MOVIMENTO ZEITGEIST EM PORTUGAL

MOVIMENTO ZEITGEIST EM PORTUGAL

“Toda a indústria da propaganda e a sociedade de consumo entrariam em colapso se as pessoas se tornassem iluminadas e deixassem de tentar encontrar as suas identidades através dos objectos.” 

– Eckhart Tolle

GERMINAL. Emile Zola. Filme

ATENÇÃO: para ativar a legenda, é preciso clicar na sigla CC na parte inferior da tela.

O filme, baseado na obra da literatura francesa naturalista de Émile Zola, um clássico, retrata o processo de gestação e maturação de movimentos grevistas e de uma atitude mais ofensiva por parte dos trabalhadores das minas de carvão do século XIX na França em relação à exploração de seus patrões. Debate importante sobre as condições sociais dos trabalhadores em plena consolidação do capitalismo industrial na Europa e o processo de alienação e exploração de trabalho.

Direção: Claude Berri 
Ano: 1993 
País: Bélgica, Itália, França 
Gênero: Drama 
Duração 170 min. / cor
Título Original: Germinal

CAPITALISMO GLOBAL, PROLETARIEDADE E OS LIMITES DA INDIGNAÇÃO. Giovanni Alves

Imagem

[Publicado originalmente no Blog da Boitempo – http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/03/05/capitalismo-global-proletariedade-e-os-limites-da-indignacao/]

Nos primórdios do século XXI, torna-se cada vez mais visível, numa perspectiva histórico-mundial, o que Karl Marx e Friedrich Engels salientaram em A ideologia alemã, como sendo a grande massa da humanidade “destituída de propriedade” que está em contradição (e não apenas em contraste) com um mundo existente de riqueza e cultura, o que pressupõe, portanto, um grande aumento da força produtiva e um grau elevado do seu desenvolvimento. É por isso que, nas condições do capitalismo global e da crise estrutural do capital, coloca-se, objetivamente, de modo mais pleno, a necessidade histórica do comunismo como condição irremediável da emancipação de indivíduos histórico-mundiais de sua alienação radical das condições da vida social.

A grande massa da humanidade “destituída de propriedade” é constituída hoje pela multidão de proletários. Como diz o lema do movimento social Occupy nos EUA, “we are the 99%”. No plano categorial, a grande massa da humanidade alienada do controle social representa hoje a “classe” social do proletariado: “classe” com aspas tendo em vista que, apesar de estarem subsumidos à condição de proletariedade, só tornam-se efetivamente classe social – sem aspas – na medida em que aparecem, com maior ou menor efetividade, como sujeito histórico em si/para si.

Portanto, no sentido radical, “proletário” é o homem ou mulher destituído da propriedade dos meios de produção da vida social, isto é, alienados do controle social e imersos na condição existencial de proletariedade e não apenas o pauperou trabalhadores assalariados miseráveis com ampla prole. Por exemplo, o conceito de proletariado abrange hoje as camadas médias assalariadas que podem ser consideradas proletários de “classe média”. Deste modo, a dita crise da “classe média” que ocorre no capitalismo global expressa tão somente hoje, no plano contingente, a ampliação e explicitação, no plano da percepção social, da condição de proletariedade das camadas médias assalariadas (o que não significa que tenham se tornado membros da classe social do proletariado tendo em vista os obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe nos segmentos médios do proletariado).

O crescimento das novas camadas médias de jovens proletários assalariados mais qualificados, desempregados ou inseridos em contratos de trabalho atípicos ou precários e que compõem hoje, principalmente nos países capitalistas mais desenvolvidos, o mundo do trabalho do século XXI – o dito “precariado” – é expressão suprema, no plano histórico-mundial, da explicitação da condição de proletariedade. Ela representa hoje a contradição candente do capital em sua etapa de crise estrutural. De fato, os jovens proletários carregam, em si, inscritos no seu ser, como estigma geracional, as desmedidas negativas do sistema produtor de mercadorias, que, por um lado, destitui homens e mulheres de propriedade e controle da vida social, e, por outro lado, ao mesmo tempo, acumula e concentra imensa riqueza e cultura.

A ampliação da condição de proletariedade do “precariato” ocorre, pari passu, com o incremento da manipulação que nega, no plano da percepção e do entendimento dos indivíduos históricos mundiais, a auto-consciência de classe. A invisibilidade social da natureza de classe do “precariato” é o processo ideológico supremo do capitalismo manipulatório. Na medida em que se ampliam as contradições vivas do capital, impulsiona-se com intensidade, a desefetivação humano-genérica, isto é, a precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Um dos alvos privilegiados da manipulação social são hoje, os jovens proletários mais qualificados que carregam em si e para si, a contradição suprema do capital em sua fase de crise estrutural.

A problemática geracional dos jovens proletários diz respeito não apenas a delimitações etárias, mas ao modo de controle do metabolismo social do novo proletariado hipertardio nas condições do capitalismo manipulatório com seu complexo de obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe e, portanto, à constituição da classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.

Nos países do capitalismo central, a temporalidade histórica dos “trinta anos perversos” (1980-2010) provocou cortes geracionais significativos no plano sociometabolico da “classe” do proletariado. Aceleração da mudança tecnológica na produção e no consumo, reação política neoconservadora e precariedade laboral com implosão dos laços de solidariedade de classe, projetaram as novas gerações de homens e mulheres proletários noutra dimensão sócio-histórica. A nova dinâmica sociometabolica do capital provocou segmentações inter-geracionais caracterizadas por clivagens na experiência vivida e experiência percebida de formações etárias da classe trabalhadora.

Na verdade, o novo modo de controle sociometabolico do capital operou fraturas salientes na experiência do tempo social. Eric Hobsbawn, no livro A era dos extremos, observou o fenômeno da “presentificação crônica”. Diz ele: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.” Por exemplo, as mutações sociometabolicas no seio do jovem proletariado é perceptivel no movimento estudantil dos países capitalistas mais desenvolvidos cuja tradição da contestação social não é reconhecida hoje pelos próprios estudantes. Na verdade, a falta de informação e de diálogo com gerações anteriores é hoje caracteristica comum a movimentos estudantis de todo o mundo.

Os fenômenos sociais da destruição do passado, presentificação crônica e falta de informação e de diálogo com gerações anteriores, isto é, alienação do passado público da época em que vivem – que se torna mais perceptivel com vigor, por exemplo, nas experiências dos movimentos estudantis – constituem expressões candentes do novo modo de controle sociometabolico do capital baseado  na precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Trata-se de um modo de dessubjetivação de classe que opera a obstaculização à formação da consciência de classe e por conseguintes, da própria classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.  

Nos primórdios do século XXI, o novo (e precário) mundo do trabalho é constituído pelo amplo contingente de “jovens adulto-flexíveis”, conceito utilizado por Renan Araújo para denominar o contingente dos novos trabalhadores assalariados que ingressam nos novos locais de trabalho reestruturados na década de 2000. No plano da consciência contingente de classe, os jovens adulto-flexíveis (ou melhor, jovens-adultos toyotizados), empregados ou desempregados, estáveis ou precários, são portadores do que podemos denominar o “paradoxo de Ícaro”: 

Por um lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido na relação de contrato de emprego estável, sente-se insatisfeito com a pressão do ambiente do trabalho flexível e suas contrapartidas salariais; sente-se frustrado com a realização profissional e insegurança laboral marcada pela pressão do capital pelo cumprimento de metas e desempenho (o ideal de ganhar a vida para perde-la repõem-se no patamar do toyotismo). Como observa Renan Araújo, “após anos de dedicação aos estudos e de profissionalização permanente, para a maioria a profecia não se cumpriu. Assim, deparamos-nos com engenheiros apertando parafusos, operários formados em Administração de Empresas operando torno CNC e outros que, mesmo tendo cursado Ciências da Informática, passam o dia clicando em softwares que, previamente programados, esvaziam o conteúdo do trabalho, deixando-o sem sentido, repetitivo e enfadonho. Por todos os ângulos em que se observa, a fábrica aqui pesquisada representa o mundo contraditório da promessa e da negação”. 

Por outro lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido em contratos de trabalhos precários ou desempregados, sente-se insatisfeito pela exclusão do universo do emprego estável e flexível no sentido do que ele representa para as individualidades pessoais de classe: primeiro, capacidade aquisitiva para consumir e tornar-se “cidadão do mundo das mercadorias”. Segundo, carreira profissional com perspectiva de futuridade (ele sente profunda angústia pela desrealização do valor corporificado na força de trabalho como mercadoria e talento singular). Terceiro, capacidade de organização da vida pessoal, constituindo família e tendo seu próprio território de desenvolvimento humano.

Na medida em que a nova geração de empregados e operários mais qualificados, jovens proletários estáveis ou precários nasceram “órfãos” das utopias coletivas do sindicalismo de classe ou da adesão à militância política socialista, tornaram-se mais dispostos a concertação social, com atitudes pró-ativas de cariz liberal. Foram produzidos no horizonte do mercado, pré-dispostos em si e para si, a colaborarem com o capital. Por isso, trata-se de pessoas humanas com um acervo de sonhos, expectativas e utopias de mercado avantajadas, mas irremediavelmente frustradas pela dinâmica férrea da relação-capital que perpetua a precariedade laboral quase como “destino”. A ambiguidade e ambivalência diante dos valores burgueses são marcas pessoais indeléveis destes jovens proletários imersos no paradoxos de Ícaro (o sentimento de ansiedade e frustração traduz no plano pessoal, a imagem mitológica da derrelição de Ícaro).               

Nesse caso, temos a clara percepção da dialética do processo de subsunção do trabalho ao capital que “captura”, não apenas para controlar, mas para expropriar/espoliar o talento singular da nova geração de empregados e operários. Na medida em que o desenvolvimento do processo de acumulação do capital ocorre pari pasu ao processo de desenvolvimento civilizatório como pressuposto negado, ele explicita a operação de espoliação de riqueza intangível dos novos talentos humanos empregados na produção do capital.

Ora, temos, deste modo, ao mesmo tempo, espoliação e desperdício, tendo em vista que a relação-capital não desenvolve (e nem pode desenvolver) de forma integral, as possibilidades criativas da nova força de trabalho complexa. Trata-se de segmento da força de trabalho como trabalho vivo altamente qualificada no plano da competência técnico-científica, cuja frustração decorre da irrealização profissional e desperdício existencial de suas possibilidades humano-genéricas.

Estas novas gerações de proletários vivem à exaustão, a disjunção pessoa-classe que caracteriza o modo de controle sociometabolico do capital. Portanto, eis a problemática do estranhamento que assume hoje dimensões cruciais sob o capitalismo global. Para György Lukács, o fenômeno do estranhamento, ocorre na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho ou da capacidade humana em reduzir as barreiras naturais, não significa o desenvolvimento da personalidade humana, mas pelo contrário, seu aviltamento e dilaceração em virtude da manipulação de alta intensidade e amplitude que caracteriza o capitalismo tardio.

Sob o capitalismo global, os jovens proletários mais qualificados, empregados ou desempregados, estáveis ou precários, tornam-se hoje objetos privilegiados de “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital, sendo expostos de modo candente à manipulação pelo capital no plano das experiências expectantes, isto é, experiências que organizam (ou manipulam) anseios, expectativas e utopias pessoais.  

O traço estrutural do capitalismo global é a manipulação da subjetividade do homem-que-trabalha. Por isso, o capitalismo global, ou seja, o capitalismo histórico na fase de crise estrutural do capital, é essencialmente o capitalismo manipulatório. A exacerbação da dimensão manipulatória do capital decorre da própria natureza da dinâmica de acumulação capitalista.

No século XX, a produção de mais-valia relativa assumiu dimensões alucinadas. Por exemplo, com o fordismo-taylorismo, a produção em massa, que caracterizou o capitalismo monopolista do século passado, significou a necessidade candente do capital de realização da massa de mais-valia acumulada. Tornou-se crucial, mais do que nunca, vender as mercadorias produzidas pela grande indústria. Por isso, impõe-se a centralidade da manipulação, não apenas do trabalhador assalariado na produção, mas do consumidor na esfera do mercado. É necessário manipular à exaustão a subjetividade do trabalhador assalariado como produtor e consumidor.

É claro que, desde as suas origens históricas, o capitalismo industrial buscou realizar, por meio da venda das mercadorias, a mais-valia extraída nas fábricas. Para isso, constituiu-se, como necessidade íntima do capital em processo, o mercado mundial. Mas, na medida em que se desenvolveu a grande indústria, a necessidade de realização da massa de mais-valia relativa extraída na produção do capital, a venda dos produtos-mercadorias no mercado mundial, tornou-se uma estranha obsessão que delineou o sociometabolismo do capital do século XX e XXI.

O mandamento supremo do capital como “sujeito automático” de autovalorização do valor é acumular, acumular e acumular. Com a grande indústria e a produção da mais-valia relativa, para que o capital possa acumular, acumular e acumular cada vez mais, tornou-se, mais do que nunca, imperativo vender, vender e vender. A ânsia da vendabilidade universal elevou-se à enésima potência com a produção em massa e a constituição plena do mercado mundial no sentido da intromissão da forma-mercadoria na vida cotidiana da sociedade burguesa. A vigência da produção da mais-valia relativa colocou como pressuposto da própria realização do valor, o imperativo da venda no centro dinâmico da vida social.

A ampliação do círculo da vendabilidade universal significou no século XX, o domínio crucial do fetichismo da mercadoria no plano das relações humanas e sociais. David Harvey, em seu livro O enigma do capital, recém-publicado pela Boitempo Editorial no Brasil, observou que a obsessão do capital é saber onde aplicar o excedente de capital-dinheiro. É a volúpia do excedente disponível para valorização que caracterizará o metabolismo social do capital no século XX. A obsessão do possuídor da massa de capital-dinheiro imprimirá a sua marca na dinâmica social. Aliás, os fenômenos históricos cruciais do século passado – imperialismo e globalismo, ou ainda, a hipertrofia do sistema de crédito e financeirização – originam-se, em última instância, da volúpia de vendabilidade universal tendo em vista a realização da massa crescente de mais-valia relativa extraída na produção do capital.

O desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho no século XX, com a vigência da lógica produtivista do taylorismo, fordismo e toyotismo, significou a elevação à enésima potência, da ânsia de realização da massa de mais-valia contida na imensa quantidade de mercadorias que compõem a sociedade burguesa, principalmente com o surgimento da produção em massa. A obsessão pelo consumo oculta, não apenas a obsessão pela absorção do excedente, como salientou Harvey, mas a obsessão pela realização do valor nas condições do mercado mundial constrangido.

Portanto, a contradição suprema do capitalismo histórico não é apenas produzir mercadorias, mas sim, realizar o valor contido nelas. That´s the problem! Por isso, as estratégias orgânicas do sistema mundial do capital no século XX buscaram administrar a contradição crucial, inovando na capacidade de prolongar à exaustão, as alucinações da forma-mercadoria, seja em torno da mercadoria propriamente dita, com a aceleração do circuito de valorização (produção, circulação e consumo, afirmando-se o que István Mészáros denominou “lei tendencial de decrescimento da utilização do valor de uso”); seja em torno da “mercadoria das mercadorias” (o Dinheiro), com a hipertrofia do sistema de crédito e a constituição do circuito da valorização fictícia (a financeirização da riqueza capitalista).

Uma das estratégias de administração da crise orgânica da forma-mercadoria, com impacto direto na morfologia social da sociedade burguesa e na subjetividade do homem-que-trabalha, é a manipulação do consumo. A manipulação da produção que caracteriza a grande indústria desdobra-se em produção da manipulação no plano da totalidade social. Eis um traço de alteração da alienação capitalista que caracterizará a “captura” da subjetividade do homem que trabalha pelo capital. Trabalhador assalariado é consumidor, onde o “é” acusa um juízo de devir (Trabalhador assalariado “torna-se”/interverte-se em consumidor). Na verdade, a vigência da manipulação sistêmica põe efetivamente o problema do estranhamento.

Sob o capitalismo, o problema da alienação é reposto, de forma ampla e candente, noutro patamar existencial, através do problema do estranhamento. Um mundo pleno de mercadorias é, segundo György Lukács, um mundo pleno de manipulação, que penetra não apenas os poros da produção, mas também do consumo e da reprodução social.

Se, por um lado, com a elevação do padrão de vida e consumo da classe trabalhadora no século XX, a percepção da exploração capitalista e o problema da alienação no sentido originário tendem a se esmaecer, por outro lado, põem-se, de modo incisivo, segundo Lukács, o problema do estranhamento propriamente dito, que, para ele, é o problema da vida plena de sentido (o psicanalista austriaco Viktor Frankl salienta que o problema crucial do nosso tempo é o problema da busca de sentido da vida).

Lukács observou, em 1968, que a mudança estrutural no caráter da alienação coloca, de forma candente, no auge do capitalismo afluente (o capitalismo fordista-keynesiano),  novas exigências no plano da luta de classes. Ou ainda, novas exigências no plano da consciência contingente de classe, expressa pela nova geração de empregados e operários mais qualificados (por exemplo, os “jovens adulto-flexíveis” ou toyotizados) que cresceram no interior do mundo de mercadorias e que possuem outras exigências, no plano do carecimento, comparados, por exemplo, com a geração anterior de operários e empregados. Diz Lukács:

“A luta de clas­ses no tempo da mais-valia absoluta estava voltada para a criação das condições objetivas indispensáveis a uma vida deste gênero. Hoje, com uma semana de cinco dias e um salário adequado, podem já existir as condições indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Mas surge um novo problema:aquela manipulação que vai da compra do cigarro às eleições presidenciais ergue uma barreira no interior dos indivíduos entre a sua existência e uma vida rica de sentido. Com efeito, a manipulação do consumo não consiste, como se pretende oficialmente, no fato de querer informar exaustivamente os consumidores sobre qual é o melhor frigorífico ou a melhor lâmina de barbear; o que está em jogo é a questão do controle da consciência. Dou apenas um exemplo, o ‘tipo’ Gauloises: apresenta-se um homem de aspecto ativo e másculo, que se distingue porque fuma os cigarros Gauloises. Ou ainda, vejo numa foto de publicidade, não sei se de um sabonete ou de um creme de barbear, um jovem assediado por duas belas garotas, por causa da atração erótica que determinado perfume exerce sobre elas”.

Vimos que Lukács, adotando uma perspectiva histórico-ontológica, faz a conexão íntima entre mais-valia relativa e manipulação, no sentido de que a exploração pela mais-valia relativa propiciou, a um contingente organizado da classe trabalhadora, semana de cinco dias e salário adequado, isto é, condições objetivas indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Segundo Lukács, objetivamente o proletariado possui hoje, pelo menos o proletariado estável, condições materiais para uma vida plena de sentido que entretanto, não se realiza, por conta da manipulação social que impregna a vida burguesa. O capitalismo da grande indústria de produção em massa tende, nas palavras dele, a erguer no interior desses individuos, “uma barreira entre a sua existência e uma vida rica de sentido”. Diz ele que a fruição da vida é reduzida ao gozo do consumo alienado. A ânsia fugaz pelo consumo de mercadoria é incapaz de dar um sentido à vida. Eis o sentido do estranhamento na ótica lukacsiana: o descompasso entre a existência dos indivíduos e uma vida plena de sentido

Portanto, para Lukács, o problema do estranhamento diz respeito em grande medida, à questão do controle da consciência, alvo-chave da manipulação do consumo visando a venda das mercadorias e a realização da mais-valia. A manipulação se ergue no interior dos indivíduos, cuja ânsia pelo consumo é instilada pelos aparatos de marketing e propaganda, como uma finalidade em si mesma. Diz ele:

“Por causa desta manipulação, o operário, o homem-que-trabalha, é afastado do problema de como poderia transformar seu tempo livre em otium, porque o consumo lhe é instilado sob a forma de uma superabundância de vida comfinalidade em si mesma, assim como na jornada de trabalho de doze horas a vida era ditatorialmente dominada pelo trabalho”.

A perspectiva de Lukács prende-se à produção capitalista fordista-taylorista quando o controle da consciência de classe, inclusive na construção do consentimento à produção rígida da linha de montagem acoplada a esteira mecânica, tinha no consumo, pelo menos para a classe operária organizada, seu lastro de legitimidade. O compromisso fordista-keynesiano, que caracterizou, nos países capitalistas centrais, os “trinta anos dourados” do capitalismo histórico do século XX (1945-1975), eram baseado na capacidade do capital em promover a “cidadania do consumo” em torno do ideal do emprego. A própria formação das individualidades pessoais de classe ocorriam com a elaboração de expectativas, anseios e utopias da carreira profissional e inserção laboral capazes de permitir a obtenção de capacidade aquisitiva, não apenas para satisfazer as necessidades básicas, mas os carecimentos sociais do admirável mundo novo das mercadorias.

Sob o capitalismo fordista-keynesiano nas condições da sociedade industrial afluente do pós-guerra, a fruição da vida era reduzida ao gozo do consumo de mercadorias. Nesse caso, a auto-consciência da alienação não se manifestava efetivamente, tendo em vista a vigência da “consciência tranquila” do operário ou empregado, que fruia a sua vida pessoal como individualidade de classe por meio do consumo estranhado. Na verdade, o trabalhador assalariado não se sentia insatisfeito no consumo, mas sim, na produção, tendo em vista a vigência do fordismo-taylorismo com a linha de montagem acoplada a esteira mecânica (a crise da organização do trabalho taylorista-fordista).

Com o capitalismo global de cariz neoliberal e a crise estrutural do capital, ocorreu a implosão do compromisso fordista-keynesiano baseado no crescimento com indexação de salários a produtividade. Nos “trinta anos perversos” (1980-2010), a crise do Estado de Bem-estar social, a crise do emprego e a ampliação da precariedade salarial ameaçou e frustrou as expectativas de consumo dos trabalhadores assalariados, principalmente das camadas médias asssalariadas que construíram suas expêriencias expectantes na perspectiva da fruição do consumo estranhado (eis uma dimensão da crise da “classe média”). Deste modo, percebe-se de modo claro, a corrosão do lastro de compatibilidade entre capitalismo e bem-estar social no núcleo orgânico do sistema mundial do capital. Ao mesmo tempo, intensificou-se e ampliou-se, de modo exacerbado, a manipulação da vida social, tanto no consumo, quanto na produção de mercadorias com a vigência do espírito do toyotismo.

Portanto, a crise do capital, que se instaurou em meados da década de 1970, opera descontinuidades/continuidades na dinâmica da manipulação sistêmica, repondo o círculo da alienação/estranhamento do homem-que-trabalha. A “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital assume novas dimensões no sentido da constituição/explicitação de novos fenômenos da alienação/estranhamento. O “paradoxo de Ícaro” que atormenta os “jovens adultos-flexiveis” do mundo social do capital pode ser expresso do seguinte modo:

Por um lado, para os jovens trabalhadores assalariados do novo mundo do trabalho inseridos em contratos de emprego estável, a auto-consciência da alienação e insatisfação que caracterizava a organização fordista-taylorista do processo de trabalho, interverteu-se, com a organização toyotista, em estranhamento no sentido da fruição perversa e opaca que a condição de empregado estável na empresa flexível imputa aos homens e mulheres que trabalham submetidos ao cumprimento de metas desumanas e pressões contínuas por mais produtividade. Nesse caso, a carga de ansiedade e depressão deriva da realização profissional estranhada que dilacera seu ser humano-genérico.

Por outro lado, para jovens trabalhadores assalariados precários e desempregados, o dito “precariato”, “órfãos” da cidadania salarial, o sentimento de insatisfação e a auto-consciência da alienação se tornou crucial (alienação como perda/frustração). Nesse caso, existe uma sutil distinção categorial entre alienação e estranhamento. No plano da consciência contingente, o dito “precariato” sente-se alienado da “cidadania do consumo” e portanto, alienados de si mesmos como consumidores ou individualidades de classe constituídos no interior do mundo das mercadorias (nesse sentido, a alienação no sentido categorial tem uma intensa carga de insatisfação e deriva pessoal). Nesse caso, a carga de ansiedade, depressão e frustração compõem um quadro de desrealização íntima em si e para si que deriva da sua precariedade salarial no mundo das mercadorias.

Portanto, jovens-adultos assalariados, empregados e desempregados, estáveis e precários, representam dimensões paradoxais da classe-que-vive-do-trabalho com seus respectivos pressupostos sociometabólicos: por um lado, uma parte da classe que tem condições objetivas para uma vida plena de sentido, não consegue tê-la, tendo em vista o trabalho estranhado (a fruição perversa não está apenas no consumo, mas também no trabalho flexível). Mas na medida em que se constitui o círculo do estranhamento (consumo e trabalho estranhado), implode-se a “consciência tranquila” observada por Herbert Marcuse na época do capitalismo afluente. Na verdade, a exacerbação do estranhamento que assistimos no capitalismo toyotista constitui uma “consciência intranquila”, opaca e intransparente da sua condição de proletariedade. 

Por outro lado, outra parte da classe, constituída pelos trabalhadores assalariados precários (precários no sentido de alienada da “cidadania salarial”), sentem-se afligidos por não terem condições objetivas para uma vida plena de sentido. Eles representam a nova pobreza do capitalismo global de cariz neoliberal. No plano contingente, anseiam (e lutam) pela “cidadania salarial” nos marcos da ordem da mercadoria. Entretanto, as condições de luta e organização sindical, no plano do em-si da classe, são adversas para eles.

A “consciência intranquila” dos precários “indignados” do século XXI se distingue radicalmente da “consciência intranquila” dos proletários da Primeira Revolução Industrial que enfrentaram a experiência do factory systeminseridos ainda em modos de sociabilidades tradicionais e valores de cunho comunitário (como observou E.P. Thompson). Ora, os proletários precários pós-modernos nasceram e cresceram no interior da ordem social da mercadoria. Eles próprios sentem-se, no plano da consciência contingente, como mercadorias vivas. É o que explica, por exemplo, a incapacidade dos precários indignados traduzirem o sentimento de indignação numa perspectiva crítica para além da ordem burguesa. Na verdade, a indignação do “precariato” é a indignação reativa que decorre da frustração das expectativas, anseios e utopias de mercado (diferentemente, por exemplo, dos sonhos, expectativas e utopias das primeiras gerações de operários que possuíam sentido comunitário exterior à ordem industrial originária. De certo modo, eles ansiavam tornarem-se “produtores autonomos”, voltar a terra etc).

Na medida em que o capitalismo global não consegue repor a perspectiva de emprego digno para todos, os jovens “precários” alienados do sonho do emprego estável tendem a serem manipulados com o ideal da empregabilidade no sentido de construírem a identidade do “trabalho autônomo” ou “trabalho por conta própria de segunda geração” (como diria Sergio Bologna). Deste modo, a intranquilidade da descartabilidade se interverte na intranquilidade da fluidez, eufemismo para inseguraça, expondo, com vigor, a sua condição de proletariedade.  

***

O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura.

***

Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

QUANTO VALE OU É POR QUILO?

A REALIDADE SOBRE A TAL SOLIDARIEDADE DE “FACHADA”

Quanto Vale ou É Por Quilo? Desenha um painel de duas épocas aparentemente distintas, mas, no fundo, semelhantes na manutenção de uma perversa dinâmica socioeconômica, embalada pela corrupção impune, pela violência e pelas enormes diferenças sociais. No século XVIII, época da escravidão explícita, os capitães do mato caçavam negros para vendê-los aos senhores de terra com um único objetivo: o lucro. Nos dias atuais, o chamado Terceiro Setor explora a miséria, preenchendo a ausência do Estado em atividades assistenciais, que na verdade também são fontes de muito lucro. Uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. Quanto Vale ou É Por Quilo? mostra que o tempo passa e nada muda. O Brasil é um país em permanente crise de valores. 

(por Maria Teresa Perret Schulte, Facebook)

*** *** *** ***

Uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. No século XVII um capitão-do-mato captura um escrava fugitiva, que está grávida. Após entregá-la ao seu dono e receber sua recompensa, a escrava aborta o filho que espera. Nos dias atuais uma ONG implanta o projeto Informática na Periferia em uma comunidade carente. Arminda, que trabalha no projeto, descobre que os computadores comprados foram superfaturados e, por causa disto, precisa agora ser eliminada. Candinho, um jovem desempregado cuja esposa está grávida, torna-se matador de aluguel para conseguir dinheiro para sobreviver.

Fonte: http://www.adorocinemabrasileiro.com.br

ATENAS ARDE EM PROTESTOS CONTRA POLÍTICA DA “TROIKA”

 A Grécia viveu neste domingo os mais violentos protestos dos últimos meses contra as políticas impostas ao país pela chamada “troika” (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia). Em meio a violentos protestos, o parlamento grego aprovou um novo “pacote de austeridade”, que resultará em milhares de demissões e cortes de gastos públicos. No início da noite, vários prédios históricos de Atenas estavam em chamas e os manifestantes enfrentavam a polícia com pedras e coqueteis molotov.

Dezenas de milhares de pessoas compareceram à maior manifestação em Atenas contra a austeridade e os cortes de gastos públicos aprovados neste domingo no parlamento grego. A multidão dispersou da Praça Syntagma quando a polícia a atacou com gás lacrimogêneo, mas muitos grupos permaneceram no centro de Atenas enfrentando a polícia com pedras e coqueteis molotov. 

Manolis Glezos, o herói da resistência grega ao nazismo e membro do Syriza, perguntava à imprensa “como é possível implementar estas medidas com gás lacrimogéneo?”. “Elas não têm o voto do povo grego”, acrescentou este militante de 90 anos, ainda com a máscara de gás colocada e dificuldade em respirar.

Outro veterano nesta manifestação contra o governo da troika foi o compositor Mikis Theodorakis. Foi quando se preparava para dirigir à multidão na Praça Syntagma que a polícia começou a disparar o gás lacrimogêneo. Aos microfones duma rádio grega, uma porta-voz de Theodorakis acusou a polícia de “tentativa de assassinato” por ter tentado deliberadamente atingir o compositor de 86 anos. Em declarações aos jornalistas, Theodorakis afirmou-se confiante que “o povo vencerá”, tal como aconteceu contra os nazis e a junta militar.

Todo o centro de Atenas ficou sob a nuvem do gás policial e os focos de incêndio estão também disseminados, com os confrontos sem fim à vista. Ao fim da tarde, estavam encerradas quatro estações de metrô no centro de Atenas por ordem da polícia. O líder sindical do metrô disse que os trabalhadores não viam razões para o encerramento e que a intenção da polícia era impedir as pessoas de chegarem à Praça. Entretanto, a outra manifestação da tarde, convocada pela central sindical PAME, dirigia-se para a Praça Syntagma.

Dentro do Parlamento, o debate teve início depois das 15h, com o ministro das Finanças tentando explicar aos deputados a pressa para aprovar a proposta até à meia noite de domingo. Um deputado independente questionou o parlamento sobre se tinha a certeza do que estava para ser votado, quando há várias falhas no documento, incluindo partes em que aparece “XX” em vez do número da quantia a que se refere.

O dia parlamentar também foi marcado pela tomada de posse de alguns deputados, em substituição daqueles que se demitiram em protesto contra o pacote de austeridade que vai reduzir o salário mínimo, despedir milhares de funcionários públicos e cortar ainda mais na Saúde e gastos sociais. Mas há casos em que o substituto, em vez de vir apoiar o governo cada vez mais frágil, toma posse para votar contra o seu partido. É o que acontece à atriz Anna Vagena, da lista do PASOK.

No sábado, era já conhecida a oposição de mais de dez deputados do PASOK, que se tem afundado nas sondagens nos últimos meses, e mesmo da Nova Democracia, incluindo o líder parlamentar e os deputados responsáveis pelos assuntos da Defesa e do Interior. A extrema-direita do LAOS, que retirou o apoio ao Governo de Lucas Papademos, também votará contra, à exceção dos seus antigos ministros.

Publicado originalmente em Carta Maior (Dom. 12.02.2012)

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19605

TEMPOS MODERNOS (1936). Charlie Chaplin

Fonte: do You Tube

Modern Times, 1936 – Nesse filme não há meio termo, Chaplin realmente quis passar uma mensagem social. Cada cena é trabalhada para que a mensagem chegue verdadeiramente tal qual seja. E nada parece escapar: máquina tomando o lugar dos homens, as facilidades que levam a criminalidade, a escravização. O amor também surge, mas surge quase paternal: o de um vagabundo por uma menina de rua.

Um trabalhador de uma fábrica (Chaplin) tem um colapso nervoso por trabalhar de forma quase escrava. É levado para um hospital, e quando retorna para a “vida normal”, para o barulho da cidade, encontra a fábrica já fechada. Vai em busca de outro destino, mas acaba se envolvendo numa confusão: ao ver uma jovem (Paulette) roubar um pão para comer, decide se entregar em seu lugar. Não dá certo, pois uma grã-fina tinha visto o que houve e entrega tudo. A prisão para ele parece ser o melhor local para se viver: tranqüilo, seguro e entre amigos. Mesmo assim, os dois acabam escapando e vão tentar a vida de outra maneira. A amizade que surge entre os dois é bela, porém não os alimenta. Ele tem que arrumar um emprego rapidamente.

Consegue um emprego numa outra fábrica, mas logo os operários entram em greve e ele mete-se novamente em perigo. No meio da confusão, encontra uma bandeira vermelha, que julga ter caído de um caminhão e chama pelo dono, enquanto acena com ela. Um grupo de militantes surge atrás dele, e “junta-se” ao vagabundo. A polícia chega e o toma como líder. Vai preso ao jogar sem querer uma pedra na cabeça de um policial.

Paulette consegue trabalho como dançarina num Music Hall e emprega seu amigo como garçom. Também não dá certo, e os dois seguem, numa estrada, rumo a mais aventuras.

A HISTÓRIA DAS COISAS. The Story of Stuff. Com Annie Leonard

Da extração e produção até a venda, consumo e descarte, todos os produtos em nossa vida afetam comunidades em diversos países, a maior parte delas longe de nossos olhos.

História das Coisas é um documentário de 20 minutos, direto, passo a passo, baseado nos subterrâneos de nossos padrões de consumo.

História das Coisas revela as conexões entre diversos problemas ambientais e sociais e é um alerta pela urgência em criarmos um mundo mais sustentável e justo.

História das Coisas nos ensina muita coisa, nos faz rir, e pode mudar para sempre a forma como vemos os produtos que consumimos em nossas vidas.

HISTÓRIA SECRETA DA OBSOLESCÊNCIA PLANEADA. Movimento Zeitgeist. The Zeitgeist Movement

THE ZEITGEIST MOVEMENT

http://www.zeitgeistportugal.org/

O Movimento Zeitgeist não é um movimento político, nem tão-pouco reconhece nações, governos, raças, religiões, credos ou classes. Estas distinções são incoerentes e obsoletas, estando longe de serem factores positivos para o verdadeiro desenvolvimento e potencial humano. As suas bases assentam na divisão de poder e na estratificação, não na igualdade e união, que são os nossos objectivos. Se é importante perceber que tudo na vida é o resultado de um progresso natural, devemos também reconhecer que a espécie humana tem a capacidade de reduzir drasticamente ou paralisar este progresso, através de estruturas sociais obsoletas, dogmáticas e, consequentemente, desalinhadas da própria natureza. O mundo a que assistimos hoje, repleto de guerra, corrupção, elitismo, poluição, pobreza, doenças epidémicas, abusos dos direitos humanos, desigualdade e crime é o resultado dessa mesma paralisia social.

O Movimento prossegue a consciência, advogando desta maneira uma evolução fluida e progressiva, tanto a nível pessoal, como social, tecnológico e espiritual. Ele reconhece que a espécie humana caminha naturalmente para a unificação, com base num entendimento comum e empírico de como a natureza funciona e, de como nós, humanos, fazemos parte integrante deste processo a que chamamos “vida”. Embora este caminho exista, ele encontra-se infelizmente obstruído e ignorado pela maioria populacional humana, que continua a perpetuar modos de conduta e instituições antiquadas e degenerativas. É esta irrelevância intelectual que o Movimento Zeitgeist espera ultrapassar graças à educação e à acção social.

O objectivo é rever a sociedade de hoje de acordo com os conhecimentos actuais, não só fomentando a consciência quanto às possibilidades tecnológicas e sociais existentes, para as quais muitos foram condicionados a pensar serem “impossíveis” ou contra a “natureza humana”, mas também providenciar um caminho para ultrapassar estes elementos perpetuados por um sistema de sociedade obsoleto.

O Movimento não é uma construção centralizada.

Não existimos para liderar, mas para organizar e educar.

O Que Advogamos

Resumidamente descrevendo o Movimento em 10 pontos, o mesmo:

1)  Reconhece que a nossa conduta actual no planeta é simplesmente insustentável e advoga a transição para um novo sistema apelidado de Economia Baseada em Recursos;
2) Reconhece que, através do uso humano da tecnologia, temos a possibilidade de providenciar muito mais recursos em abundância para todas as pessoas do planeta, criando assim um sistema de acesso em vez de um sistema de propriedade e dinheiro;
3) Reconhece que o nosso modelo actual de emprego encontra-se obsoleto e desalinhado com a realidade tecnológica de hoje, estando assim impotente face ao problema do desemprego tecnológico. Advogamos o uso de automatização na produção de bens e serviços, removendo onde for possível a necessidade de mão de obra humana, maximizando a eficiência e eliminando assim trabalhos monótonos e repetitivos, para permitir que o ser humano persiga aquilo que mais desejar;
4) Reconhece que a sociedade deverá possuir uma relação simbiótica com a natureza de maneira a se tornar sustentável e, deverá atingir e manter um equilíbrio ecológico vivendo em harmonia com o planeta e não contra ele;
5) Advoga uma mudança completa na forma como operamos este planeta, pois é um factor crucial se desejamos evitar o colapso social numa escala global;
6) O Movimento deseja remover e transcender as condições necessárias para a existência de governos e leis, focando-se em tratar as raízes dos nossos problemas sociais e ajustando o ambiente de maneira a que tais comportamentos aberrantes e necessidades não se materializem;
7) O Movimento advoga a utilização do método científico para questões sociais e ambientais, chegando às decisões baseando-se em dados estatísticos e lógica direccionada para a maximização de eficiência em operações técnicas, em vez de opiniões baseadas em interesse próprio ou nacional por parte de políticos ou empresários;
8) O Movimento é primariamente um movimento social, defendendo um sistema que encoraja a colaboração em vez de competição e, que tenha como base a união e igualdade.
9)  O Movimento não é uma instituição ou organização política e, como está estruturado em volta de projectos e objectivos, opera sem líderes ou hierarquia.
10)  O objectivo do Movimento é iniciar uma transição para uma Economia Baseada em Recursos, através da difusão de conteúdo, criando assim consciência social em massa sobre o conceito.

