DESCARTES. Filme

Rossellini extrai trechos inteiros de algumas das obras fundamentais do pensador, como O Discurso do Método (1637) e as Meditações Metafísicas (1641), para compor as ações “dramáticas” do personagem. 

São procedimentos teóricos de René Descartes, cuja função seria fundar a autonomia do pensamento racional diante da fé. Vale dizer que, naquela época, toda démarche racionalista tinha de ser, também, uma negociação com a autoridade religiosa. 

Donde, nas Meditações, Descartes precisar, primeiro, ocupar-se das provas da existência de Deus, para apenas depois afirmar que o Cogito (a Razão) se sustenta por si só. “Eu sou, eu existo”, deduz, pelo simples fato de pensar. A conclusão entrou para a história do conhecimento como a frase famosa “Penso, logo existo” (Cogito ergo sum).

Fonte: You Tube

THE CORPORATION. Documentário

Ficha Técnica

título original: The Corporation

gênero: Documentário

duração: 2 hr 25 min

ano de lançamento: 2004

site oficial: http://www.thecorporation.com/

estúdio: Big Pictures Media Corporation

distribuidora: Zeitgeist Films / Imagem Filmes

direção: Jennifer Abbott, Mark Achbar

roteiro: Joel Bakan e Harold Crooks

produção: Mark Achbar e Bart Simpson

música: Leonard J. Paul

fotografia: Mark Achbar, Rolf Cutts, Jeff Koffman e Kirk Tougas

direção de arte: Henry Faber

edição: Jennifer Abbott

Elenco 

  • Mikela J. Mikael (Narrador – voz)
  • Jane Akre
  • Ray Anderson
  • Maude Barlow
  • Chris Barrett
  • Noam Chomsky
  • Peter Drucker
  • Samuel Epstein
  • Milton Freidman
  • Naomi Klein
  • Susan E. Linn
  • Luke McCabe
  • Robert Monks
  • Michael Moore
  • Vandana Shiva
  • Steve Wilson
The Corporation
A ambição que destrói o mundo
João Luís de Almeida Machado, Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro “Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema” (Editora Intersubjetiva).

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Descobri por esse fabuloso documentário chamado “The Corporation” que somos todos responsáveis pelo que se chama “Tirania Intergeracional”. De acordo com esse conceito determinamos de forma despótica os rumos da vida nesse planeta ao gerenciarmos de forma irresponsável e inconseqüente os recursos que por aqui existem. Estamos legando para as próximas gerações de habitantes da Terra um mundo destruído, falido e, para finalizar, doente ou até mesmo morto…

 

Condenamos pessoas que ainda nem nasceram a viver num estado praticamente irreversível de penúria. Definimos a extinção de espécies vegetais e animais sem nem ao menos nos darmos conta de que estamos fazendo isso. Poluímos a água, o ar e o solo tornando estéreis cada um desses recursos de inestimável valor. Exploramos a mão-de-obra alheia, distante ou próxima de nós mesmos, sem nos dar conta dos grandiosos prejuízos que causamos a crianças, idosos, homens e mulheres que trabalham por salários miseráveis…

 

E como nos tornamos responsáveis por todas essas atrocidades se nem ao menos percebemos a extensão de nossos atos e a repercussão dos mesmos? Na esmagadora maioria dos casos, não nos damos conta dos acontecimentos ao nosso redor a não ser que de alguma forma isso nos afete diretamente. Estamos alienados, somos insensíveis e ficamos tão presos ao cotidiano de nossas vidas que perdemos a capacidade de enxergar além de nossos próprios umbigos.

 

Quando compramos uma camisa, um par de tênis ou um automóvel, atos aparentemente banais para a vida de milhares e milhares de pessoas mundo afora não percebemos que podemos estar financiando a continuidade da exploração da mão de obra de pessoas que nada mais têm a oferecer para garantir sua sobrevivência senão sua mão-de-obra barata. E é justamente em busca de oportunidades de maximizar seus lucros e ganhar cada vez mais e mais dinheiro que grandes corporações multinacionais se estabelecem em países em desenvolvimento.

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Ao sermos mobilizados pela mídia e pela propaganda para consumir desenfreadamente até mesmo produtos que não queremos, precisamos ou desejamos, estamos fazendo com que os recursos naturais se esgotem rapidamente sem que isso seja necessário. Estimulamos um desnecessário aumento da produção industrial e, como conseqüência disso, a emissão de poluentes na atmosfera cresce até atingir índices que tornam difícil ou até mesmo impossível a vida das pessoas.

