seis greves gerais entre 2009 e 2011 (ver o semanário ateniense DROMOS desse período). Os trabalhadores espanhóis organizaram duas greves gerais em 2010. Portugal uma e a Irlanda uma importante manifestação.
[6] Dados compilados a partir dos Relatórios sobre o Emprego da Organização Internacional do Trabalho 2010-11.
[7] Ver All Jazeera Fev–Março 2011. Sobre o papel repressivo da nova junta militar, ver Al Jazeera 7/4/2011.
[8] Reuters 14/2/11. Washington, nos bastidores, a manobrar a instalação de um antigo lealista de Mubarak, Field Marshall Tatawi, para chefe da junta é um exemplo flagrante.
[9] A incapacidade dos movimentos sociais árabes para assumir o poder repete um problema semelhante da década anterior na América Latina. Ver James Petras e Henry Veltmeyer Social Movements and State Power (London: Pluto 2005).
[10] Sobre a greve geral na Bolívia, ver “Central Obrera declaran huelga general” La Jornada (Cidade do Mexico)], 8 e 16 de Abril, 2011.
[11] Sobre a primeira volta das eleições presidenciais no Peru e do vencedor populista centro esquerda Ollanta Humala, ver BBC “Peru facing polarizing election as populists face off”, 12/4/2011.
[12] Segundo uma notícia “discute-se a subida dos custos da mão-de-obra (na China). Há oportunidades de emprego por todo o lado, há muito menor necessidade de emigração” Financial Times18/3/11, p. 22.
[13] Sobre os multimilionários chineses ver Forbes Março 2011. Em consequência de “disputas irreflectidas entre Maio e Agosto (2010) os patrões foram atingidos por greves ou outros problemas. Isso resultou em aumentos de salários, nomeadamente um aumento de 30% na Foxcomm, um fabricante de Taiwan”. Financial Times 16/2/11, p. 3.
[14] Correo de Orinoco, Caracas, Venezuela (English edition weekly) 3-9 de Abril, 2010.
[15] A greve geral dos trabalhadores do sector público de Wisconsin em Março de 2011 foi a excepção à regra, a primeira do seu género, induzida pelo governador republicano e pela abolição efectiva da legislação de direitos de negociação colectiva. Com excepção de uma greve de um dia dos estivadores de São Francisco e de alguns protestos esporádicos noutros estados, a confederação americana do trabalho AFL-CIO não organizou uma única manifestação pública nacional, mantendo-se dependente do financiamento de muitos milhões de dólares dos políticos Democratas.
[16] O congressista Republicano Ryan propôs a privatização da segurança social e do programa de saúde sénior (Medicare) e uma redução draconiana das despesas com os cuidados de saúde aos pobres e deficientes. O presidente Obama prosseguiu com a sua versão de cortes sociais regressivos embora numa escala menor mas na mesma direcção. Ver o discurso de Obama ao povo americano no comunicado de imprensa da Casa Branca em 3 Abril, 2011. New York Times 14 Abril, 2011, p. 1.
[17] Discussões com delegados de fábricas e Luciano Vasapolla, secretário do movimento sindical italiano militante “Reto di communisti”, Roma, Itália. 1 Maio, 2009.
[18] Sobre o impacto negativo da financiarização do capital e das despesas militares na economia produtiva, ver Michael Chossudovsky e Andrew Gavin Marshall ed The Global Economic Crises (Montreal: Global Research 2010) ESP. Cap. 3, PP. 72-101 e Cap. 9, pp. 181-211.
[19] Para uma exposição clara da relação entre imperialismo e decadência interna, ver James Petras and Morris Morley, Empire or Republic? American Global Power and Domestic Decay (New York: Routledge 1995).
[20] O “Fórum Social Mundial” e outros ditos “fóruns de esquerda” são essencialmente constituídos por discursos que criam oportunidades para as classes palradoras constituídas por académicos e membros das ONG. Na maior parte dos casos as fundações e os patrocinadores proíbem-nos explicitamente de assumir uma posição política, e muito menos organizar apoio material para as lutas de classes existentes. Nenhuma das principais greves gerais da classe trabalhadora na Europa, na América Latina ou na Ásia recebeu jamais apoio material dos eternos assistentes dos fóruns de esquerda. O declínio do internacionalismo operário não foi compensado sob qualquer aspecto pela solidariedade internacional destas forças díspares.
[21] Apesar da diabolização da Revolução Cultural e social na China e na Indochina, muitos gestores, líderes de grupos e até mesmo intelectuais liberais, têm consciência e receiam as consequências de “empurrar a classe trabalhadora longe demais”. Na América Latina o legado revolucionário das revoluções do passado e o exemplo de Cuba e da Venezuela ainda servem como uma herança viva das lutas revolucionárias.

O original encontra-se em: http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=24487
Tradução de Margarida Ferreira. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .