THE CORPORATION. Documentário

Ficha Técnica

título original: The Corporation

gênero: Documentário

duração: 2 hr 25 min

ano de lançamento: 2004

site oficial: http://www.thecorporation.com/

estúdio: Big Pictures Media Corporation

distribuidora: Zeitgeist Films / Imagem Filmes

direção: Jennifer Abbott, Mark Achbar

roteiro: Joel Bakan e Harold Crooks

produção: Mark Achbar e Bart Simpson

música: Leonard J. Paul

fotografia: Mark Achbar, Rolf Cutts, Jeff Koffman e Kirk Tougas

direção de arte: Henry Faber

edição: Jennifer Abbott

Elenco 

  • Mikela J. Mikael (Narrador – voz)
  • Jane Akre
  • Ray Anderson
  • Maude Barlow
  • Chris Barrett
  • Noam Chomsky
  • Peter Drucker
  • Samuel Epstein
  • Milton Freidman
  • Naomi Klein
  • Susan E. Linn
  • Luke McCabe
  • Robert Monks
  • Michael Moore
  • Vandana Shiva
  • Steve Wilson
The Corporation
A ambição que destrói o mundo
João Luís de Almeida Machado, Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro “Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema” (Editora Intersubjetiva).

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Descobri por esse fabuloso documentário chamado “The Corporation” que somos todos responsáveis pelo que se chama “Tirania Intergeracional”. De acordo com esse conceito determinamos de forma despótica os rumos da vida nesse planeta ao gerenciarmos de forma irresponsável e inconseqüente os recursos que por aqui existem. Estamos legando para as próximas gerações de habitantes da Terra um mundo destruído, falido e, para finalizar, doente ou até mesmo morto…

 

Condenamos pessoas que ainda nem nasceram a viver num estado praticamente irreversível de penúria. Definimos a extinção de espécies vegetais e animais sem nem ao menos nos darmos conta de que estamos fazendo isso. Poluímos a água, o ar e o solo tornando estéreis cada um desses recursos de inestimável valor. Exploramos a mão-de-obra alheia, distante ou próxima de nós mesmos, sem nos dar conta dos grandiosos prejuízos que causamos a crianças, idosos, homens e mulheres que trabalham por salários miseráveis…

 

E como nos tornamos responsáveis por todas essas atrocidades se nem ao menos percebemos a extensão de nossos atos e a repercussão dos mesmos? Na esmagadora maioria dos casos, não nos damos conta dos acontecimentos ao nosso redor a não ser que de alguma forma isso nos afete diretamente. Estamos alienados, somos insensíveis e ficamos tão presos ao cotidiano de nossas vidas que perdemos a capacidade de enxergar além de nossos próprios umbigos.

 

Quando compramos uma camisa, um par de tênis ou um automóvel, atos aparentemente banais para a vida de milhares e milhares de pessoas mundo afora não percebemos que podemos estar financiando a continuidade da exploração da mão de obra de pessoas que nada mais têm a oferecer para garantir sua sobrevivência senão sua mão-de-obra barata. E é justamente em busca de oportunidades de maximizar seus lucros e ganhar cada vez mais e mais dinheiro que grandes corporações multinacionais se estabelecem em países em desenvolvimento.

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Ao sermos mobilizados pela mídia e pela propaganda para consumir desenfreadamente até mesmo produtos que não queremos, precisamos ou desejamos, estamos fazendo com que os recursos naturais se esgotem rapidamente sem que isso seja necessário. Estimulamos um desnecessário aumento da produção industrial e, como conseqüência disso, a emissão de poluentes na atmosfera cresce até atingir índices que tornam difícil ou até mesmo impossível a vida das pessoas.

 

Somos levados a agir dentro de um sistema em que a nossa vida é totalmente definida a partir de diretrizes que são criadas por empresas, respaldadas por governos. Perdemos a autonomia sem que isso fosse perceptível aos nossos olhos. É como se, de repente, tivéssemos realmente ingressado num mundo imaginário controlado por forças exteriores aos nossos próprios desígnios e comandos. Vivemos aquilo que vimos, admiramos e reverenciamos nas telas do cinema a partir de obras como “Matrix”, dos irmãos Wachowsky.