 

Somos levados a agir dentro de um sistema em que a nossa vida é totalmente definida a partir de diretrizes que são criadas por empresas, respaldadas por governos. Perdemos a autonomia sem que isso fosse perceptível aos nossos olhos. É como se, de repente, tivéssemos realmente ingressado num mundo imaginário controlado por forças exteriores aos nossos próprios desígnios e comandos. Vivemos aquilo que vimos, admiramos e reverenciamos nas telas do cinema a partir de obras como “Matrix”, dos irmãos Wachowsky.

 

O pesadelo de obras literárias geniais como “Admirável Mundo Novo” (de Aldous Huxley) ou “1984” (de George Orwell) está se configurando na realidade de nossos dias a partir da ação praticamente invisível aos nossos olhos de gigantescas empresas de diferentes nacionalidades e setores de atuação.

 

Somos levados cada vez mais a agir de forma passiva, aceitando a tudo que nos é imposto ou pedido sem que nos manifestemos ou que percebamos as conseqüências das ações que ajudamos a desencadear. Temos que ser perfeitos cidadãos e profissionais caracterizados em nossas práticas pela excelência de nossos préstimos. Não podemos constituir vozes dissonantes, verdadeiramente críticas, que atentem contra a ordem e a anomalia que se esconde por trás do cotidiano e da normalidade de todos os dias.

 

Nos tornamos personagens de um filme que já foi produzido e que nos motivou a rir muito de seu personagem central, tão parecido com cada um de nós em sua candura, ingenuidade e ignorância. Somos todos irmãos de sangue de Truman Burbank (Jim Carrey) no fantástico “O Show de Truman”, do diretor Peter Weir. Até quando seremos assim? Será que conseguiremos enxergar pelas poucas frestas que nos permitem arejar nossos pensamentos e entender um pouquinho melhor o funcionamento do mundo em que vivemos?

 

“The Corporation”, dirigido por Jennifer Abbott e Mark Achbar, pretende ser justamente uma dessas falhas no sistema que nos permitem aspirar a liberdade e a salvação. Documentário construído a partir de um belíssimo trabalho de edição que alterna imagens jornalísticas, depoimentos, trechos de filmes antigos, animações, peças publicitárias e imagens estáticas, “The Corporation” nos coloca em contato com o inimaginável mundo em que nada somos além de “apertadores de botões” que tocam uma poderosa e escravizante máquina ávida por capital rumo a um amanhã que nem sabemos se existirá…

O Filme

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Corporações são como tubarões. Têm objetivos bem definidos, são frias e não param enquanto não atingirem suas metas. O problema é que sua fome é incessante e, portanto, promovem mortes e desgraças sem que tenhamos qualquer idéia quanto a se isso irá parar algum dia…

 

Não se iluda, a definição dada acima é uma metáfora criada por uma das pessoas que enriquecem cada minuto do documentário “The Corporation” ao socializarem experiências, ações, práticas e acontecimentos que foram por elas vivenciados ou estudados para que entendessem melhor o mundo atual, dominado pelas empresas de grande porte.

 

Chegou-se a conclusão de que não percebemos mais a interferência frequente e diária dessas empresas em nossas vidas. Não apenas a partir dos produtos e serviços que elas nos oferecem, mas também a partir das “externalidades” que também são por elas legadas ao grande público. Entenda-se que esse conceito refere-se ao custo de suas operações que nos é transferido através da destruição do meio-ambiente, das guerras promovidas para suster seus rendimentos ou ainda pela fome e miséria causada entre os pobres trabalhadores do mundo não desenvolvido.

 

Corporações são consideradas como pessoas perante a lei. Podem comprar, vender, alugar, acionar judicialmente, sofrer perdas, capitalizar ganhos, incorporar patrimônio e tantas outras ações que as pessoas físicas realizam durante suas existências nesse planeta. Diferentemente de mim ou de você, não têm corpo físico definido e, tampouco, alma…

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Sua principal razão de ser é a obtenção de lucro, mesmo que isso se oponha ao bem estar comum de toda a coletividade humana. Legalmente há subsídios que sustentam esse princípio e que, caso contestados judicialmente, há de legar ao proponente do recurso um enorme rombo em seu orçamento já que se trata de uma causa perdida…

 

Isso significa que temos que rever a forma como estamos vivendo em nossos países. Não podemos ser escravos silenciosos de um sistema opressor que nos afaga com bens materiais e que compra a nossa cooperação com mais e mais dinheiro sempre que nos mostramos descontentes e ameaçamos iniciar uma rebelião contra modo de produção dominante.

 

A certa altura do documentário um alto executivo de uma multinacional se diz, em alto e bom tom, impotente para mudar qualquer ação da empresa onde trabalha, mesmo considerando que muitas das práticas contrariam seus princípios e filosofia de vida. Outro depoimento, de um destacado consultor do mercado financeiro, atesta que graves crises, como o ataque terrorista ao World Trade Center, ou guerras, como aquelas que são travadas no Oriente Médio, são um ótimo negócio para os investidores que apostam suas fichas diariamente em ouro, petróleo, indústria bélica, água, alimentos,…

 

Quando chegamos a um ponto onde não há mais espaço para a sensibilidade ou para a solidariedade, estamos literalmente no fundo do poço e pouco conseguimos ver da luz que ilumina a entrada desse buraco onde fomos parar. “The Corporation” provoca a nossa reação de forma inteligente e hábil, mobiliza nossos sentidos e tenta nos tirar dessa grande letargia que nos encaminha para a morte coletiva do ser e do planeta.

 

Premiado em festivais, tem a participação de personalidades que estão dentro e fora das empresas e que realmente botam lenha na fogueira. Noam Chomsky, Michael Moore, Naomi klein, Peter Drucker, Milton Friedman e tantos outros enriquecem o debate e falam sobre situações que poucos conhecem ou desconfiam que tenham ou estejam acontecendo. É nitroglicerina pura. Pena que tenha distribuição tão restrita. No futuro talvez venha a ser até mesmo censurado como atentado terrorista…

Para Refletir

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1- Você já parou para pensar o quanto temos que destruir o planeta para obter um dólar de lucro na venda de um produto ou serviço? Já imaginou que a Terra é como uma mina na qual bilhões de pessoas se engalfinham diariamente em busca de seu quinhão de riquezas a esburacar suas já sofridas entranhas? Não, não sou um radical membro de uma dessas conhecidas organizações que querem proteger o meio-ambiente e a pergunta inicial dessa reflexão foi cunhada por um alto executivo de uma grande, rica e poderosa multinacional em depoimento ao documentário “The Corporation”. Nesse sentido ela poderia nortear nossa reflexão e nos mobilizar em busca do custo real por trás de iniciativas humanas de desenfreada perseguição ao lucro. Afinal, para ganhar um dólar quanto tivemos que gastar ou destruir?

2- O que é desenvolvimento sustentável? Que tal perseguir a definição desse conceito com seus estudantes a partir de depoimentos, livros, revistas, jornais ou Internet? Mais do que simplesmente um conceito estamos falando de uma prática que pode nos ajudar a salvar o mundo e também a humanidade…

3- As “maçãs podres” mencionadas no início do filme são grandes corporações norte-americanas envolvidas em escândalos que abalaram o mercado financeiro. Há também denúncias relativas a exploração do trabalho em países pouco desenvolvidos, venda de produtos que causam malefícios aos animais e aos humanos, destruição do meio ambiente,… Assistam o filme e enumerem os casos apresentados relacionando-os aos enormes prejuízos causados. Informem-se pela imprensa a respeito de histórias semelhantes que aconteceram no Brasil e em outras partes do mundo apenas nos últimos meses ou semanas…

4- O que podemos fazer? Que tal buscar a palavra de especialistas, estudiosos, membros dos governos e países, da ONU, das ONGs e também da população? As pessoas sabem o que está acontecendo? O que elas pensam a respeito de tantas e tantas denúncias? Precisamos de respostas, o nosso tempo pode estar acabando sem que tenhamos condições de fazer nada…

Publicado originalmente no site Planeta e Educação:

http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=618


A DOUTRINA DO CHOQUE | THE SHOCK DOCTRINE. Naomi Klein

Sinopse:
Toda a verdade por detrás da implantação do neoliberalismo mundo afora. Da mesma diretora do excelente documentário “The Take”, faz parte também da roda do pessoal que fez “The Corporation”. O documentário Shock Doctrine, baseado no livro como a mesmo nome, mostra as conexões entre os experiências desenvolvidas por cientistas, nos anos 40, e as ações da CIA pelo mundo afora nos anos seguintes. Assim como o eletrochoque ou a tortura são ferramentas para fazer que o paciente ou torturado seja obediente, O CHOQUE aplicado a países é a maneira para que práticas neoliberais sejam implantadas. O documentário mostra as práticas violentas das Ditaduras implantadas no Chile e na Argentina através dos ensinamentos dos EUA, através da Escola das Américas. Milton Friedman, o maior economista dos EUA de todos os tempos, foi o mentor dessa doutrina, que aplicou contra o interesses dos trabalhadores pelo mundo, as vontades da Escola de Chicago.

You Tube: Tragédia em Nova Orleans, 2005. Enquanto o mundo assiste ao flagelo dos moradores com as inundações causadas por tempestades que estouraram os diques da cidade, o economista Milton Friedman apresenta no The Wall Street Journal uma idéia radical. Aos 93 anos de idade e com a saúde debilitada, o papa da economia liberal das últimas cinco décadas vislumbrava, naquele desastre, uma oportunidade de ouro para o capitalismo: “A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas”, observou. “É uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional”. Para Friedman, melhor do que gastar uma parte dos bilhões de dólares do dinheiro da reconstrução refazendo e melhorando o sistema escolar público, o governo deveria fornecer vouchers para as famílias, que poderia gastá-los nas instituições privadas. Estas teriam subsídio estatal. A privatização proposta seria não uma solução emergencial, mas uma reforma permanente. A idéia deu certo. Enquanto o conserto dos diques e a reparação da rede elétrica seguiam a passos lentos, o leilão do sistema educacional se tornava realidade em tempo recorde.

DA SERVIDÃO MODERNA. Jean-François Brient

“Toda verdade passa por três estágios.
No primeiro, ela é ridicularizada.
No segundo, é rejeitada com violência.
No terceiro, é aceita como evidente por si própria.”

Schopenhauer

O texto foi escrito na Jamaica em outubro de 2007 e o documentário foi finalizado na Colômbia em maio de 2009. Existe nas versões francesa, inglesa e espanhola. Elaborado a partir de imagens essencialmente oriundas de filmes de ficção e de documentários. (Fonte: You Tube, página de hospedagem do doc.)

ÓLEO DE LORENZO E PATCH ADAMS: A ARROGÂNCIA TITULADA

por ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

Ver também Blog: http://espacoacademico.wordpress.com/2010/06/12/oleo-de-lorenzo-e-patch-adams-a-arrogancia-titulada/

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas. (Machado de Assis)

A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos. A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos. (Eclesiastes 9,16)

Todos os dias, milhares de pessoas se submetem ao deus criado pela humanidade: sua santidade o cientista. Seu santuário localiza-se nos edifícios dos modernos laboratórios, hospitais e universidades. Em todos os lugares, encontramos o especialista, guardião do conhecimento científico, o qual, pretensamente, tem resposta para todos os males que afligem a humanidade. São os pequenos profetas, representantes do saber canônico legitimado pela sociedade, autoridades instituídas que têm o poder da palavra. Como escreve Bourdieu:

“A especificidade do discurso de autoridade (curso, sermão etc.) reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (em alguns casos, ele pode inclusive não ser compreendido sem perder seu poder), é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio.” (1998: 91)

Os estudantes, por exemplo, ficam extasiados com a erudição do mestre. Em certas circunstâncias, quanto mais incompreensível for o discurso do professor mais ele parecerá inteligente. Em geral, passa despercebido o fato de que a instituição universitária legitima o discurso professoral: o docente não precisa saber, mas sim aparentar que sabe. Tempos atrás, havia uma novela onde o personagem, estilo professor-filósofo, discursava em solenidades e o público ficava boquiaberto com tanta sabedoria e erudição; na verdade, embromação.

Este tipo de autoridade se impõe devido à nossa cumplicidade. Quando procuramos o médico aceitamos de bom grado a sua autoridade: suas palavras expressam a verdade científica. Como nós, míseros ignorantes, podemos questioná-lo? Terá o aluno a ousadia de questionar o saber do professor? Ainda que este ou aquele professor seja inquirido neste ou naquele ponto, a sua autoridade estará resguarda pela posição que ocupa na instituição. Ou seja:

“A linguagem de autoridade governa sob a condição de contar com a colaboração daqueles a quem governa, ou seja, graças à assistência dos mecanismos sociais capazes de produzir tal cumplicidade, fundada por sua vez no desconhecimento, que constitui o princípio de toda e qualquer autoridade.” (Id.)

A imposição do saber canônico, da palavra autorizada, inclina-se à arrogância, manifesta ou camuflada (na forma da humildade demagógica). Isto ocorre na medida em que o portador do conhecimento científico não reconhece outro saber. Há quem considere que a posse da sabedoria livresca e do conhecimento titulado e legitimado pela instituição concede status superior. Não fosse o mal e o sofrimento que causa – para si e para os outros –, a arrogância bem que poderia ser desconsiderada ou simplesmente debitada às compreensíveis fraquezas humanas.

Imagine-se no lugar da criança submetida à arrogância professoral, do estudante sacrificado no templo dos pequenos profetas, ávidos e autoritários [1]; imagine-se nos corredores de um hospital, submetido à autoridade dos médicos e burocratas e sem outra opção a não ser esperar e esperar…

E quando, mesmo com toda a cumplicidade à autoridade instituída, nos vemos diante de uma situação desesperadora, para a qual a ciência não tem resposta? O filme O Óleo de Lorenzo ilustra bem esta situação. Trata-se da história de uma criança que tem uma doença rara e, pelos prognósticos dos doutos cientistas, não viverá muito. Logo nas primeiras cenas um fato se sobressai: o sofrimento ao qual o menino é submetido e as dificuldades da ciência em diagnosticar. A fala fria e científica do médico, ao informar o diagnóstico, contrasta com o desespero dos pais. A mãe pergunta se não há uma remota possibilidade de cura, se ele tem certeza. O doutor responde, secamente: “Absoluta”. Só resta a resignação.

Em Patch Adams, fica claro como se chega à objetividade científica traduzida em gestos e falas que mais se assemelham a autômatos. O filme relata a história de um homem com tendência suicida que, no hospício, descobre um sentido para a vida: ajudar o próximo. Nesta busca do outro, ele decide fazer o curso de medicina. Na faculdade, entra em choque com a burocracia e, principalmente, com a filosofia de ensino defendida pelo professor-reitor. O paciente se submete à autoridade do médico, o que atesta o seu poder. Como o poder causa dano, a solução apregoada pelo reitor para evitar ou minorar as conseqüências é a recusa dos sentimentos e a valorização absoluta da objetividade científica. Nesta perspectiva, a tarefa dos professores é desumanizar os futuros médicos, isto é, recusar-lhes o status de humanos (com suas paixões, sonhos, fraquezas e dilemas), e transformá-los em médicos. A relação deixa de ser uma relação entre humanos e passa a ser uma relação sujeito-objeto, do médico com a doença. Os doentes são desumanizados, anulados em sua identidade e transformados num número da ficha hospitalar, num caso a ser estudado, diagnosticado e tratado.

Eis como se forma um cientista desprovido de subjetividade – como se isto fosse possível! A propósito, seria a sisudez um aspecto inerente ao ato de fazer ciência? Observa-se nestes filmes como alguns indivíduos que representam o saber científico (médico, professor, pesquisador, etc.) distanciam-se dos demais seres humanos e adotam um ar de gravidade – confrontado, em Patch Adams, pelo bom humor e o jeito peculiar de encarar a profissão. É interessante como este estilo influencia os estudantes: o aprender transforma-se em sinônimo de desprazer, competição e inveja (como se a cretinice e a chatice fosse condições para o trabalho intelectual). A prática de Patch Adams coloca em xeque o método de ensinar-aprender tradicional. Não por acaso, o reitor defende-se dos questionamentos com um argumento tipicamente científico: “Nosso método é o resultado de séculos de experiência”.

O filme O Óleo de Lorenzo demonstra que, em sua arrogância, os guardiões do saber canônico não admitem concorrência: reflete a contradição entre o saber considerado científico e o saber não reconhecido no campus. Os pais de Lorenzo, na luta para salvar o filho, tornam-se autodidatas, rivalizando com os renomados doutos. As autoridades científicas relutam em aceitar os avanços obtidos nas pesquisas realizadas externamente ao seu controle.

