MACACO SALVA FILHOTE DE CACHORRO EM EXPLOSÃO NA CHINA, 2010

Esta foto corre as redes sociais. Foi flagrada após uma explosão de fábrica na cidade de Nanjing, China, em 28 de julho de 2010.

Entendo o apelo emocional e a ação que, por si só, é emocionante e nos prende. Mas sempre ando a ver por aí essa “humanização” de reflexos que estão na base da adaptação das espécies. Com raríssimas exceções já estudadas (não finalizadas – e nem poderiam) e conhecidas inclusive, como um intenso, complexo e admirável processo cognitivo vistos em macacos superiores, golfinhos e elefantes entre mais alguns animais, atitudes como essas acabam por se encontrar em reflexos, estímulos e instinto de sobrevivência. O que leva à proteção.

Portanto, categorias como compaixão (isso pertence à cultura – mas não é de sua propriedade inalterada -, pertence ao processo de hominização – hominídeos > cultura [produzindo trabalho] > Homo sapiens), que simbolicamente chamamos de gênese do Homo demens, momento quando aprendemos a ter sentimento, afeição, sorrir, dor (não somente física), raiva etc.; como bondade, preocupação (que pressupõe o abstrato anteriormente ao ato concreto, a projeção da realidade no espaço temporal e cognitivo do animal humano); consciência não são adequadas a questões como essas.

Noutros termos: não se trata de desconstruir toda a intensidade da imagem e a beleza (e a tragédia) dos fatos que se repetem, como o da foto. Mas precisamos ter claro que “humanizamos” atitudes de outras espécies. E reduzimos a percepção de outros animais ao mesmo patamar ou nível da percepção hominídea. Os reflexos e estímulos apropriados pelo instinto forjado no processo de adaptação da vida devem ser compreendidos no patamar que lhe cabem, a partir do que já produzimos como conhecimento na escala humana. Enquanto não conseguimos comprovar o contrário do que se opina aqui, o mais sensato é termos muita calma nessa hora.

(PS.: à guisa de informação pra embasar um pouco essas questões, claro, dentro do quase nada tempo que sobra, se sobrar, Edgar Morin, num livrinho já rodado, nem reeditado mais, mas que se acha nas melhores universidades e sebos, trata bem dessa questão: O Enigma do Homem: para uma nova antropologia, em especial as 3 primeiras partes com seus respectivos capítulos: “A Junção Epistemológica”, “A Hominização (A Antropossociogênese)” e “Um Animal dotado de Desrazão” (nesta, especial atenção ao seus caps. 1 e 2, respectivamente, ‘Sapiens-Demens’ e ‘ A Hipercomplexidade’).

MAS QUE A IMAGEM É MUITO LOUCA, AH ISSO É!

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7 comentários sobre “MACACO SALVA FILHOTE DE CACHORRO EM EXPLOSÃO NA CHINA, 2010

  1. Trabalho interessante do cientista Frans de Waal, eu não conheço de sociologia animal, por isso pergunto, como se encaixa no seu texto, esses “comportamentos morais”:

  2. Isso me faz pensar o seguinte: que nenhum animal deve ser maltratado por seres humanos. Não é porque humanos são uma raça superior, se bem que tenho minhas dúvidas, que podem usar os animais em experiências, diversão, alimentação desenfreadamente. Deveria haver um limite.
    Já que sabemos que os animais sentem dor e sofrem, sentem tristeza. Ah tristeza não podemos falar…são necessárias inúmeras pesquisas, porque só os seres humanos sentem um monte de coisas.
    Somos capazes de destruir tudo, uns aos outros sem qualquer equilíbrio.
    E porque todas as comparações dos outros animais são realizadas baseadas no ser humano? Querem descobrir por que os animais são inferiores por não destruírem o planeta? Por não quererem mais quando obtêm somente o necessário para a sobrevivência?
    Se foi por compaixão, por extinto, por obter algum benefício…o macaco salvou o cãozinho. Quantos seres humanos fariam isso? A maioria sairia correndo desesperada sem se importar com nada. Ah Mas essa na verdade era a atitude esperada pelo animal, quando na verdade em muitas pesquisas os seres humanos apresentam o comportamento mais egoísta possível…instinto de sobrevivência? ha-ha
    Não entendo, porque subestimamos tanto os animais que vivem no mais perfeito equilíbrio no Planeta Terra.

  3. Podemos, também, pensar o inverso: o homem e sua atitude de proteção à vida própria ou ao semelhante… é um reflexo animal. Como o macaco, o cão ou a vaca, somos seres viventes. A liberdade está no modo como o homem interpreta e reage a esse princípio, até mesmo negando-o de diversos modos.

  4. Cara.. já leu Michael Tomasello .. o nome da obra é “A Origem Cultural da Aquisição do Conhecimento”. Ele diz o seguinte: Não se pode afirmar se esses comportamentos são naturais dos animais. Veja que este apego (de um animal por outro de outra espécie por estima) pode ser uma atitude aprendida pelo próprio macaco no laboratório (vendo por exemplo os cientistas que se afeiçoam a certos animais.. pois alguns deles ainda sim os devem tratar bem, mesmo sabendo que são para experiências).. Na natureza, os animais tende a ser mais especicistas(racismo de espécies) por uma série de questões (onde nela inclui território).. Essa preposição de que um animal tem essa compaixão natural, nunca foi verificada empiricamente. Na natureza, alguns casos são raros, mas acontecem, e mesmo assim, há de se verificar se é por compaixão, ou por algum interesse (que de alguma forma o animal trás um benefício.. sei lá)

    • Cássio, é bem por aí mesmo. Conclusões absolutas não há. Há, como sabemos, certezas do que não é de jeito nenhum verificado em comportamentos da maioria de espécies. Porém, como lembrou, há atitudes que precisam ser verificadas já que elas destoam da “regra” do que se sabe. Eu parto, como Edgar Morin (“O Enigma do Homem: para uma nova antropologia”), da ideia de que consciência e projeção/objetivação das ações e sentimentos são frutos da cultura. Esta, por sua vez, sendo promovida pelo conceito de trabalho e a apreensão da consciência sobre tais relações. É a sociogênese… Nesse sentido, o fator pensar, sentir, determinar e projetar ações antes de realizá-las, no âmbito da complexidade que envolve o sentimento e as consequências dele, passam a ser também ações humanizadas, humanizantes e culturais. De qualquer forma, as verificações precisam de fato ainda serem feitas, no campo empírico. E anoto aqui o título e tentarei acessá-lo, de modo a ler sua sugestão. Obrigado pelo diálogo!

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