 

O pesadelo de obras literárias geniais como “Admirável Mundo Novo” (de Aldous Huxley) ou “1984” (de George Orwell) está se configurando na realidade de nossos dias a partir da ação praticamente invisível aos nossos olhos de gigantescas empresas de diferentes nacionalidades e setores de atuação.

 

Somos levados cada vez mais a agir de forma passiva, aceitando a tudo que nos é imposto ou pedido sem que nos manifestemos ou que percebamos as conseqüências das ações que ajudamos a desencadear. Temos que ser perfeitos cidadãos e profissionais caracterizados em nossas práticas pela excelência de nossos préstimos. Não podemos constituir vozes dissonantes, verdadeiramente críticas, que atentem contra a ordem e a anomalia que se esconde por trás do cotidiano e da normalidade de todos os dias.

 

Nos tornamos personagens de um filme que já foi produzido e que nos motivou a rir muito de seu personagem central, tão parecido com cada um de nós em sua candura, ingenuidade e ignorância. Somos todos irmãos de sangue de Truman Burbank (Jim Carrey) no fantástico “O Show de Truman”, do diretor Peter Weir. Até quando seremos assim? Será que conseguiremos enxergar pelas poucas frestas que nos permitem arejar nossos pensamentos e entender um pouquinho melhor o funcionamento do mundo em que vivemos?

 

“The Corporation”, dirigido por Jennifer Abbott e Mark Achbar, pretende ser justamente uma dessas falhas no sistema que nos permitem aspirar a liberdade e a salvação. Documentário construído a partir de um belíssimo trabalho de edição que alterna imagens jornalísticas, depoimentos, trechos de filmes antigos, animações, peças publicitárias e imagens estáticas, “The Corporation” nos coloca em contato com o inimaginável mundo em que nada somos além de “apertadores de botões” que tocam uma poderosa e escravizante máquina ávida por capital rumo a um amanhã que nem sabemos se existirá…

O Filme

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Corporações são como tubarões. Têm objetivos bem definidos, são frias e não param enquanto não atingirem suas metas. O problema é que sua fome é incessante e, portanto, promovem mortes e desgraças sem que tenhamos qualquer idéia quanto a se isso irá parar algum dia…

 

Não se iluda, a definição dada acima é uma metáfora criada por uma das pessoas que enriquecem cada minuto do documentário “The Corporation” ao socializarem experiências, ações, práticas e acontecimentos que foram por elas vivenciados ou estudados para que entendessem melhor o mundo atual, dominado pelas empresas de grande porte.

 

Chegou-se a conclusão de que não percebemos mais a interferência frequente e diária dessas empresas em nossas vidas. Não apenas a partir dos produtos e serviços que elas nos oferecem, mas também a partir das “externalidades” que também são por elas legadas ao grande público. Entenda-se que esse conceito refere-se ao custo de suas operações que nos é transferido através da destruição do meio-ambiente, das guerras promovidas para suster seus rendimentos ou ainda pela fome e miséria causada entre os pobres trabalhadores do mundo não desenvolvido.

 

Corporações são consideradas como pessoas perante a lei. Podem comprar, vender, alugar, acionar judicialmente, sofrer perdas, capitalizar ganhos, incorporar patrimônio e tantas outras ações que as pessoas físicas realizam durante suas existências nesse planeta. Diferentemente de mim ou de você, não têm corpo físico definido e, tampouco, alma…

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Sua principal razão de ser é a obtenção de lucro, mesmo que isso se oponha ao bem estar comum de toda a coletividade humana. Legalmente há subsídios que sustentam esse princípio e que, caso contestados judicialmente, há de legar ao proponente do recurso um enorme rombo em seu orçamento já que se trata de uma causa perdida…

 

Isso significa que temos que rever a forma como estamos vivendo em nossos países. Não podemos ser escravos silenciosos de um sistema opressor que nos afaga com bens materiais e que compra a nossa cooperação com mais e mais dinheiro sempre que nos mostramos descontentes e ameaçamos iniciar uma rebelião contra modo de produção dominante.