THE CORPORATION. Documentário

Ficha Técnica

título original: The Corporation

gênero: Documentário

duração: 2 hr 25 min

ano de lançamento: 2004

site oficial: http://www.thecorporation.com/

estúdio: Big Pictures Media Corporation

distribuidora: Zeitgeist Films / Imagem Filmes

direção: Jennifer Abbott, Mark Achbar

roteiro: Joel Bakan e Harold Crooks

produção: Mark Achbar e Bart Simpson

música: Leonard J. Paul

fotografia: Mark Achbar, Rolf Cutts, Jeff Koffman e Kirk Tougas

direção de arte: Henry Faber

edição: Jennifer Abbott

Elenco 

  • Mikela J. Mikael (Narrador – voz)
  • Jane Akre
  • Ray Anderson
  • Maude Barlow
  • Chris Barrett
  • Noam Chomsky
  • Peter Drucker
  • Samuel Epstein
  • Milton Freidman
  • Naomi Klein
  • Susan E. Linn
  • Luke McCabe
  • Robert Monks
  • Michael Moore
  • Vandana Shiva
  • Steve Wilson
The Corporation
A ambição que destrói o mundo
João Luís de Almeida Machado, Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro “Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema” (Editora Intersubjetiva).

Imagem-de-uma-mulher-e-dois-homens-engravatados-olham-para-maquete

Descobri por esse fabuloso documentário chamado “The Corporation” que somos todos responsáveis pelo que se chama “Tirania Intergeracional”. De acordo com esse conceito determinamos de forma despótica os rumos da vida nesse planeta ao gerenciarmos de forma irresponsável e inconseqüente os recursos que por aqui existem. Estamos legando para as próximas gerações de habitantes da Terra um mundo destruído, falido e, para finalizar, doente ou até mesmo morto…

 

Condenamos pessoas que ainda nem nasceram a viver num estado praticamente irreversível de penúria. Definimos a extinção de espécies vegetais e animais sem nem ao menos nos darmos conta de que estamos fazendo isso. Poluímos a água, o ar e o solo tornando estéreis cada um desses recursos de inestimável valor. Exploramos a mão-de-obra alheia, distante ou próxima de nós mesmos, sem nos dar conta dos grandiosos prejuízos que causamos a crianças, idosos, homens e mulheres que trabalham por salários miseráveis…

 

E como nos tornamos responsáveis por todas essas atrocidades se nem ao menos percebemos a extensão de nossos atos e a repercussão dos mesmos? Na esmagadora maioria dos casos, não nos damos conta dos acontecimentos ao nosso redor a não ser que de alguma forma isso nos afete diretamente. Estamos alienados, somos insensíveis e ficamos tão presos ao cotidiano de nossas vidas que perdemos a capacidade de enxergar além de nossos próprios umbigos.

 

Quando compramos uma camisa, um par de tênis ou um automóvel, atos aparentemente banais para a vida de milhares e milhares de pessoas mundo afora não percebemos que podemos estar financiando a continuidade da exploração da mão de obra de pessoas que nada mais têm a oferecer para garantir sua sobrevivência senão sua mão-de-obra barata. E é justamente em busca de oportunidades de maximizar seus lucros e ganhar cada vez mais e mais dinheiro que grandes corporações multinacionais se estabelecem em países em desenvolvimento.

Imagem-de-muita-fumaca-ofuscando-a-beleza-do-verde

Ao sermos mobilizados pela mídia e pela propaganda para consumir desenfreadamente até mesmo produtos que não queremos, precisamos ou desejamos, estamos fazendo com que os recursos naturais se esgotem rapidamente sem que isso seja necessário. Estimulamos um desnecessário aumento da produção industrial e, como conseqüência disso, a emissão de poluentes na atmosfera cresce até atingir índices que tornam difícil ou até mesmo impossível a vida das pessoas.

 

Somos levados a agir dentro de um sistema em que a nossa vida é totalmente definida a partir de diretrizes que são criadas por empresas, respaldadas por governos. Perdemos a autonomia sem que isso fosse perceptível aos nossos olhos. É como se, de repente, tivéssemos realmente ingressado num mundo imaginário controlado por forças exteriores aos nossos próprios desígnios e comandos. Vivemos aquilo que vimos, admiramos e reverenciamos nas telas do cinema a partir de obras como “Matrix”, dos irmãos Wachowsky.

 

O pesadelo de obras literárias geniais como “Admirável Mundo Novo” (de Aldous Huxley) ou “1984” (de George Orwell) está se configurando na realidade de nossos dias a partir da ação praticamente invisível aos nossos olhos de gigantescas empresas de diferentes nacionalidades e setores de atuação.

 

Somos levados cada vez mais a agir de forma passiva, aceitando a tudo que nos é imposto ou pedido sem que nos manifestemos ou que percebamos as conseqüências das ações que ajudamos a desencadear. Temos que ser perfeitos cidadãos e profissionais caracterizados em nossas práticas pela excelência de nossos préstimos. Não podemos constituir vozes dissonantes, verdadeiramente críticas, que atentem contra a ordem e a anomalia que se esconde por trás do cotidiano e da normalidade de todos os dias.

 

Nos tornamos personagens de um filme que já foi produzido e que nos motivou a rir muito de seu personagem central, tão parecido com cada um de nós em sua candura, ingenuidade e ignorância. Somos todos irmãos de sangue de Truman Burbank (Jim Carrey) no fantástico “O Show de Truman”, do diretor Peter Weir. Até quando seremos assim? Será que conseguiremos enxergar pelas poucas frestas que nos permitem arejar nossos pensamentos e entender um pouquinho melhor o funcionamento do mundo em que vivemos?