Mas, a resistência não é apenas dos médicos: os demais pais, cujos filhos sofrem da mesma doença de Lorenzo, não aceitam que alguém fora da academia possa atingir o saber científico. Ou seja, negam legitimidade ao saber não-diplomado. “Querem ensinar os médicos”, acusa uma mãe. Em sua opinião, o desafio ao saber estabelecido é um ato arrogante. E ela tem certa razão. Com efeito, a palavra arrogante vem do latim arrogare, que significa apropriar-se de. E de fato, o que o pai de Lorenzo faz é, por meios próprios, apropriar-se do conhecimento científico.

Patch Adams também representa um desafio ao saber instituído, na medida em que questiona seus pressupostos e projeta uma experiência autogestionária, onde todos aprendem e ensinam mutuamente (a idéia de um hospital no qual os doentes e médicos aprendem uns com os outros e somam esforços no sentido de tornar a vida melhor).

Ambos os filmes não descartam o saber instituído. Não há contradição absoluta entre os tipos de saber: o autodidatismo do pai de Lorenzo se referencia no conhecimento científico acumulado e disperso; a crítica de Patch Adams se insere no contexto do campus. Num e noutro caso, não há a negação absoluta do saber científico, mas sim de uma determinada maneira de compreendê-lo e de agir. Tanto o pai de Lorenzo quanto Patch Adams são incorporados e assimilados pelo campo acadêmico.

Óleo de Lorenzo e Patch Adams, baseados em histórias reais, questionam a arrogância titulada e o intelectualismo desencantado do mundo: o saber cientificista, abstrato e sisudo, profundamente desvinculado do humano; um saber que não mergulha no mar da humanidade, um saber desumanizado.

O amor pelo filho e pelo próximo alimenta a paixão pelo conhecimento. “Com efeito, para o homem enquanto homem, nada tem valor a menos que ele possa fazê-lo com paixão”, afirma WEBER (1993: 25). O trabalho realizado com paixão inspira e realiza o homem; o contrário, exprime obrigação, opressão. O exemplo do pai de Lorenzo comprova que o diletantismo, como admite Weber, é positivo:

“No campo das ciências, a intuição do diletante pode ter significado tão grande quanto a do especialista e, por vezes maior. Devemos, aliás, muitas das hipóteses mais frutíferas e dos conhecimentos de maior alcance a diletantes. Estes não se distinguem dos especialistas (…) senão por ausência de segurança no método de trabalho e, amiudamente, em conseqüência, pela incapacidade de verificar, apreciar e explorar o significado da própria intuição”. (Id.: 26)

O saber confrontado pelas experiências relatadas nestes filmes vincula-se, via de regra, à vaidade – que, em defesa dos intelectuais, não é uma propriedade exclusiva do campus. Se todos somos vaidosos, em menor ou maior grau, o problema começa quando a vaidade se traduz em atos autoritários ou se erige em obstáculo às relações humanas (talvez, por isso, há quem prefira os animais).

O mais preocupante nisto tudo é a perda do sentido da vida e da percepção da sua finitude. Se levarmos em conta as sábias palavras em epígrafe, quem sabe nos tornemos mais humildes em relação às nossas pretensões intelectuais e tenhamos uma atitude mais crítica (quanto ao pretenso conhecimento científico) e mais flexível (em relação à sabedoria popular). Quem sabe, aprendamos a controlar a arrogância e nos convençamos de que os títulos acadêmicos não nos tornam essencialmente melhores do que os nossos semelhantes não-titulados.

Referências

BOURDIEU, Pierre. (1988) A Economia das Trocas Lingüísticas: O que Falar Quer Dizer. São Paulo: Edusp.

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. (1988) Memórias póstumas de Brás Cubas. Santiago (Chile): Editora América do Sul LDA. (Biblioteca de Ouro da Literatura Universal)

WEBER, Max. (1993) Ciência e Política: Duas Vocações.  São Paulo: Cultrix.


* ANTONIO OZAI DA SILVA é docente no Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá. Blog: http://antoniozai.wordpress.com. Publicado na REA, nº 28, setembro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/028/28pol.htm

[1] Ver: “As dimensões da relação aprender-ensinar” e “Estudo Errado”: Qual é a capital de Kubanacan? (Revista Espaço Acadêmico, nº 25, Junho de 2003).