 

A certa altura do documentário um alto executivo de uma multinacional se diz, em alto e bom tom, impotente para mudar qualquer ação da empresa onde trabalha, mesmo considerando que muitas das práticas contrariam seus princípios e filosofia de vida. Outro depoimento, de um destacado consultor do mercado financeiro, atesta que graves crises, como o ataque terrorista ao World Trade Center, ou guerras, como aquelas que são travadas no Oriente Médio, são um ótimo negócio para os investidores que apostam suas fichas diariamente em ouro, petróleo, indústria bélica, água, alimentos,…

 

Quando chegamos a um ponto onde não há mais espaço para a sensibilidade ou para a solidariedade, estamos literalmente no fundo do poço e pouco conseguimos ver da luz que ilumina a entrada desse buraco onde fomos parar. “The Corporation” provoca a nossa reação de forma inteligente e hábil, mobiliza nossos sentidos e tenta nos tirar dessa grande letargia que nos encaminha para a morte coletiva do ser e do planeta.

 

Premiado em festivais, tem a participação de personalidades que estão dentro e fora das empresas e que realmente botam lenha na fogueira. Noam Chomsky, Michael Moore, Naomi klein, Peter Drucker, Milton Friedman e tantos outros enriquecem o debate e falam sobre situações que poucos conhecem ou desconfiam que tenham ou estejam acontecendo. É nitroglicerina pura. Pena que tenha distribuição tão restrita. No futuro talvez venha a ser até mesmo censurado como atentado terrorista…

Para Refletir

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1- Você já parou para pensar o quanto temos que destruir o planeta para obter um dólar de lucro na venda de um produto ou serviço? Já imaginou que a Terra é como uma mina na qual bilhões de pessoas se engalfinham diariamente em busca de seu quinhão de riquezas a esburacar suas já sofridas entranhas? Não, não sou um radical membro de uma dessas conhecidas organizações que querem proteger o meio-ambiente e a pergunta inicial dessa reflexão foi cunhada por um alto executivo de uma grande, rica e poderosa multinacional em depoimento ao documentário “The Corporation”. Nesse sentido ela poderia nortear nossa reflexão e nos mobilizar em busca do custo real por trás de iniciativas humanas de desenfreada perseguição ao lucro. Afinal, para ganhar um dólar quanto tivemos que gastar ou destruir?

2- O que é desenvolvimento sustentável? Que tal perseguir a definição desse conceito com seus estudantes a partir de depoimentos, livros, revistas, jornais ou Internet? Mais do que simplesmente um conceito estamos falando de uma prática que pode nos ajudar a salvar o mundo e também a humanidade…

3- As “maçãs podres” mencionadas no início do filme são grandes corporações norte-americanas envolvidas em escândalos que abalaram o mercado financeiro. Há também denúncias relativas a exploração do trabalho em países pouco desenvolvidos, venda de produtos que causam malefícios aos animais e aos humanos, destruição do meio ambiente,… Assistam o filme e enumerem os casos apresentados relacionando-os aos enormes prejuízos causados. Informem-se pela imprensa a respeito de histórias semelhantes que aconteceram no Brasil e em outras partes do mundo apenas nos últimos meses ou semanas…

4- O que podemos fazer? Que tal buscar a palavra de especialistas, estudiosos, membros dos governos e países, da ONU, das ONGs e também da população? As pessoas sabem o que está acontecendo? O que elas pensam a respeito de tantas e tantas denúncias? Precisamos de respostas, o nosso tempo pode estar acabando sem que tenhamos condições de fazer nada…

Publicado originalmente no site Planeta e Educação:

http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=618


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CONTRA A ÉTICA DO VAREJO – Entrevista com Renato Janine Ribeiro

 

Crítica à embriaguez presente nas novelas da emissora contrasta com o estímulo à bebedeira no BBB

ESTADÃO – Mais importante que debater o suposto estupro no Big Brother Brasil é refletir sobre a violação da intimidade nos reality shows, diz filósofo.

A polêmica sobre a natureza e a intensidade das carícias sob um certo edredom, numa certa madrugada, ao longo da 12ª edição do Big Brother Brasil, da Rede Globo, perdeu força com o depoimento à polícia da participante supostamente vítima de estupro. Sem se lembrar bem do que ocorrera na noite anterior, num quarto escuro vigiado por câmeras, a moça disse que tudo fora consentido. Mas a discussão não saiu do ar – especialmente entre internautas mais exaltados, via redes sociais. Justificam-se manifestações tão apaixonadas? “Eu jamais defenderia o fim dos reality shows, mas esta é uma oportunidade de discutir os limites desse tipo de programa”, avalia o filósofo e professor da Universidade de São Paulo Renato Janine Ribeiro. 

Mestre pela Universidade Paris 1 em 1973 e doutor pela USP em 1984 – ano-título do romance de George Orwell que imortalizou o termo ‘Grande Irmão’, que dá nome ao programa – Janine Ribeiro concebeu e apresentou uma série de televisão sobre Ética na TV Futura, depois exibida na Globo, e notabilizou-se, em diversos artigos, pela crítica de produtos dos meios de comunicação de massa.

Na entrevista a seguir ele questiona a exploração da intimidade como artifício para alavancar audiência, especula se o direito individual à privacidade é renunciável e repudia o recurso à embriaguez para elevar a temperatura entre participantes de uma competição – aspecto contra o qual se manifestara, na quarta-feira, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-guardião do ‘padrão Globo de qualidade’ e pai de Boninho, diretor do BBB: “Não me atrai esse conceito que eles pegaram da Holanda, em que ficam dando bebida alcoólica e promovendo festinhas”.

Para Renato Janine Ribeiro, é preciso tirar o olho da fechadura dos pequenos escândalos para vislumbrar o que está por trás dessa controvertida fórmula de entretenimento televisivo. “Não adianta abrir mão da ética no atacado e depois exigir um preceito ético num detalhe.”

Por que o sr. diz que reality shows são ‘não éticos no atacado’?

Boa parte explora um tipo de paixão humana que não é positiva. Eles estimulam a vontade de aparecer, de se exibir, com uma sexualidade carregada. As pessoas são incitadas por esse tipo de programa a ficar cada vez mais interesseiras e fazer uso da intimidade para subir na vida. A sexualidade, algo do mundo íntimo, ligada a um aprofundamento da relação com o outro, passa a ser vista como simples instrumento de conquista. Não é um programa que contribua de alguma forma para as pessoas serem melhores, mais felizes ou mais inteiras. Nesse sentido, entrar na discussão do que chamei de ‘varejo’, os escândalos e ‘injustiças’ do programa, é acreditar que a regra geral é boa. Não adianta abrir mão da ética no atacado e depois exigir um preceito ético num detalhe.

Em que sentido?

A expressão de (filósofo prussiano Immanuel) Kant de que o ser humano deve ser considerado fim e não meio é totalmente violada nesse tipo de programa. E, embora essa formulação valha muito mais como ideal do que como realidade, aqui o próprio ideal – mesmo que de difícil consecução – é abandonado. O outro passa a ser simplesmente um instrumento, a ser seduzido e conquistado. É por isso que existe todo um preparo dos candidatos para ir ao programa, que consiste em malhar, ficar sarado, aprender a manipular o sentimento dos outros, formar um casal para capturar a atenção do público. Os romances se repetem artificialmente.

Como determinar o que é ou não ético em um programa de televisão?

A discussão parece aquela boneca russa que quando a gente abre tem outra dentro. No caso em questão, o rapaz é acusado de um estupro que segundo a própria moça ele não teria cometido. Nós poderíamos discutir, então, se foi correto ou não expulsá-lo do programa. Mas, a meu ver, isso é o varejo, um debate de pouco interesse, pois significa antes aceitar a regra geral do programa. E quando você vai para um programa desses, que exibe a sua intimidade e no qual vai usá-la como moeda para conquistar alguém ou alguma coisa, corre o risco de abrir mão da dignidade.

Entre as diversas críticas que surgiram na blogosfera, uma argumentava que, embora alguém que coloque uma webcam em sua casa e explore a própria intimidade não possa ser questionado legalmente, se a exploração é feita por terceiros então há um problema. O sr. concorda?