 

“The Corporation”, dirigido por Jennifer Abbott e Mark Achbar, pretende ser justamente uma dessas falhas no sistema que nos permitem aspirar a liberdade e a salvação. Documentário construído a partir de um belíssimo trabalho de edição que alterna imagens jornalísticas, depoimentos, trechos de filmes antigos, animações, peças publicitárias e imagens estáticas, “The Corporation” nos coloca em contato com o inimaginável mundo em que nada somos além de “apertadores de botões” que tocam uma poderosa e escravizante máquina ávida por capital rumo a um amanhã que nem sabemos se existirá…

O Filme

Imagem-de-segurancas-armados

Corporações são como tubarões. Têm objetivos bem definidos, são frias e não param enquanto não atingirem suas metas. O problema é que sua fome é incessante e, portanto, promovem mortes e desgraças sem que tenhamos qualquer idéia quanto a se isso irá parar algum dia…

 

Não se iluda, a definição dada acima é uma metáfora criada por uma das pessoas que enriquecem cada minuto do documentário “The Corporation” ao socializarem experiências, ações, práticas e acontecimentos que foram por elas vivenciados ou estudados para que entendessem melhor o mundo atual, dominado pelas empresas de grande porte.

 

Chegou-se a conclusão de que não percebemos mais a interferência frequente e diária dessas empresas em nossas vidas. Não apenas a partir dos produtos e serviços que elas nos oferecem, mas também a partir das “externalidades” que também são por elas legadas ao grande público. Entenda-se que esse conceito refere-se ao custo de suas operações que nos é transferido através da destruição do meio-ambiente, das guerras promovidas para suster seus rendimentos ou ainda pela fome e miséria causada entre os pobres trabalhadores do mundo não desenvolvido.

 

Corporações são consideradas como pessoas perante a lei. Podem comprar, vender, alugar, acionar judicialmente, sofrer perdas, capitalizar ganhos, incorporar patrimônio e tantas outras ações que as pessoas físicas realizam durante suas existências nesse planeta. Diferentemente de mim ou de você, não têm corpo físico definido e, tampouco, alma…

Imagem-de-mulher-com-os-labios-tampados-com-codigos-de-barras

Sua principal razão de ser é a obtenção de lucro, mesmo que isso se oponha ao bem estar comum de toda a coletividade humana. Legalmente há subsídios que sustentam esse princípio e que, caso contestados judicialmente, há de legar ao proponente do recurso um enorme rombo em seu orçamento já que se trata de uma causa perdida…

 

Isso significa que temos que rever a forma como estamos vivendo em nossos países. Não podemos ser escravos silenciosos de um sistema opressor que nos afaga com bens materiais e que compra a nossa cooperação com mais e mais dinheiro sempre que nos mostramos descontentes e ameaçamos iniciar uma rebelião contra modo de produção dominante.

 

A certa altura do documentário um alto executivo de uma multinacional se diz, em alto e bom tom, impotente para mudar qualquer ação da empresa onde trabalha, mesmo considerando que muitas das práticas contrariam seus princípios e filosofia de vida. Outro depoimento, de um destacado consultor do mercado financeiro, atesta que graves crises, como o ataque terrorista ao World Trade Center, ou guerras, como aquelas que são travadas no Oriente Médio, são um ótimo negócio para os investidores que apostam suas fichas diariamente em ouro, petróleo, indústria bélica, água, alimentos,…

 

Quando chegamos a um ponto onde não há mais espaço para a sensibilidade ou para a solidariedade, estamos literalmente no fundo do poço e pouco conseguimos ver da luz que ilumina a entrada desse buraco onde fomos parar. “The Corporation” provoca a nossa reação de forma inteligente e hábil, mobiliza nossos sentidos e tenta nos tirar dessa grande letargia que nos encaminha para a morte coletiva do ser e do planeta.

 

Premiado em festivais, tem a participação de personalidades que estão dentro e fora das empresas e que realmente botam lenha na fogueira. Noam Chomsky, Michael Moore, Naomi klein, Peter Drucker, Milton Friedman e tantos outros enriquecem o debate e falam sobre situações que poucos conhecem ou desconfiam que tenham ou estejam acontecendo. É nitroglicerina pura. Pena que tenha distribuição tão restrita. No futuro talvez venha a ser até mesmo censurado como atentado terrorista…

Para Refletir

Imagem-de-homem-carregando-globo-terrestre-pela-rua

1- Você já parou para pensar o quanto temos que destruir o planeta para obter um dólar de lucro na venda de um produto ou serviço? Já imaginou que a Terra é como uma mina na qual bilhões de pessoas se engalfinham diariamente em busca de seu quinhão de riquezas a esburacar suas já sofridas entranhas? Não, não sou um radical membro de uma dessas conhecidas organizações que querem proteger o meio-ambiente e a pergunta inicial dessa reflexão foi cunhada por um alto executivo de uma grande, rica e poderosa multinacional em depoimento ao documentário “The Corporation”. Nesse sentido ela poderia nortear nossa reflexão e nos mobilizar em busca do custo real por trás de iniciativas humanas de desenfreada perseguição ao lucro. Afinal, para ganhar um dólar quanto tivemos que gastar ou destruir?

2- O que é desenvolvimento sustentável? Que tal perseguir a definição desse conceito com seus estudantes a partir de depoimentos, livros, revistas, jornais ou Internet? Mais do que simplesmente um conceito estamos falando de uma prática que pode nos ajudar a salvar o mundo e também a humanidade…

3- As “maçãs podres” mencionadas no início do filme são grandes corporações norte-americanas envolvidas em escândalos que abalaram o mercado financeiro. Há também denúncias relativas a exploração do trabalho em países pouco desenvolvidos, venda de produtos que causam malefícios aos animais e aos humanos, destruição do meio ambiente,… Assistam o filme e enumerem os casos apresentados relacionando-os aos enormes prejuízos causados. Informem-se pela imprensa a respeito de histórias semelhantes que aconteceram no Brasil e em outras partes do mundo apenas nos últimos meses ou semanas…

4- O que podemos fazer? Que tal buscar a palavra de especialistas, estudiosos, membros dos governos e países, da ONU, das ONGs e também da população? As pessoas sabem o que está acontecendo? O que elas pensam a respeito de tantas e tantas denúncias? Precisamos de respostas, o nosso tempo pode estar acabando sem que tenhamos condições de fazer nada…

Publicado originalmente no site Planeta e Educação:

http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=618