O argumento de que o direito à privacidade seria irrenunciável é bom. Existem direitos dos quais não se pode abrir mão. Por exemplo, não posso entender que a liberdade que tenho sobre mim mesmo me autorize a me escravizar. Ou a autorizar outra pessoa a me matar – isso continua sendo um crime. Da mesma forma, existe um elemento da dignidade que não deveria ser violado. Um exemplo são os campeonatos de arremesso de anões (o da Flórida, nos EUA, foi proibido em 1989). Os anões estavam de acordo com o jogo. Mas por quê? Certamente por necessidade. Se você admitir que uma sociedade possa acuar as pessoas até a fome e, nessa situação, elas aceitem situações degradantes para divertir outras, está admitindo o sadismo e a crueldade como coisas normais.

Há aspectos positivos nos reality shows?

Houve pelo menos um bom momento na história do BBB, quando o (atual deputado federal pelo PSOL) Jean Wyllys tomou conta dele. Ele é uma pessoa muito inteligente, tinha uma visão interessante do que fazer lá dentro e houve um enfrentamento entre o preconceito e o homossexualismo. Isso foi positivo.

E outros reality shows, como Mulheres Ricas, Casa dos Artistas, etc.?

Não sei dizer, porque não os assisti. Em termos gerais, eu diria que um programa que coloca a intimidade como mercadoria é complicado e preocupante. Nos primeiros BBBs, aparentemente, você tinha outros critérios de seleção, uma diversidade maior de pessoas. Se pegar o reality da Globo que o precedeu, No Limite, quem ganhou foi uma cabeleireira gorda (Elaine Cristina Cosmo de Melo). Hoje, parece ter mudado o critério pelo qual as pessoas são selecionadas para participar. No formato atual, uma Elaine dificilmente ganharia. Ela nem entraria no jogo, provavelmente.

Antes de afastar o participante acusado de estupro, o diretor do programa, Boninho, saiu em defesa dele, afirmando que estaria sendo vítima de racismo. Há uma banalização da denúncia de preconceito racial no Brasil?

O que acontece é o seguinte: toda sociedade tem uma linguagem. A linguagem, 50, 60 anos atrás, seria em grande parte religiosa. Os militares deram o golpe em nome da ‘civilização ocidental e cristã’. Eles às vezes falavam em democracia, mas muito mais em civilização ocidental e cristã. Ninguém hoje, apesar de sermos um país de maioria católica, teria coragem de mencionar o ‘cristão’ porque isso significaria excluir judeus, cultos afro-brasileiros, budistas… Então, hoje nós temos uma linguagem que passa pela igualdade de gênero, das pessoas, pelo antirracismo. E qualquer discussão hoje vai incluir essa linguagem. Não sei se há banalização – ela é simplesmente a linguagem do nosso tempo. Se sobre o episódio em questão no BBB alguém evocasse ‘uma conduta ofensiva a Deus’, dificilmente o argumento teria repercussão. Ao passo que a questão do racismo ou do gênero acaba sendo mais eficaz. Isso tem um lado positivo pois significa a vitória de um discurso um pouco melhor. Outra coisa é verificar se ele se aplica ao caso.

O comportamento dos internautas que criticaram o programa nas redes sociais também teve desvios. Chegou a ser veiculado um texto sobre o assunto falsamente atribuído ao escritor Luís Fernando Verissimo…

Você não pode entrar numa discussão ética e entender que o fim justifique os meios – que, para denunciar um erro, um texto com a grife do Veríssimo seja bom. Aliás, é algo que me intriga na internet. Há um texto atribuído a (escritor argentino Jorge Luis) Borges que é até interessante. Mas a maior parte deles é indigente. O (jornalista Arnaldo) Jabor também é vítima disso e os chama de textos de “sentimentos fáceis”. O que me intriga é o seguinte: por que certos textos precisam ser publicados com autoria alheia? E por que as pessoas têm tanta dificuldade em identificar as finger prints do autor que costumam ler e gostar? Elas nem notam! E é curioso que haja algo neles coincidente com os reality shows. Se nesses programas a questão é “aparecer, ser prestigiado, repercutir na mídia”, o mesmo ocorre nesses textos, em que a argumentação não é tão importante quanto a falsa autoria.

Os fatos da semana levantaram um debate sobre o consentimento nas relações sexuais. Como se define o que é ético ou não nesse terreno?

É muito difícil. O que está presente na legislação hoje é o princípio liberal de que a vontade do indivíduo é soberana no que diz respeito a sua vida pessoal. O problema é que quando se lida com a sexualidade a questão da vontade é muito complexa. Tudo depende do contexto e é decidido à posteriori. A Suécia tem uma das legislações mais duras do mundo em relação ao estupro e o resultado disso é que os índices desse tipo de crime lá são relativamente altos. Uma pessoa lá, depois da relação sexual, pode voltar atrás da decisão. Foi o que ocorreu com (ativista e criador do Wikileaks Julian) Assange (acusado de estupro por uma mulher que inicialmente havia consentido em se relacionar com ele). A sexualidade lida com a dimensão do desejo, não da vontade. A vontade é consciente, quase racional, e tem a ver com a dimensão do ego. Já o desejo é algo que pode aparecer inclusive contrariando o que a vontade diz. A nossa legislação sobre o tema parece ter uma contradição e uma impossibilidade. A contradição é: por um lado, tudo foi remetido ao mundo do privado, se sou homossexual, se quero participar de uma orgia ou um encontro sadomasoquista, nada disso é ilícito. O que é correto. Por outro lado, como a questão passa a ser de vontade, fica muito difícil saber em que isso consiste. E os fatos tornam-se muito difíceis de se apurar: é palavra contra palavra.

A ambiguidade da situação de consentimento sexual não foi agravada pelo fato de que os integrantes do programa ingeriram álcool?

Isso é um grande problema. Especialmente porque temos hoje toda uma sociedade – e a própria emissora – fazendo campanha contra a embriaguez. Mesmo nas novelas, se você for ver os princípios éticos que elas sustentam, que de alguma forma estão modulando a ética neste país, atacando crimes de ódio, etc. e tal, nota que há um conflito. Está claro que a bebedeira promovida no BBB tem o objetivo justamente de provocar atos sexuais como o que resultou nessa polêmica toda.

O culto ao hedonismo e ao exibicionismo, por parte dos integrantes, e o estímulo ao voyeurismo, por parte do público, são eticamente justificáveis?

Não sou contra o hedonismo como busca de prazer e mesmo o exibicionismo e o voyeurismo têm seu lugar, na experiência humana. Um voyeurismo discreto entre pessoas que estão de acordo pode ser muito interessante e estimulante. O complicado é isso em rede nacional. Pois passa a ser uma espécie de recomendação. E, como eu disse antes, se abrirmos mão do ideal kantiano de ver o ser humano como fim e não como meio, acabou. O outro vira um mero objeto, um meio para se ganhar, aparecer, tornar-se alguém de sucesso. Eu jamais defenderia a proibição desses programas, mas o que ocorreu acaba sendo uma oportunidade de se discutir seus limites.

Publicado em O Estado de S. Paulo em 22 jan. 2012

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,contra-a-etica-do-varejo,825722,0.htm

“CONFORMISMO ANESTESIADO PELO CONSUMO”: Laurindo Leal Filho

DEBATE ABERTO

O partido único da mídia

Ao se fixar nos seus próprios dogmas, desprezando o real, o poder dos partidos midiáticos tende ao enfraquecimento. Ao se descolarem da realidade perdem credibilidade e apoio, cavando sua própria ruína. Trata-se de um caminho trilhado de forma cada vez mais acelerada pela mídia tradicional brasileira.

Laurindo Lalo Leal Filho, na Carta Maior

A superficialidade e o descrédito a que chegaram os meios de comunicação tradicionais no Brasil é incontestável. Posicionamento político-partidário explícito e “reengenharias” administrativas estão na raiz desse processo.

Dispensas em massa de profissionais qualificados explicam, em parte, a baixa qualidade editorial. Foi-se o tempo em que ler jornal dava prazer. Mas fiquemos, por aqui, apenas na orientação política.

A concentração dos meios e a identidade ideológica existente entre eles criou no país o “partido único” da mídia, sem oposição ou contestação. Ditam políticas, hábitos, valores e comportamentos. O resultado é um grande descompasso entre o que divulgam e a realidade. Hoje, para perceber esse fenômeno, não são mais necessárias as exaustivas pesquisas em jornalismo comparado, tão comuns em nossas academias lá pelos anos 1980.

Agora basta abrir um jornal ou assistir a um telejornal e compará-los com as informações oferecidas por sites e blogues sérios, oferecidos pela internet. São mundos distintos.

No caso da mídia brasileira essa situação começou a se consolidar com a implosão das economias planificadas do leste europeu, na virada dos anos 1980/90.

Em 1992, no livro “O fim da história e o último homem”, ampliando ideias já apresentadas em ensaio de 1989, Francis Fukuyama punha um ponto final no choque de ideologias, saudando o capitalismo como modo de produção e processo civilizatório definitivo da humanidade, globalizado e eternizado.

Tese rapidamente endossada com euforia pela mídia conservadora e hegemônica que, a partir dai, pautaria por esse viés seus recortes diários do mundo, transmitidos ao público. Faz isso até hoje.

Só que, obviamente, a história não acabou. Ai estão as crises cíclicas do capitalismo, neste início de milênio, evidenciando-o como modo de produção historicamente constituído, passível de transformações e de colapso, como qualquer um dos que o precederam. Mas a mídia trata o capitalismo como se fosse eterno, excluindo de suas pautas as contradições básicas que o formam e o conformam. Dai a pobreza de seus conteúdos e o seu distanciamento da realidade, levando-a ao descrédito.

De fomentadora de ideias e debates, fortes características de seus primórdios em séculos passados, passou a estimuladora do conformismo e da acomodação. Para ela o motor história não é a luta de classes e sim o consumo, apresentado em gráficos e infográficos, alardeando números e índices que, muitas vezes, beiram o esotérico.

Se nos anos 1990 essas políticas editoriais obtiveram relativo êxito apoiadas na expansão do neoliberalismo pelo mundo, na última década a realidade crítica abalou todas as certezas impostas ideologicamente. As contradições vieram à tona.

No entanto a mídia, reduzida e conservadora, especialmente no Brasil, segue tratando apenas das aparências, deixando de lado determinações mais profundas. Movimentos anti-capitalistas espalhados pelo mundo são mencionados, quando o são, particularmente pela TV, como “fait-divers”, destituídos de sentido, a-históricos. Seguindo rigorosamente a tese de Fukuyama.

Fazendo jus ao seu papel de “partido único”, os meios oferecem ao público, como elemento condutor de sua ideologia conservadora, algo que genericamente pode ser chamado de kitsch. Definição dada pelos alemães no século passado para a arte popular e comercial, feita de fotos coloridas, capas de revistas, ilustrações, imagens publicitárias, histórias em quadrinhos, filmes de Hollywood. Atualizando seriam os nossos programas de TV, os cadernos de variedades de jornais e revistas, as músicas e as preces tocadas no rádio.

Esse é o prato diário da mídia, oferecido em embalagens sedutoras e entremeado de informações ditas jornalísticas, apresentando o mundo como um quadro acabado, inalterável. Não existindo alternativas, resta o conformismo anestesiado pelo consumo, ainda que para muitos apenas ilusório.

Claro que esse quadro midiático tem eficácia até certo momento, enquanto realidade e imaginário de alguma forma guardam proximidade. Mas ele também é histórico e, portanto, mutável.

Enquanto as contradições básicas da sociedade, aqui mencionadas, permanecerem existindo, a integração das consciências “pelo alto” será irrealizável, alertava Adorno, num dos seus últimos textos. Por mais que os meios de comunicação se esforcem por integrá-las.

Ao se fixar nos seus próprios dogmas, desprezando o real, o poder dos partidos midiáticos tende ao enfraquecimento. Ao se descolarem da realidade perdem credibilidade e apoio, cavando sua própria ruína. Confrontados com a internet desabam. Trata-se de um caminho trilhado de forma cada vez mais acelerada pela mídia tradicional brasileira. Sem falar na contribuição dada a esse processo pela queda da qualidade editorial, tema que fica para outro momento.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.

Fonte: Vi o Mundo |  Luiz Carlos Azenha

http://www.viomundo.com.br/politica/laurindo-leal-filho-conformismo-anestesiado-pelo-consumo.html

A MÍDIA COMERCIAL EM GUERRA CONTRA LULA E DILMA

por LEONARDO BOFF  *

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando veem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele veem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma), “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo -Jeca Tatu-; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e para “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa  e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito innovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

  

* LEONARDO BOFF é teólogo, filósofo e escritor  [Representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra]. http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=51181